Religião

04/04/2019 | domtotal.com

Desemprego, precariedade, espoliação. Será este o futuro do trabalho?

Estima-se que com o crescimento da população ativa o número de desempregados aumentará em um milhão a cada ano, até 2020.

O desemprego é crescente e grave. O Brasil tornou-se um péssimo exemplo para o mundo.
O desemprego é crescente e grave. O Brasil tornou-se um péssimo exemplo para o mundo. (Agência Brasil)

Por Élio Gasda*

No ano em que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) completa um centenário torna-se urgente discutir a realidade dos trabalhadores. No relatório “Perspectivas sociais e do emprego no mundo: Tendências 2019” a entidade destaca que ter emprego não é garantia de vida digna. Em 2018 a maioria dos três milhões de trabalhadores no mundo não tinha nível suficiente de segurança econômica, bem-estar e igualdade de oportunidades. São 700 milhões de pessoas que viviam em situação de pobreza extrema ou moderada apesar de estarem empregadas.

Onde houve diminuição do desemprego não se viu melhoria na qualidade de trabalho, o que indica que a meta “trabalho decente para todos”, um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável não será alcançada. 

Outros problemas: persistência do emprego informal (61% da população ativa); um em cada cinco jovens (menores de 25 anos) não trabalha, não estuda, nem recebe qualquer tipo de formação; a desigualdade de gênero permanece: taxa de participação das mulheres no mundo do trabalho (48%) continua inferior à dos homens (75%). Ainda segundo o relatório, em 2018 havia 172 milhões de pessoas desempregadas no mundo. Estima-se que com o crescimento da população ativa o número de desempregados aumentará em um milhão a cada ano, até 2020. Trabalhadores desprotegidos a mercê do furor do capital.

O desemprego é crescente e grave. O Brasil tornou-se um péssimo exemplo para o mundo. De acordo com o IBGE o número de desempregados ultrapassou a marca de 13 milhões de pessoas. Número ilusório, porque os 4,9 milhões que desistiram de procurar trabalho saíram das estatísticas. 892 mil brasileiros passaram a fazer parte da população desempregada. O total de trabalhadores subutilizados fechou em 27,9 milhões de pessoas. Diante das filas quilométricas de pessoas em busca de emprego, o presidente culpa a metodologia utilizada pelo instituto de pesquisa. Além de asneira é uma zombaria contra os pobres. A culpa é do IBGE?

Tamanho desconhecimento o impede de ver que há uma Quarta Revolução Industrial em curso. O mundo das tecnologias invadindo a sociedade, a economia, o transporte, o banco, o mercado, as escolas, o governo, a telefonia. A tecnologia está mudando a forma como vivemos e trabalhamos. Muitos empregos não existirão daqui uma década. No Brasil estima-se uma perda de 50% dos postos de trabalho. Nesse sentido, o relatório "A natureza mutável do Trabalho", do Banco Mundial, aponta para a necessidade de melhoria da saúde, educação e seguridade social para que os trabalhadores tenham acesso aos empregos gerados pela inovação e continuem produtivos. Como evitar que as formas de flexibilização dos contratos, o teletrabalho e subcontratações, não retirem os direitos dos trabalhadores? Como garantir que os jovens, principalmente os pobres, as mulheres e os negros não sejam prejudicados? A estrutura do mercado de trabalho reproduz a inserção em forma desigual e mais precária para os grupos mais vulneráveis. É preciso olhar com responsabilidade, sem medo, para a quarta Revolução Industrial.

Como se não bastasse, o debate em torno do futuro do trabalho, do atual desmonte dos direitos trabalhistas, é preciso destacar o índice de acidentes de trabalho no Brasil. Em 2017, foram contabilizados 574.050, somam-se a eles 1.989 mortes, uma a cada 3h38min. O Brasil ocupa o quarto lugar em uma lista composta por 200 países. Só a Vale matou nesse ano, em Brumadinho, mais de 300 trabalhadores (entre empregados diretos, indiretos e trabalhadores rurais). 

Por parte do governo, de concreto em políticas públicas para o trabalho, emprego e renda, só o fim do Ministério do Trabalho. Governo dos ricos para os ricos. Entrará para a história como inimigo dos trabalhadores. “Quando a economia perde o contato com os rostos de pessoas reais, torna-se uma economia sem rosto, uma economia cruel” (papa Francisco).

Somente o Estado não dará conta dos desafios. Mas cabe ao governo convocar a sociedade para um diálogo na busca de soluções para a crise do desemprego. O Estado quem deve fazer as adequações necessárias nos sistemas regulatórios, fiscais e de proteção trabalhista e social para incluir os excluídos da “quarta revolução industrial”. Uma revolução que deve estar a serviço da humanidade e não do mercado. São exatamente as escolhas do governo em torno da criação de oportunidades, acesso ao mercado e cidadania que darão o tom das fontes e formas dos empregos do futuro.

A discussão em torno das políticas públicas, principalmente no que diz respeito à reforma da Previdência, que afetará de forma imediata o trabalhador mais pobre e vulnerável, como pede a Igreja, precisa ser feita imediatamente. “Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, às condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego” (Artigo 23 da Declaração Universal dos Direitos Humanos). “O trabalho deve dar dignidade a pessoa”! (papa Francisco).

Homens e mulheres nutrem-se de trabalho: com o trabalho estão "ungidos de dignidade. Ao redor do trabalho edifica-se todo o pacto social. Este é o cerne do problema. Porque quando não se trabalha, ou se trabalha mal, se trabalha pouco ou muito, é a democracia que está em crise, é todo o pacto social. (papa Francisco, Gênova). 

O país vive um momento extremamente crítico. Dramático para os trabalhadores. Seres descartáveis? Inúteis? A desumanização do trabalho é a dimensão mais selvagem desta economia.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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