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04/04/2019 | domtotal.com

A Revolução e o careta

Tive oportunidades várias de me tornar um militante antirrevolução, mas resisti e não embarquei na canoa furada.

Certa noite, quando saía da escola ao final das aulas, experimentei e sensação nada agradável de passar por um corredor polonês.
Certa noite, quando saía da escola ao final das aulas, experimentei e sensação nada agradável de passar por um corredor polonês. (Agência Estado)

Por Afonso Barroso*

Era calouro de Direito na UFMG quando eclodiu a chamada Revolução de 64. Com a implantação do arbítrio, a faculdade tornou-se um dos redutos de universitários atuantes na resistência ao golpe militar, mas havia um porém sério: o poder tinha sido tomado com o apoio popular, o que de certa forma enfraquecia as ações contrárias ao regime em vigor. E qualquer manifestação era motivo para prisão e até tortura.

Me lembro de um aluno que subiu certa vez à tribuna no auditório lotado da faculdade para dizer que os militares deviam ter pelo menos dado uma chance ao presidente João Goulart, o Jango, em vez de julgá-lo à revelia e condená-lo à deposição. Não sei se foi só por causa desse discurso, mas o certo é que o jovem ficou indexado como terrorista no Dops (o famigerado Departamento de Ordem Política e Social), braço temível da repressão.

Jango havia derrotado, em plebiscito, a manutenção do parlamentarismo, que se pensava ser uma saída para a crise naquele tempo. Fora implantado como solução para a resistência à sua posse, que os militares não admitiam de jeito maneira. Mas essa forma de governo, que teve como primeiro ministro o mineiro Tancredo Neves, já então uma raposa política, durou pouco mais de um ano.

Jango ganhou no plebiscito realizado no início de 1963, mas não levou. Os militares viam nele a ponte aberta para a entrada no Brasil do comunismo ou da ditadura do proletariado, como dizia a extrema direita, o que era imperioso impedir. Resultado: pouco mais de um ano depois, no final de março de 64, derrubaram Jango e assumiram o poder com o apoio de “próceres” civis, entre eles outro mineiro, Magalhães Pinto, considerado o chefe civil do movimento militar.

Pensava-se que a sequência da História seria uma transição para novas eleições diretas, mas isso foi mera ilusão. Juscelino Kubitschek, que governara o País até a eleição de Jânio Quadros, este um maluco desvairado que renunciou após sete meses de governo, já aparecia como candidato imbatível para prováveis eleições em 1965, mas as eleições não ocorreram. Os militares gostaram do poder e nele resolveram permanecer até segunda ordem...do dia.

Essa segunda ordem só ocorreu duas décadas depois.

Mas o que eu queria dizer é que durante meus quatro anos no curso de Direito, de onde fui sequestrado pelo Jornalismo e pela Publicidade, tive oportunidades várias de me tornar um militante antirrevolução, mas resisti e não embarquei na canoa furada. Tive medo, especialmente por um motivo: certa noite, quando saía da escola ao final das aulas, experimentei e sensação nada agradável de passar por um corredor polonês, formado por militares que procuravam “subversivos”. Eram alvos, especialmente, os universitários das escolas de Direito e da Fafich.

Também não cai em outra tentação, a de fumar maconha, que corria solta na ocasião, especialmente nos inferninhos como o Bucheco da Rua Guajajaras. A recusa ao baseado me garantiu uma honrosa classificação entre os que eram chamados de “caretas”. Graças ao bom Deus, me mantenho careta até o presente momento.

Acho que tive sorte, meu caro amigo e minha amantíssima amiga. O uso da erva maldita por certo estimularia minha coragem e minha revolta com o estado de coisas, o que poderia até impedir que sobrevivesse aos anos de chumbo.

Muitos não sobreviveram, entre eles nosso colega José Carlos, filho do grande Edgar da Mata Machado, professor de Direito Romano na escola da Praça Afonso Arinos.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

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