Religião

05/04/2019 | domtotal.com

A geração dos cristãos bélicos

Em um período em que exaltam ditaduras, torturadores e repropõem cruzadas, momento propício para refletirmos qual rumo o cristianismo tem tomado.

Você se assusta com essa tentativa de ressignificar a ditadura do Brasil?
Você se assusta com essa tentativa de ressignificar a ditadura do Brasil? (Reprodução)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

O historiador alemão Reinhart Koselleck, cujo nome está associado a uma prática metodológica chamada “história dos conceitos”, faz uma reflexão interessante sobre a contemporaneidade. Em seu livro Futuro Passado - contribuição à semântica dos tempos históricos, ele diz que o presente, antes marcado por um expressivo eco de futuro, carrega, no século XXI, uma forte obsessão pelo passado. E não é necessário ir muito longe para constatar isso.

Você se assusta com essa tentativa de ressignificar a ditadura do Brasil? Pois bem. Apesar de ser duro admitir, tal proposta faz parte de um “espírito bélico” que propaga-se em muitos ambientes religiosos do nosso país. É tão verdade que a maioria daqueles que apoiam a tal “comemoração do golpe militar” são justamente os católicos e protestantes autodenominados “pios, devotos e honrados”, os “soldados de Cristo” que combatem o “bom combate da fé”.  

Aquela imagem “inocente” do cavaleiro templário colocada no alto da página de muitos perfis do Facebook é apenas uma demonstração de que, mais uma vez, muitos cristãos têm se rendido às ingerências políticas de grupos que conduzem “guerras santas” contra um inimigo fabricado e politizado. Basta discordar do “alto comando” para ser taxado de comunista, inimigo do país ou anti-cristão. E viva o maniqueísmo difundido pelos poderosos que, sorrateiramente, envenena os cristãos!

O estudioso alemão Adolf Harnack, um dos maiores historiadores do cristianismo do século passado, trata de um tema que condiz com o que estamos tratando neste artigo. Ele questiona como as expressões militares - utilizadas como figura de linguagem em muitos escritos cristãos (Evangelhos, Cartas de Paulo e Apocalipse) -, possam ter tido uma influência concreta na formação de um “belicismo cristão” a partir de meados do século IV. A milícia metafórica, no caso, se transformou em serviço militar pela causa de Cristo: de perseguidos, os cristãos se tornaram perseguidores após a promulgação do édito de Tessalônica, em 380 d.C, quando o imperador Teodósio I transformou o cristianismo em religião oficial do império.

Hoje em dia, faz-se guerra até contra o próprio papa. É como se os profetas da atualidade também fossem inimigos a ser combatidos. Para os tais “soldados de Cristo”, o que vale é o retorno a uma tradição caricaturada que flerta com véus, saias longas, textos em latim e rubricas, não à verdadeira tradição da Igreja cuja essência se fundamenta na vida de Cristo e acompanha os sinais dos tempos.

Quando o pontífice publicou a encíclica Laudato Si’, em 2015, ele foi alvo de críticas por parte de muitos setores conservadores. Dizia-se que “há coisas mais urgentes a serem tratadas pela Igreja em vez de se preocupar com o meio ambiente”. O que muitos não sabem, é que estamos na iminência de, em um futuro não muito distante, presenciarmos uma Water Conflict em largas proporções - uma guerra pelos recursos hídricos. Para se ter uma ideia, a CIA já registrou mais de 500 conflitos ligados à água. Além disso, estima-se que, em 2030, 47% da população mundial padecerá pela escassez desse recurso natural insubistituível.

Agora, me diz: o bom cristão é aquele que previne guerras ou as provoca? Que o pontificado de Papa Francisco e o testemunho de homens e mulheres que fizeram da cruz de Cristo um instrumento de redenção e libertação, não de guerras, promovam a conversão dos cristãos que transformaram a religião em instrumento de poder, conflito e intolerância.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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