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15/04/2019 | domtotal.com

Israel: esta vitória de Bibi não é como as anteriores

Para Bibi, a ameaça de perder o poder foi a maior de sempre, em parte porque surgiu pela primeira vez um oponente de igual peso, o general Benny Gantz.

O vencedor será, pela quinta vez, Benjamin Netanyahu, o primeiro ministro há mais tempo no poder.
O vencedor será, pela quinta vez, Benjamin Netanyahu, o primeiro ministro há mais tempo no poder. (Reuters)

Por José Couto Nogueira*

Não há dúvidas de que, também no que diz respeito a países, as dimensões não determinam a importância. Israel, com 22 mil quilômetros quadrados entalados entre inimigos e 9 milhões de habitantes com minorias antagônicas, tem uma enorme importância no xadrez das nações. Por isso, as eleições em Israel têm consequências que não se podem ignorar. E as últimas, a fechar nesta quarta-feira (10), são as mais importantes dos últimos anos.

O vencedor será, pela quinta vez, Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro há mais tempo no poder: é a quinta eleição que vence, depois de ter ocupado o cargo entre 1996 e 1999, e continuamente desde 2009. Mas a continuidade de Bibi (como lhe chamam amigos e inimigos) representa mudanças significativas dentro da política israelita. São determinadas pelas próprias circunstâncias do primeiro-ministro e pelas alterações da sempre semovente política internacional.

Para Bibi, a ameaça de perder o poder foi a maior de sempre, em parte porque surgiu pela primeira vez um oponente de igual peso, o general Benny Gantz, e em parte porque está ameaçado por três investigações de corrupção, fraude e “quebra de confiança”. Sentindo-se encurralado, lançou para a arena a proposta radical de anexar a Cisjordânia, para captar os votos da extrema direita, ao mesmo tempo que classificou as acusações levantadas por Avichai Mandelblit, o procurador-geral, como maquinações da esquerda.

O mapa eleitoral do Knesset – o Parlamento do Estado de Israel, com 120 lugares – é muito diversificado, com 43 partidos, todos pequenos e mínimos, menos o Likud, de direita, e o Azul e Branco, de centro direita. Nestas eleições, ficaram empatados, com 35 lugares cada um (com 90% dos votos contados), mas o partido de Bibi tem mais aliados potenciais, os partidos religiosos e de extrema-direita, o que o levará a formar governo. 

Não é uma situação inédita; em toda a sua história, Israel foi governada por coligações. A novidade é a igualdade do Likud com outro partido, e representa uma regressão eleitoral de Bibi – tanto mais que Gantz é um novato na política. A sua única credencial é ser general, num país onde os militares têm muito prestígio. 

Em termos de programa, apresenta-se mais moderado, o que significa uma atitude menos agressiva para com os árabes, tanto os 17% que vivem dentro do território israelita como os que vivem no cada vez mais improvável Estado Palestiniano. Quanto a Bibi, pode gabar-se de uma economia sólida, a manutenção firme da segurança e, desde que Trump é presidente dos Estados Unidos, nítidos avanços diplomáticos.

Grosso modo, a história de Israel pode ser dividida em dois períodos. Desde a independência, em 1948, dominou o grupo de imigrantes que tinham começado a chegar em números significativos na década de 1920. Na década de 1930, já eram mais de 250 mil, sob protetorado britânico, em guerra intermitente com os palestinos. A partir de 1947 começaram a atacar também os ingleses, que acabaram por abandonar a região. A maioria desses imigrantes vinham de países do Leste europeu, vítimas de perseguições na Rússia, na Polônia e, finalmente, de extermínio programado na Alemanha.

A ideia de criar um Estado judaico bíblico é mais antiga, foi teorizada pela primeira vez por Theodor Herzl, em 1896, mas como os judeus se sentiam integrados nos países onde residiam, o chamado sionismo era apenas um ideal utópico. Em 1900, havia cerca de 9 milhões de judeus na Europa, 1,5 milhão nos Estados Unidos, e apenas 400 mil nos países do Norte de África. Foram as perseguições – pogroms – que fizeram levar a sério a restauração da Palestina judaica, abandonada pelos judeus entre o final Império Romano e a Idade Média.

Neste período de intensa imigração e primeiros problemas com os árabes, predominavam as ideias de esquerda – anarquismo, comunismo, socialismo. Tanto que as primeiras estruturas criadas para ocupar o território foram os kibutzes, comunidades igualitárias onde tudo era partilhado. O primeiro presidente, quando se deu a independência, David Bem-Gurion, era socialista. 

Até cerca de 1977, os governos foram coligações de esquerda, com uma atitude paternalista em relação aos habitantes árabes dentro do território e defensiva em relação aos países árabes limítrofes. Israel não atacava, mas sempre que era atacado vencia e aumentava o seu território.

O segundo período histórico deve-se em grande parte ao peso dos novos grupos de judeus imigrados, que já não eram de esquerda. Começa simbolicamente em 1995, com o assassinato do primeiro-ministro trabalhista (socialista), Ytzhak Rabin, por um militante nacionalista. Desde a década de 1970 que o Likud dividia o poder com a esquerda, em conjunto ou alternadamente, o que correspondeu a uma variação nas políticas mais ou menos conciliatórias com os árabes; mas a partir do primeiro governo de Netanyahu, em 1996, a inflexão passou a ser ofensiva e assumiu-se insinuosamente o projeto de reconstituir o território do tempo do rei David. 

O projeto da “solução de dois Estados”, votado pela ONU em várias datas e objeto dos acordos de Oslo (1993) e Anápolis (2007), entre outros, nunca chega a ser oficialmente abandonado por Israel, mas é evidente que Sharon, Barak Olmert e Netanyahu  (os PMs desta época) não faziam as mínimas tenções de aceitar um Estado Palestino. As vitórias contra os países árabes vizinhos em várias guerras e as revoltas (“intifadas”) dos árabes dentro de Israel e nas zonas ocupadas justificaram a ampliação do território, sendo as mais notáveis as ocupações da Cisjordânia e Jerusalém, em 1967, na sequência da Guerra dos Seis Dias.

A superioridade militar de Israel se deve à preparação superior do seu Exército, as HaHagana (“Forças de Defesa”), à eficiência dos seus serviços de informação (o famoso Mossad) e ao apoio em fundos e material bélico dos Estados Unidos. 

Os lobbies judaicos na América e Europa têm contribuído sistematicamente para a sustentação do país, tanto através de suporte diplomático como de fornecimentos de equipamento. Basta verificar que nunca nenhum candidato presidencial norte-americano, democrata ou republicano, deixou de declarar publicamente o seu apoio incondicional a Israel, sob pena de perder as eleições. 

E, uma vez eleito, mesmo defendendo a solução dos “dois estados” ou tentando mediar a situação, nunca deixou de proteger Israel por todos os meios. Os governos europeus, sentindo-se culpados pela origem da situação – a famosa divisão da Península Arábica no Acordo Sykes-Picot, em 1916 – apoiam financeiramente os palestinos, mas têm aceitado sempre as ações militares das HaHagana.

A partir da eleição de Trump, o apoio americano tornou-se mais abertamente favorável aos Israelitas – não se sabe exatamente porquê, mas pode presumir-se que o presidente ganha assim o eleitorado judaico, tradicionalmente democrata, sem prejuízo para a sua visão da ordem internacional. Trump decidiu por conta própria mudar a embaixada dos Estados Unidos de Tel-Aviv para Jerusalém, sagrando assim a cidade como capital de Israel, uma velha ambição dos israelitas, e aceitou a integração das Colinas de Golã ao país. Também certamente garantiu a Bibi que pode anexar a Cisjordânia. De pretensos mediadores da disputa israel-árabe, os norte-americanos passam assim a declarados apoiantes da consolidação do Estado Judaico bíblico. Esses triunfos diplomáticos foram amplamente reivindicados por Bibi na sua campanha eleitoral.

Os europeus continuam a lamentar tudo e a não fazer nada – a União Europeia está a braços com problemas mais prementes, como o renascimento dos nacionalismos, o Brexit e o fluxo de refugiados.

Ganhas as eleições com o apoio dos partidos nacionalistas e de extrema direita, Bibi propõe-lhes uma troca conveniente: a integração das colônias da Cisjordânia a troco de legislação que o proteja da lei, mesmo retroativamente.

A integração de toda a Cisjordânia coloca Israel num trilema: não consegue ter simultaneamente uma maioria judaica, o território inteiro e uma democracia que não discrimine os árabes. Teria de sacrificar território e aceitar a solução de “dois Estados", ou manter a maioria judaica num Estado “binacional” e aceitar uma democracia plena com os mesmos direitos para todos. Ou seja, é uma quadratura do círculo, ser democraticamente soberano num território com 425 mil judeus e 3,5 milhões de árabes.

Atualmente há 131 colônias na Cisjordânia, com 425 mil judeus. Em Jerusalém vivem 220 mil judeus e 345 mil árabes.

É verdade que os árabes que já estão dentro de Israel, cerca de 17,5% da população, têm uma qualidade de vida muito superior aos que estão na Faixa de Gaza e na Cisjordânia; mas são cidadãos de segunda, com direitos muito reduzidos. O Mossad mantém-os sob controle e, mesmo com alguma dificuldade, não deixará de o fazer eficientemente nos novos territórios, coordenado com as HaHagana. Nos seus discursos de campanha, Bibi ora falou de anexar as colônias, especialmente o de Maale Adumim, nos subúrbios de Jerusalém, ora de anexar toda a Cisjordânia. Mesmo que comece só pelos territórios das colônias, isolando os árabes em pequenas “ilhas”, o projeto final é todo o território. A grande questão é com que velocidade Bibi quer chegar a este objetivo, não o objetivo em si.

Assumindo a vitória – o presidente de Israel, Reuven Rivlin, deverá chamá-lo para formar o gabinete nestes próximos dias – Bibi fez o discurso da praxe, não ocultando, contudo, a sua cor política:

“Será um governo de direita, mas serei o primeiro-ministro de todos. (...) Estou muito sensibilizado por o povo de Israel me ter dado um voto de confiança pela quinta vez, maior ainda do que em eleições anteriores. Mas tenciono ser o primeiro-ministro de todos os cidadãos de Israel. De direita, de esquerda, judeus e não judeus. Todos os cidadãos.”

Assim se afirma solidamente a direita nacionalista em Israel; liquida-se definitivamente o projeto dos “dois estados”; consolida-se o projeto do Israel bíblico de Theodor Herzl; e confirma-se o apoio incondicional dos Estados Unidos e a impotência ou indiferença da Europa para os direitos dos palestinos. São mudanças que dificilmente poderão ser revertidas no futuro.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova Iorque foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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