Saúde

07/04/2019 | domtotal.com

Paradigmas da idade provecta

'O tempo é um fio bastante frágil. Um fio fino que à toa escapa'.

'O idoso livre, alegra-se interiormente por expressar seus sentimentos, ganhando para si, qualidade de vida e felicidade'
'O idoso livre, alegra-se interiormente por expressar seus sentimentos, ganhando para si, qualidade de vida e felicidade' (Elza Fiúza/Agência Brasil)

Por Evaldo D´Assumpção* 

Se há algo que incomoda a muitos, é a ação inclemente do tempo sobre tudo e sobre todos. Especialmente os humanos. Alguns apotegmas de várias épocas demonstram a relação dos humanos com o tempo: “Tempus edax rerum” (O tempo, esse devorador das coisas – Ovídio); “Fugit irreparabile tempus” (O tempo foge irreparavelmente - Virgílio); “Tempora mutantur, nos et mutamur in illis” (Os tempos mudam, e nós mudamos com ele” – ditado medieval); “Vassene il tempo, e l´uom non se n´avvede” (O tempo passa, sem que a gente o sinta” – Dante); “Lost time is never found again” (O tempo perdido não se reencontra nunca – Franklin); “O tempo é um fio bastante frágil. Um fio fino que à toa escapa” (Henriqueta Lisboa).

A lista é enorme, mas o tempo e o espaço são escassos para apontá-los todos. O mesmo acontece com as várias denominações comumente utilizadas para definir àqueles, e àquelas, que ultrapassaram a barreira dos 60 anos: velho, velhote, ancião, senil, coroa, pé-na-cova, vetusto, longevo, matusalém, macróbio, idoso, nas formas masculina ou feminina. De todos eles, o termo mais apropriado é 'idoso', 'idosa', pois define melhor o que somos, sem nos qualificar pejorativamente, a nós que ultrapassamos essa barreira etária. E gosto dele, porque é também o mais correto. Idoso é a forma haplológica de “idadoso”, expressão que une idade – o tempo de vida que tem uma pessoa – ao sufixo oso, que representa abundância.

 Por exemplo: caridoso, é quem tem muita caridade; bondoso, é aquele com muita bondade. E assim vai. O idadoso – idoso, em sua forma sintética – é, portanto, aquele que tem maior quantidade de anos de vida, não se devendo confundir com “velho”, que é o desgastado, carcomido, quase acabado. Afinal, existem muitos jovens que já são autênticos velhos... Já o termo provecto, que em sua etimologia representa 'o que impele, que leva para diante, adiantado, que faz andar', é aceitável e até elogioso pelo que significa, porém um tanto quanto rebuscado para se usar rotineiramente. Ele evidencia uma qualidade real, porém nem sempre aplicável a todos os idosos.

Uma característica a nós atribuída é a ranzinzice, condição que abarca a impaciência, intolerância, irritabilidade. Mas, a sua predominância ocorre nos que chamo de `novos idosos´ aqueles e aquelas que a partir das duas últimas décadas do século passado, passaram dos 60, mas continuam com aparência e energia admiráveis, muitos em plena atividade laborativa. Nesses 'novos idosos' a ranzinzice é consequência do orgulho, da vaidade, da prepotência, da soberba e da intransigência, provocadas por não terem ainda alcançado o que chamo de terceira maturidade, na qual já se sabe bastante, e por isso mesmo sabe-se que não se sabe tudo; que ainda podemos bastante, mas que há muito mais coisas que já não podemos, e muito menos devemos tentar. Sob pena de nos tornarmos ridículos, além dos sérios riscos de acidentes de menor ou maior gravidade, a que estamos sujeitos. São os 'novos idosos' que por quase nada, e com frequência, criam enormes casos, reclamam de tudo e de todos, e com esse comportamento passam a imagem de ranzinza para os idosos em geral, estigmatizando os verdadeiros com uma pecha que quase nunca cabe neles.

Em defesa dos verdadeiros idosos e idosas do século XXI, defendo a mudança dessa condição e do seu título respectivo, exclusivamente para os que chegaram e ultrapassaram os 70 anos de idade. Vou além, incluindo os direitos de aposentadoria, e os benefícios que hoje são concedidos a qualquer um que atingiu a juventude estendida dos 60 anos, graças aos avanços da ciência e novos recursos terapêuticos, preventivos e curativos. E também da cirurgia plástica...

Reconheço que, para alguns, as manifestações de ranzinzice são consequências dos anos vividos, da incapacidade de tolerar certas coisas que, na vida longeva que tiveram, mas também nos dias atuais, vão acumulando. Reprimidos na expressão dos seus sentimentos, quando comportamentos demasiadamente liberais batem forte contra suas convicções sociais, familiares e religiosas, recalcam seus aborrecimentos, ao invés de se aliviarem expressando-os, ou simplesmente virando as costas, deixando-os para traz. Com isso acumulam ira sobre ira, mágoa sobre mágoa, tudo agravado por ocasiões em que são obrigados a dar um sorriso simpático, ou acolher as besteiras que acabam de ver ou ouvir. Ultrapassando a barreira do 60, sentem-se liberados para tudo – ou quase tudo... Chegando aos 70, melhor ainda aos 80, descobrem que, mesmo a contragosto dos circunstantes, dizer que não gostam de uma coisa da qual realmente não gostam, é um direito seu. Quando muito, poderão escutar alguém murmurar: “Deixa! Ele já está ficando gagá!”, ou então chamá-lo de ranzinza... O idoso livre, alegra-se interiormente por expressar seus sentimentos, ganhando para si, qualidade de vida e felicidade.

É claro que não estou aqui defendendo a grosseria, a falta de educação, de cavalheirismo, de gentileza, de delicadeza especialmente feminina, coisas que definitivamente não coadunam com idosos de estirpe. Para estes, a manifestação de insatisfação se faz com elegância, com respeito, coisas que, tendo recebido em sua formação cuidadosa na infância e juventude, continuam sendo utilizadas, porém de forma firme e livre, ainda que cortês e sem qualquer agressão, destempero ou desrespeito. Evitando a fofoca, que não lhes apraz, e os comentários mordazes e ofensivos, a ironia tosca e contundente. Atitudes que os jovens de hoje quase não conhecem, pois não lhes ensinaram, e nem eles aprenderam. Com honrosas exceções, como há exceções nas diferentes categorias de idosos e idosas que acabo de descrever.


*Evaldo D´Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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