Religião

10/04/2019 | domtotal.com

A tentação do poder: uma Igreja que adora ao diabo

Se a lógica de Jesus é a do serviço, a proposta do diabo é o apego ao poder.

O diabo mostra a Jesus todos os reinos do mundo e a glória deles, oferecendo-os a ele se o adorasse.
O diabo mostra a Jesus todos os reinos do mundo e a glória deles, oferecendo-os a ele se o adorasse. (Pedro Lastra/ Unsplash)

Por Fabrício Veliq*

A luta pelo poder não é algo novo. Qualquer pessoa que leia sobre as histórias das sociedades antigas percebe que a tônica das disputas sempre foi para o exercimento do poder sobre maiores faixas de terra, o que, consequentemente, traria mais vantagens comerciais e maior status àquele líder que conseguisse angariar para si um grande império.

O próprio texto bíblico narra as diversas guerras travadas pelo povo de Israel, principalmente em seu período monárquico, para a dominação de territórios e o subjugar dos povos dominados, muitas vezes tornando-os escravos, como nos mostra as histórias do reinado de Salomão, que se tornou um grande rei em seu tempo, fazendo com que Israel crescesse no meio oriente.

Da mesma forma, as narrativas acerca dos dois exílios pelos quais o povo de Israel passou também trazem à baila essa dinâmica das nações guerreando entre si para aumentarem o seu poder e ditarem as regras de como agir para todos os subordinados aos seus domínios. Mais adiante, sob os domínios persa, grego e romano essa dinâmica se manteve, de maneira que guerrear em busca de poder era a ordem do dia a dia das sociedades antigas.

Não é de se admirar, assim, que uma das tentações que Jesus tenha sofrido foi justamente a tentação do poder. Isso fica muito claro no texto de Mateus 4, quando o diabo (cuja palavra quer dizer “adversário”) mostra a Jesus todos os reinos do mundo e a glória deles, oferecendo-os a ele se este o adorasse. Uma interpretação possível seria a de que o evangelista desejaria alertar à sua comunidade quanto aos riscos que o poder temporal traz, podendo até mesmo se tornar instrumento para adoração ao adversário de Deus (algo que pode ser compreendido tomando como exemplo o que representava ser César no tempo em que o texto do evangelho foi escrito) indo contra a sua vontade.

Sob essa tentação, diversas vezes, o cristianismo posterior a Jesus sucumbiu-se. A Idade Média se mostra como esse marco de uma Igreja que tomou o poder temporal e fez com que todos e todas que não se submetessem a ela fossem torturados, presos e mortos, uma vez que não aceitava nada que ia contra o poder que exercia e que acreditava ter sido dado por Deus.

Hoje em dia, por sua vez, volta a crescer um movimento cristão que tem pretensão de poder. O neopentecostalismo e diversos movimentos de matrizes fundamentalistas trazem isso de maneira muito clara por meio de seus líderes que desejam que a nação e o mundo todo se convertam à religião cristã, porque estão convictos de que essa é a vontade de Deus para o mundo. Ao desejarem isso, por sua vez, muitos desses líderes visam o exercimento do poder, o domínio sobre as decisões importantes do país em que se está inserido, o lucro em cima de acordos vantajosos para comunidades amigas das lideranças e famílias que exercem o poder nos meios cristãos.

No entanto, o texto bíblico e as narrativas evangélicas a respeito da vida de Jesus mostram o contrário disso, revelando que o poder de Deus se revela na chamada fraqueza da entrega total em amor a todos e todas, independentemente de raça, religião e nacionalidade. O poder temporal nunca foi a ideia de Jesus; muito pelo contrário, fugiu quando o queriam como rei, não aceitou o poder que seria dado pelo adversário caso se submetesse à sua vontade, e entregou-se voluntariamente aos líderes religiosos de seu tempo, que exerciam o poder sobre a comunidade. Mostrou, assim, que o poder de Deus e sua onipotência, em nada têm a ver com o poder temporal e eliminação dos que lhe são contrários, antes, justamente, com o amor derramado em favor da humanidade.

Adorar a Deus e prestar culto a ele é, de acordo com o Evangelho, fazer a vontade do Pai, o que implica amar a todos e todas, vestir aos que não possuem roupas, dar de comer a quem tem fome, zelar pela causa e direito dos mais pobres e desfavorecidos, estar ao lado dos/as que sofrem diariamente, mostrando o amor que liberta da escravidão.

Diante disso, uma Igreja que visa o poder temporal e faz uso de todos os meios para ascender a esse poder nada mais é do que uma Igreja que caiu na tentação feita por satanás, e prostrada, decide adorá-lo.

Apesar disso, é sempre importante lembrar-se de que o poder do amor, por mais fraco que possa parecer, ainda é maior do que o poder temporal, bastando que, para sua manifestação, os seguidores e seguidoras de Jesus Cristo estejam dispostos a seguir os passos do mestre.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE) e Doctor in Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven). E-mail: fveliq@gmail.com

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