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09/04/2019 | domtotal.com

'Órfãos da Terra': virtudes e pecados

Ao tentar cooptar a simpatia do público para a causa dos refugiados, a Globo desfere uma flechada certeira no coração do bolsonarismo.

O apuro visual dos primeiros capítulos impressiona na mesma medida que engana.
O apuro visual dos primeiros capítulos impressiona na mesma medida que engana. (TV Globo/Divulgação)

Por Alexis Parrot*

O assunto é importante e definitivamente está na moda. Não poderia demorar muito mais até a questão dos refugiados aportar nas novelas da Globo. Ao mesmo tempo em que conforta saber que a trama está a cargo de Thelma Guedes e Duca Rachid, autoras cuja sensibilidade e lirismo já foram demonstrados em trabalhos anteriores, incomoda que tudo seja servido de forma tão despolitizada.

O apuro visual dos primeiros capítulos impressiona na mesma medida que engana. A autoimposta obrigatoriedade de assepsia da Globo (mesmo com barracas verídicas, cedidas pela ONU), consegue transformar até um campo de refugiados no Líbano em impecável acampamento de escoteiros mirins.

A travessia do Mar Mediterrâneo pela família protagonista, a Grécia como destino, em frágeis botes de borracha, alvejados por tiros a certa altura, foi digna de fita de ação norte-americana.

Porém, a autoria dos disparos não mereceu identificação – deve ser coisa corriqueira, que acontece por ali o tempo todo, como praxe nos subúrbios do Rio de Janeiro sob intervenção militar.

Há uma obrigatoriedade didática da qual a novela se exime. Ao tratar de tema tão candente e específico (e, de certa forma, distante da realidade brasileira), lacunas como esta, deixadas no meio do caminho, desinformam e desviam a atenção do verdadeiro drama.

Toda a melancolia épica da jornada resta diminuída, uma vez que ao público é negada qualquer contextualização para os perigos que ameaçam aqueles de carne e osso que serviram para moldar os personagens da ficção. O que era drama, acaba virando mero bangue-bangue.      

Após o naufrágio, pelo menos, resistiu-se à tentação de repetir a imagem de Aylan Kurdi: o menino refugiado morto na praia da Turquia cuja imagem emocionou todos em 2015, criando renovada atenção para a tragédia da guerra civil síria – que naquele momento já durava quatro anos. Mas, como alegria de pobre dura pouco, a criança acabou também na novela, citada na figura de uma boneca de pano vermelha caída na areia – junto a outros pertences dos náufragos e às metáforas óbvias que deveriam ser evitadas a todo custo. 

As cenas do bombardeio que abriram os trabalhos do folhetim, em termos de efeitos especiais, não deixaram nada a dever a obras do gênero, como a série Jack Ryan, seriado de espionagem do Amazon Prime com John Krasinski,  ou o recente Beirute, bancado pelo Netflix e estrelado pelo Madman Jon Hamm.

Cabe a lembrança porque ambos comungam do pontapé inicial de Órfãos da Terra; um clichê já revisitado  em um sem número de obras estrangeiras. Neste quesito, a novela só não atinge a categoria de pecado mortal porque a capacidade de realização da Globo é impressionante. Do contrário, não teria sido possível transformar o bairro carioca de Anchieta em cidade fictícia encravada na Síria em plena guerra civil.

A escolha da Síria para ponto de partida da novela resulta apenas aleatória porque a guerra é plasmada em uma entidade genérica, como se todas as guerras fossem a mesma. O grande perigo a ser evitado é a ação de um sheik mau como um pica-pau e não a de autoridades e interesses transnacionais; ou mesmo das forças locais que dão corpo ao conflito no país, como o exército, as brigadas rebeldes ou as milícias fanáticas do Estado Islâmico. Tudo leva a crer que o ditador Bashar al-Assad deve ser uma irmã de caridade perto do Aziz de Herson Capri. 

A partir da história do amor impossível de Laila (Julia Dalavia) e Jamil (Renato Góes), apontando para o conto de fadas com final feliz após muitos percalços, todos os pilares em que se baseiam a narrativa soam estereotipados. Um bom exemplo é o núcleo dos personagens de Paulo Betti e Eliane Giardini; ela uma cidadã síria radicada há décadas em São Paulo, onde criou os filhos com o marido brasileiro.

A despeito da luxuosa assessoria de Mamede Jarouche, verdadeira autoridade em cultura árabe e tradutor dos livros das Mil e uma noites a partir do original, em um típico almoço árabe na casa da família tipicamente árabe de Betti e Giardini, o que é servido? Quibe – daqueles que se vendem nos botequins. Mais prosaico e reducionista, impossível.

Para os próximos capítulos, é previsível que a narrativa dos refugiados de guerra perca o protagonismo para se transformar somente naquelas dos imigrantes lutando para se aclimatar na nova pátria, já contadas centenas de vezes em nossas novelas.

O grande mérito de Órfãos da Terra acaba sendo não o que se vê na tela da TV, mas a pertinência de explorar o assunto neste momento. É um enfrentamento corajoso da demonização que a comunidade árabe tem sofrido no país.

Este movimento, de extrema força no seio das religiões evangélicas neopentecostais, foi abraçado e difundido por Bolsonaro durante a campanha presidencial e segue a galope, enquanto o presidente faz juras de amor eterno a Israel e aos Estados Unidos segregacionistas da era Trump.     

Publicado e apagado uma hora mais tarde, o tuíte do deputado federal Eduardo Bolsonaro, (que se acha uma espécie de dublê de chanceler, sentado ao lado direito do pai), onde expressava o desejo de que o Hamas se explodisse, é paradigmático para entender a irresponsabilidade crassa de nossos dirigentes e daqueles que cercam o poder. Caso persista na toada, o governo pode estar abrindo uma caixa de Pandora de consequências imprevisíveis.

Ao tentar cooptar a simpatia do público para a causa dos refugiados, a emissora desfere uma flechada certeira no coração do bolsonarismo, dono de uma agenda xenófoba e preconceituosa.

Porém, não é segredo para ninguém que a Globo (junto com a Folha de São Paulo) é o alvo favorito de Bolsonaro em sua cruzada contra todo meio de comunicação que lhe faça críticas. Verbas de publicidade já foram canceladas e há a promessa de uma nova lei que, na prática, poderia minguar o lucro publicitário astronômico do canal da família Marinho.

Apesar de Órfãos da Terra configurar uma iniciativa essencial para frear uma inédita, mas crescente islamofobia que assombra o Brasil, não podemos perder de vista tratar-se também de mais um lance da queda de braço declarada entre presidência e Rede Globo.

Em toda guerra, há heróis e vítimas; mas o que as determinam são sempre os interesses do poder.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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