Brasil Cidades

05/04/2019 | domtotal.com

Deu rebu na rede

A coisa pegou fogo, o bate-boca foi inevitável. É justo transexuais disputarem partidas contra mulheres?

Tifanny, a primeira transexual a jogar na elite do vôlei feminino do Brasil, foi escolhida a melhor em quadra.
Tifanny, a primeira transexual a jogar na elite do vôlei feminino do Brasil, foi escolhida a melhor em quadra. (Neide Carlos/Vôlei Bauru)

Por Fernando Fabbrini*

Semana passada um assunto dominou as redes - as do vôlei e as sociais.
A polêmica envolvendo as jogadoras Tiffany – atleta do Bauru, transexual, e Ana Paula – campeã, carreira já encerrada, deu o que falar e continua dando. Uma cortada violenta da Tiffany numa partida da superliga feminina fez Bernardinho, técnico do time adversário, berrar lá do banco:

– É homem! Assim é f....!

Repetiu-se o enredo de outros jogos. Tifanny, a primeira transexual a jogar na elite do vôlei feminino do Brasil, foi escolhida a melhor em quadra. Enquanto ela recebia o troféu, Mari Casemiro, do Pinheiros, desabafou: “sempre que ela estiver em quadra ninguém mais vai ganhar. Ela sempre vai se destacar, sempre estará fisicamente acima de nós”. Outra atleta foi mais irônica: “é uma tremenda jogada isso, não?”

A coisa pegou fogo, o bate-boca foi inevitável. É justo transexuais disputarem partidas contra mulheres? Uma famosa tenista, há alguns meses, dera o seu testemunho inquietante: “é impossível competir em condições de igualdade contra um homem biológico, mesmo que tenhamos o mesmo nível técnico e de treinamento”.

Seguiram-se exaltadas brigas de torcidas e não demorou até o embate de ideias ser “politizado”, acompanhando a chatíssima tendência atual. A biologia cedeu lugar à ideologia. Uma entidade que apoia atletas transexuais mandou ver: “transfóbicos e homofóbicos não vão passar! Parabéns para o time de Tiffany, mulheres incríveis que ganharam por merecimento e sem nenhuma vantagem!”

Não é bem assim. Aceitando ou não, há vantagens físicas do lado de Tiffany.
O médico Paulo Zogaib, professor de medicina esportiva da Unifesp, tem uma visão essencialmente técnica: “No caso de Tiffany, há um detalhe que faz diferença; o fato dela ter feito a cirurgia já com 30 anos. Ou seja: passou boa parte da vida com uma produção hormonal muito maior do que a feminina. Isso acaba influenciando no tamanho dos órgãos, coração, pulmões, a parte óssea, ou seja, as alavancas do aparelho locomotor. Então, isso cria diferenças em relação às mulheres e faz com que ela tenha um desempenho melhor”.

O médico prossegue: “(...) ela passou 30 anos desenvolvendo o corpo de uma forma diferente de uma mulher. Ao fazer a operação e a terapia hormonal ela reduziu, evidentemente, a concentração de testosterona e isso diminuiu também o poder anabólico. O rendimento cai, mas o fato é que Tiffany já teve essa vantagem durante 30 anos. Não quero entrar no aspecto ético, moral, politicamente correto ou incorreto, de inclusão ou não, não é o caso. Só que, fisiologicamente, isso é um fato. Não é pura e simplesmente o controle de testosterona na circulação”.

Atletas femininas sofrem muito com seus níveis de testosterona. Qualquer vestígio num exame pode encerrar uma carreira. Ana Paula Henkel, com milhares de seguidores nas redes sociais, não perdoou e tuitou: “se as entidades antidoping resolvessem testar novamente minhas amostras – e elas podem fazer isso – e encontrassem um traço de testosterona acima do permitido para mulheres, eu perderia retroativamente todos os meus títulos.” E disse mais: “por que será que a duríssima e permanente patrulha médica contra as mulheres, em busca de um esporte limpo, foi de repente abandonada?”  

A situação é tão delicada e confusa que o Comitê Olímpico Internacional (COI) até agora não aprovou nem proibiu atletas transexuais; cada liga faz o que o que preferir. A liga italiana, por exemplo, optou por não aceitar transexuais no vôlei nem em outros esportes – fruto de uma batalha judicial que envolveu muitas mulheres nas quadras e fora delas.

Resta saber qual time vencerá esse rali interminável. A partida saiu da arena esportiva e, infelizmente, entrou na arena virtual dos ferozes gladiadores
do século 21.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas