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09/04/2019 | domtotal.com

O galo cantou!

Ela apontou para um quintal grande ali embaixo, onde estavam algumas galinhas e um galo com a crista empinada.

O interessante dessa história toda foi que me lembrei da minha querida tia Sinhá, que tinha um galinheiro no quintal de casa, no Brasil.
O interessante dessa história toda foi que me lembrei da minha querida tia Sinhá, que tinha um galinheiro no quintal de casa, no Brasil. (Pixabay)

Por Lev Chaim*

Às vezes, ocorre-lhe algo que o deixa boquiaberto? Não pela fato em si, mas por estar acontecendo agora, algo que há muito tempo não via, algo de sua infância? Pois foi isso que me ocorreu quando andava pelos diques ao redor da cidade com o meu cão, ao encontrar-me com uma conhecida e seu cãozinho. Caminhamos um bom pedaço juntos. E foi ela que me plantou a total surpresa desse dia.

Com sua voz rouca, ela contou-me o que lhe havia ocorrido naquela manhã, quando ia pegar o carro para ir ao trabalho. Seu veículo estava estacionado numa pracinha próxima dali, em frente das casas com quintais para o dique. Num determinado momento, ela apontou para um quintal grande ali embaixo, onde estavam algumas galinhas e um galo com a crista empinada.

  • “Está vendo aqueles ali? Hoje de manhã, eles estavam todos na rua e justamente ao lado de meu carro. Quando estava para abrir a porta, o galo veio em minha direção com a crina empinada e me ameaçou com bicadas na perna, no que eu saí correndo. Quando eu ameaçava voltar e ele vinha com tudo, no que eu fugia novamente. Depois de dez minutos, bati na porta da casa da dona dos galináceos. Ela veio e eles puseram-se a correr. Só então pude entrar no carro. Aí, aproveitei a ocasião e disse a ela que não era permitido galinhas soltas na rua.”

Foi nesse momento que me coloquei a rir sem parar. Minha conhecida arregalou seus olhos e perguntou se eu aprovava que as galinhas caminhassem soltas na rua. Um dia seriam mortas por algum carro, complementou ela. Ainda com um sorriso na boca, perguntei a ela: Na sua juventude, nunca teve contatos com criação de galinhas em casa ou na casa de seus pais? Ela, boquiaberta, respondeu: “Claro que não. Mas o que isto tem a ver com a minha pergunta?”

Eu a tranquilizei e disse que ela estava certa: sem galinhas na rua, pois era um perigo e tanto para elas próprias como para o motorista do carro que ia e vinha. Aí então ela se acalmou. Eu não lhe havia contado que, antes, já havia perguntado à dona daquela casa se ela não recebia multas por deixar as galinhas irem até a rua. A mulher me respondeu a mesma coisa que ela responde a todos, ou seja, que ela iria fazer uma cerca para impedir que elas saíssem do quintal. Isso, há um ano e meio.

O interessante dessa história toda foi que me lembrei da minha querida tia Sinhá, que tinha um galinheiro no quintal de casa, no Brasil. Quando a casa foi reconstruída, passou a ter um galinheiro pequeno, com rodinhas, para apenas quatro frangos. Foi dessa época que me lembrei quando ouvi essa história. Tia Sinhá colocou a cabeça dentro da casinha para trocar a água e encher a vasilha de milho, quando alguns frangos lhe bicaram a orelha. Ela retirou a cabeça e notou imediatamente que os brincos haviam sumido. A conclusão: eles os engoliram. Eram quatro e os quatro foram mortos, inspecionados, mas a tinha Sinhá não encontrou nada. Quando a coisa já estava feita, ela encontrou os brincos no chão da casinha. 

Por um determinado acontecimento, a infância retorna ao presente, tal qual criar galinhas em casa e deixá-las soltas na rua. Quando contei tudo isso a esta conhecida, que foi ameaçada pelo galo, ela finalmente sorriu, mas não deixou de acrescentar: “Sabe o que a dona das galinhas me disse? Que eu podia ter dado um pontapé em direção ao galo, que ele fugiria com medo. O galo estava apenas defendendo seu galinheiro.” E aí vem o final magnífico. A minha conhecida disse à dona dos frangos: “A senhora que me desculpe, mas a rua não é de seus galos e galinhas, e nunca foi, mas sim de todos os habitantes da cidade que por ali passam”. Sorrindo bastante, finalizamos o nosso passeio com os nossos cãezinhos. Que delícia voltar à infância, nem que por alguns minutos, especialmente quando se tem memórias de instantes felizes.

Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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