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12/04/2019 | domtotal.com

Coisa mais chata

O fato é que, hoje em dia, qualquer criação rasteira e primária, qualquer asneira copiada-e-colada recebe aplausos.

É duro – e também hilário, felizmente - constatar o nivelamento por esse parâmetro, em detrimento da criatividade e do fazer original.
É duro – e também hilário, felizmente - constatar o nivelamento por esse parâmetro, em detrimento da criatividade e do fazer original. (Netflix / Divulgação)

Por Fernando Fabbrini*

Dia lindo, céu azul de abril, brisa fresquinha de manhã. Cruzando na praça com um velho amigo da universidade, puxo assunto:

- Que dia bonito, hein, Toninho?

Toninho faz cara feia. Tem os olhos inchados da noite mal dormida. E retruca:

- Não acho... Você viu a notícia? Prenderam o Julian Assange....

Tento compreender por que diabos a prisão do Julian Assange lá em Londres interfere na felicidade fugaz de uma manhã de abril em Belo Horizonte. Não consigo. Outra cena similar. Reunião de família. Alguém comenta sobre a excelência da lasanha preparada pela mamma. Todos concordam, alegres - menos uma das presentes:

- É, mas... E os refugiados que estão passando fome na Itália? – e faz aquela cara terrível, tentando regar a mesa com sentimento de culpa, como se fosse molho al sugo.

A nova moda nacional é colocar a política, as causas sociais, as minorias, a luta contra os preconceitos acima de qualquer outro valor, a toda hora, em qualquer conversa banal. Sejamos óbvios: causas humanistas, universais, raciais, ecológicas e assemelhadas do nosso dia-a-dia merecem toda atenção. No entanto, coisa mais chata é o exagero e a mania de olhar a vida apenas por esses ângulos. Vejam a que ponto chegou.

Fã da bossa-nova e dos anos 60, preparei pipoca e reservei um fim de semana para curtir a série “Coisa Mais Linda”, anunciada pela Netflix com grande alarde. Tremenda decepção. Um roteiro manjado, previsível e pontilhado de lugares-comuns deu-me sono já no segundo episódio. Livro e filme, para mim, devem pegar o espectador/leitor logo nas primeiras cenas ou páginas - ou morrem ali, no cemitério da mediocridade. Mesmo assim, acreditando que poderia melhorar, encarei, penando, os demais episódios - até pra justificar o gasto extra com a pipoca. Só piorou.

Usei meu perfil das redes para externar, de leve e com ironia, a expectativa frustrada. Além da historinha requentada, dos diálogos artificiais, do desempenho sofrível de vários atores, a série ainda cometia erros primários de continuidade e de época. (Por exemplo: num dos diálogos, usaram a palavra “tiete”, referindo-se a uma fã. Peraí, roteirista, respeite a cronologia: o termo só viria a aparecer nos anos 80, em uma entrevista do cantor Ney Matogrosso).

Vários amigos postaram comentários dizendo o contrário; tinham curtido e se divertiram com a historinha. Se muita gente gostou, claro: fico na minha, a vida é assim. No entanto, não tardaram a surgir opiniões modelo “coisa mais chata”. Passando por cima do roteiro morno, dos intérpretes fraquinhos e lugares-comuns, botaram as causas da moda no elenco, justificando a validade da proposta:

- Ah! Gostei porque mostraram o empoderamento feminino! A luta de uma mulher contra o sistema!

De imediato, ocorreu-me uma dezena de filmes onde as lutas femininas são descritas de formas mais vigorosas, dramáticas e sensíveis.

- Ah! O marido ciumento matou a cantora! É um alerta contra o machismo!

Outra vez, e sem esforço, listei mentalmente uma dúzia de histórias – em livros, filmes, séries e novelas – onde a violência contra as mulheres é denunciada com muito mais talento e inspiração.  

E por aí vai. O fato é que, hoje em dia, qualquer criação rasteira e primária, qualquer asneira copiada-e-colada recebe aplausos – e até patrocínios – se abordar, ainda que com total pieguice, um assunto da moda. Nessa onda, parte do público e principalmente os jovens vêm perdendo completamente seu senso crítico e estético, substituindo-o pelo politicamente correto acima de qualquer outro valor.

É duro – e também hilário, felizmente - constatar o nivelamento por esse parâmetro, em detrimento da criatividade e do fazer original, as marcas dos verdadeiros artistas. Digo e repito: que coisa mais chata, viu.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

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