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11/04/2019 | domtotal.com

Palmas para o repórter

O grande repórter é escravo da verdade, o que o eleva a senhor da informação.

As notícias têm tanto respeito pelo repórter que às vezes o procuram, nem esperam que ele vá atrás delas.
As notícias têm tanto respeito pelo repórter que às vezes o procuram, nem esperam que ele vá atrás delas. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Todo mundo tem seu dia. Tem o dia da mulher, das mães, dos pais, da criança, do padeiro, do médico, do eletricista, do gari, do advogado, do policial, do cozinheiro, do açougueiro, do negro, do índio, do Menino Jesus...

Este mês teve um: 7 de abril, Dia do Jornalista. Isso me faz lembrar um outro que em geral passa despercebido, o que é muito injusto: 16 de fevereiro, Dia do Repórter. Pois em verdade vos digo que este sim, é que deveria ser chamado Dia do Jornalista.

Como sabemos, e quem não sabe precisa saber, o jornalismo é subdividido em diversas funções. Jornalista pode ser editor, editorialista, cronista, revisor (que parece ter sido eliminada, mas não devia) e a função principal, a mais importante de todas, que é a de repórter.

Repórter, meu caro amigo e minha amantíssima amiga, é o verdadeiro jornalista. É ele que preenche os espaços mais nobres do jornal ou do rádio ou da tevê, das redes de internet. A ele cabe a tarefa de ir atrás da notícia, que costuma estar escondida numa gaveta do pensamento de um político, nos planos de um empresário, nas entranhas de uma organização qualquer, pública ou privada, na esquina de uma rua, na curva de uma estrada, no meio do mato, na enxada do homem da roça, no fundo de uma represa da Vale ou de um rio que a Vale irá enlamear.

As notícias têm tanto respeito pelo repórter que às vezes o procuram, nem esperam que ele vá atrás delas.

Na minha vida de jornalista, nunca pude ser chamado de repórter. Trabalhei nessa subdivisão não mais do que dois anos, tempo em que fiz umas duas ou três matérias, se tanto, capazes de receber elogios do editor e chamar a atenção dos leitores. Por mais de trinta anos fui jornalista de cozinha. Copidesquei, revisei, fiz chamadas, editei e titulei matérias.

Não pensava que ser cronista fosse minha praia, mas já que vesti o calção, estou dando um jeito de enfrentar as ondas num mergulho meio que suicida. Mas, enfim, acho até que tenho me saído razoavelmente bem. Ou não?

Como sou leitor inveterado, gosto de tudo no jornalismo, com a exigência de que esse tudo seja bom. Gosto de uma boa edição, uma boa crônica, um bom editorial, uma boa crítica literária, de cinema ou de outra arte qualquer. Gosto de chargistas, de humoristas, de analistas políticos, de cronistas esportivos.

Mas a parte maior da minha admiração, em matéria de jornalismo, é pelo repórter.

As grandes reportagens são feitas, como é óbvio, pelos grandes repórteres. Como foi na renúncia do presidente Nixon, resultado do jornalismo investigativo dos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein; no impressionante livro-reportagem com o título de Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex, sobre o manicômio de Barbacena, e muitas e muitas e muitas outras.

O grande repórter é escravo da verdade, o que o eleva a senhor da informação.

Conheci alguns grandes repórteres, e tomo a liberdade de citar o Jadir Barroso. Era tão preocupado em informar corretamente que tinha por hábito ligar para alguma personalidade que entrevistara e ler o texto para garantir que estava reproduzindo fielmente as declarações do entrevistado. Com esse tipo de procedimento, até então inédito no jornalismo, Jadir angariou confiança e respeito no meio político. Muitos passaram a seguir essa orientação e se tornaram ainda melhores no ofício.

Eu gostaria de ter sido repórter, mas não tinha vocação para isso. Sabia mesmo era cuidar da cozinha do jornal, pra servir bem temperadas ao leitor as notícias trazidas pelos bravos repórteres, esses admiráveis desbravadores. 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

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