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11/04/2019 | domtotal.com

Barcos passando em corredeiras

Hoje percebo que todos os dias o país está acordando na contramão e tento em mim mesmo inverter a direção.

Chove demais. Nas Minas Gerais, em São Paulo, no Rio de Janeiro onde desabam as encostas, as neblinas, as esperanças sibilinas.
Chove demais. Nas Minas Gerais, em São Paulo, no Rio de Janeiro onde desabam as encostas, as neblinas, as esperanças sibilinas. (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Por Ricardo Soares*

Me sinto uma ovelha desgarrada da nação. O não resultado de uma obturação. Uma cárie imensa, fundida em dores que vem do passado, uma enxurrada que desce de lado, cheia de lama, ensopando conhecidos meus.

Chove demais. Nas Minas Gerais, em São Paulo, no Rio de Janeiro onde desabam as encostas, as neblinas, as esperanças sibilinas, que muito mais que rimas femininas, são tudo aquilo que nos foge à compreensão porque Deus não parece justo no país dos descontentes.

Hoje percebo que todos os dias o país está acordando na contramão  e tento em mim mesmo inverter a direção. Mas no corpo tudo dói, o desamor não constrói e me sinto injusto com aquela que me dedica seu tempo, sua atenção, me cuida, me dá bom dia, me estoura pipocas.

Do meu ladinho são como barcos passando depressa em corredeiras. Não há tempo de ver ninguém , sequer alcançar. E eu desaprendi de pescar. Não quero iscas prontas e nem bitucas amanhecidas e nem conversões que já foram proibidas.

Há luzes frias, muito fortes. Incomodam minha vista. Quero o lusco -fusco, os sóis que se puseram, as fogueiras que fizeram remotos quentões.  São João assa pinhão. Vejo uma garoa brotando dentro de mim. Faz um friozinho e não me agasalho. Eu, aos poucos, me talho.

*Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários

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