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10/04/2019 | domtotal.com

O desabafo do velho garçom

'Sou garçom há 47 anos e nunca me senti tão triste com a minha profissão como hoje', disse o velho.

Jovino disse que, de certa maneira, sentia-se grato porque a confiança dos clientes bacanas lhe ajudaram a resolver um monte de problemas.
Jovino disse que, de certa maneira, sentia-se grato porque a confiança dos clientes bacanas lhe ajudaram a resolver um monte de problemas. (Pixabay)

Por Pablo Pires Fernandes*

Eram umas 3h da matina quando Jovino chegou ao Vagalume 2, restaurante na Avenida Olegário Maciel. Há tempos não ia mais ali, mas se sentia à vontade no ambiente frequentado por trabalhadores da noite – garçons, travestis, taxistas, prostitutas e uma fauna de malucos famintos da madrugada. O funcionário reconheceu o velho e colocou a cerveja sobre o mármore. Não pronunciaram palavra alguma.

Jovino perscrutou o salão do bar em busca de um ouvido e escolheu, como vítima para seu necessário desabafo, um jovem acanhado que comia o feijão tropeiro com voracidade. O velho pigarreou para chamar a atenção e indagou se poderia se sentar à mesa. O rapaz assentiu e voltou a se dedicar ao prato de comida.

Depois de cruzar os talheres e do longo gole de Fanta Uva, Josias recostou e encarou Jovino. “Sou garçom há 47 anos e nunca me senti tão triste com a minha profissão como hoje”, disse o velho. Os dois se tornaram cúmplices quando o jovem revelou também ser garçom.

Menos constrangido, Jovino desabafou. “Trabalho há 16 anos no Vecchio Sogno, restaurante de grã-fino, no prédio da Assembleia Legislativa.” O jovem escutava o velho e palitava os dentes.

“O restaurante é chique, só vai lá a alta roda. Tenho uma ótima relação com os clientes, são advogados, médicos e um tanto de político e deputados. Se eu lhe contasse as coisas que ouvi lá, não acreditaria. Já vi muito conchavo sendo feito naquelas mesas, já vi maletas passando por debaixo da mesa, muito voto sendo comprado e coisa que a PF ia gostar de saber.”

Jovino dava voltas no falatório. Disse que, de certa maneira, sentia-se grato porque a confiança dos clientes bacanas lhe ajudaram a resolver um monte de problemas. Um advogado – “dono de um dos mais importantes escritórios da cidade” – fez, o inventário de sua mãe, “o melhor dentista de BH” lhe atendia sempre que precisava, tudo de graça, na amizade mesmo.

Josias, então, levantou a mão para interromper a conversa e foi duro com o colega, afirmando que não era certo o velho aceitar favores e tal. Jovino concordou com a crítica, mas argumentou ser tudo amizade, nunca houve troca de favores e que ele apenas era um garçom dos velhos tempos.

“Agora é diferente. Você não imagina como a gente era considerado. E hoje – é por isso que estou aqui conversando com você –, eu fui desrespeitado. Um sujeito jovem me insultou e me xingou por causa da demora no pedido. O restaurante estava lotado e a turma da cozinha esqueceu o pedido dele. Ele tinha sua razão, mas não precisava me chamar de preto fodido e incompetente, né?.”

Josias olhou o relógio engordurado e tinha cinco minutos para chegar ao ponto do ônibus. No trajeto de 50 minutos até o Barreiro, ficou pensando no que tinha ouvido. Sentiu pena de Jovino diante da arrogância do babaca, imaginou aquele velho senhor, com sua dignidade sexagenária. No dia seguinte, foi trabalhar com enorme orgulho de seu ofício de garçom.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista há mais de 20 anos, trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais O Tempo e Estado de Minas, onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do Dom Total.

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