Religião

08/04/2019 | domtotal.com

Chorai por vós e por vossos filhos

É inevitável doer-se por aquilo que nos abate, mas não parar no pranto é resiliência.

Situação atual consiste em tempo de choro.
Situação atual consiste em tempo de choro. (Ueslei Marcelino/ Reuters)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Vivemos tempos tristes e de entristecimentos. Já tinha pensado sobre isso e, inclusive, usado este espaço para dizer. Chamou-me a atenção, outro dia, um senhor com o qual conversava e que, apontando para as pessoas na rua, comentou sobre a tristeza delas. As pessoas estão imersas em dificuldades e problemas, e isso não é novo nem só do momento atual. Mas há uma maneira de lidar com tudo isso, que tem levado tristeza às ruas, peso à caminhada, cansaço e desalento no olhar...

Fico pensando no encontro de Jesus com as mulheres de Jerusalém, no caminho rumo ao Calvário. Compadecidas da dor de Jesus, elas pranteiam o sofrimento daquele homem justo, que era torturado. Ele, suportando o peso da cruz, diz-nos a narrativa, consola-as: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos” (Lc 23,28). Soa um pouco estranho, afinal, esse consolo feito por Jesus. Pode parecer prenúncio de algum sofrimento pelo qual aquelas mulheres haveriam de passar, com seus filhos.

Jesus estava consciente do caminho que trilhou em sua vida e dos riscos que corria, por ser fiel à causa que acreditava e que anunciava. Aquele momento de dor e humilhação era consequência de toda uma vida andando na contramão dos poderes que subjugavam e oprimiam o povo, e que impediam a realização da salvação ofertada por Deus, a quem ele chamava de Pai. O seu sofrimento e dores eram reais, mas não estavam esvaziados de sentido: já morto na cruz, o soldado romano reconhece que verdadeiramente ele era o Filho de Deus, afinal havia vencido todas as tentações de uma vida, que o buscavam seduzir a romper com sua causa.

Jesus não nega a solidariedade das mulheres. Mas se dirige a elas com o mesmo olhar e cuidado que sempre se dirigia às pessoas. Diante de toda aquela realidade injusta e opressora, elas já tinham o suficiente com o que se preocupar. O destino de Jesus já havia sido traçado pelos poderes da religião e da política opressoras. Elas ainda tinham com o que lidar e enfrentar e, mais que isso, resistir. É assim que Jesus as consola: não as incentivando a se resignarem frente à injustiça e ao arbítrio, tampouco a ficarem indiferentes com o mal que lhes acometia naquela sociedade.

Este é o nosso tempo de chorar, por nós mesmos e por aqueles que nos são próximos. Chorar, sobretudo, por aqueles e aquelas que estão abandonados na história e que carregam, nas costas, alvos impostos pela violência, estatizada ou não. Chorar por vermos a ganância de uma elite que coloca todo o país diante do risco de voltar à situação de miséria e indigência. Chorar porque ocupam os poderes, pessoas que pensam em destruir seus inimigos, em nome de uma verdade descomprometida com o real. Chorar por todas as pessoas que passam pela precarização do trabalho, pelo desemprego e, em consequência, pelo desespero de não poder dar o básico para suas famílias. Chorar por nós mesmos, que não sabemos como nos comportar diante de tanta crueldade institucionalizada.

Mas é importante dizer: chorar não como quem se entregou e se resignou. Chorar para lavar nosso olhar, para irrigar nossa esperança, para retirar de nós o peso que nos impede de resistir. Não é sem motivos que dizem que o choro lava a alma. Que este choro nos lave e nos faça perceber que podemos, sim, ser resilientes. Nosso destino ainda não está traçado: construamos nós mesmos, pois, a nossa história!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a editoria de religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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