Religião

15/04/2019 | domtotal.com

O grito abandonado do Crucificado

Se Jesus é crucificado nos que sofrem, falta ainda que estes participem de sua vida plena. Em muitos lugares, como no Brasil atual, ainda se vive a 'Via Crucis'.

Resgate de um corpo em Brumadinho (E) e 'A deposição da cruz' de Peter Paul Rúben (D). O Brasil atravessa a Via Crucis.
Resgate de um corpo em Brumadinho (E) e 'A deposição da cruz' de Peter Paul Rúben (D). O Brasil atravessa a Via Crucis. (Mauro Pimentel/ AFP e Wikimédia)

Por Felipe Magalhães Francisco*

“Eloi, Eloi, lemá sabachitháni”. Eis a única vez em que Jesus, segundo as narrativas evangélicas, não se dirige a Deus como Pai. É a ocasião da cruz, e não há nenhum motivo especial, no fato de ele não dizer o tão costumeiro abba. Trata-se de uma citação literal do Salmo 22, no versículo 2, e expressava o sentimento profundo daquele que estava diante da própria experiência do morrer. Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? É o grito solitário, de quem está diante do inevitável ao qual toda pessoa humana há de experimentar. Diante da dor, da tortura, do deboche, do desprezo e da humilhação, tudo o que resta a Jesus é o silêncio de Deus. Por isso grita, abandonado, reclamando a presença daquele a quem sempre chamou e amou como se ama a um Pai.

O grito de abandono não é a perda da fé-confiança nesse Deus-Pai. É o resultado da solidão própria de quem está diante do definitivo e que só se encontra consigo mesmo. Esse grito abandonado revela o drama do morrer, ao qual nenhuma mística, poesia ou crença anula. Morrer é dramático. E quem haveria de discordar do profundo, doloroso e humilhante drama do morrer daquele que sempre passava fazendo o bem? O mesmo que grita seu abandono, é aquele que deposita em Deus, o que se mantém silente, sua confiança: “Pai, em tuas mãos eu entrego meu espírito”. O silêncio de Deus não significou desprezo. Sua resposta plena e definitiva de amor se deu com a Ressurreição do Filho das garras da morte. Ele vive uma vida indestrutível em Deus!

São cristãos e cristãs aqueles e aquelas que confessam sua fé na Ressurreição de Jesus. E esta semana, iniciada ontem, coração pulsante do calendário litúrgico, rememora o significado profundo da vida e missão de Jesus, chegadas ao seu ponto alto com a Morte-Ressurreição. É isso que celebramos, tanto na liturgia quanto nas paraliturgias que compõem essa semana. A celebração da Ressurreição de Jesus, cantada em grande Aleluia na Vigília do Sábado Santo que prepara e recebe o Domingo, é o fundamento de nossa esperança. É aí, na fé na Ressurreição, que está fundada toda a expectativa cristã.

Mas essa Ressurreição de Jesus, à qual celebramos e que cremos dela fazer parte sacramentalmente, precisa se plenificar. Daí a importância da esperança que se ancora na Ressurreição de Jesus: o descendimento de nosso Senhor da Cruz e sua elevação, pelo Pai, à eternidade, só encontrarão pleno sentido, quando os cristos de nossa história deixarem de ser crucificados. Nosso papel, na negação da cruz da morte que continua a marginalizar tantos irmãos e irmãs como malditos e renegados, precisa ser o do testemunho concreto de que a vida deve sempre vencer a morte. Nossa fé na Ressurreição deve ser um grito eficaz contra a injustiça: só assim a Ressurreição de Jesus, de fato, alcança nossa história, transformando-a desde dentro.

O Brasil atravessa a Via Crucis. Talvez o único grito que irrompa em nossa garganta, seja o mesmo do Crucificado: o do abandono. Tantos irmãos e irmãs vítimas da injustiça e da ganância de uns, bem como do descaso de outros tantos, sendo condenados às cruzes tantas e perversas. Nenhum grito de Aleluia, na Noite Santa, será pleno de alegria, enquanto famílias forem fuziladas por força do Estado; enquanto milhares e milhares de pessoas morrem nas filas dos hospitais; enquanto a miséria continua a rondar a vida da população; enquanto vidas negras continuarem sendo alvos certeiros de tiros da injustiça, e das violências que geram desigualdade; enquanto mulheres viverem sob o medo e a tensão, só pelo fato de serem mulheres; enquanto LGBTQ+ foram violentados e assassinados só porque amam de uma maneira diferença daquela à qual nos habituamos... Nenhum grito de Aleluia será plenamente alegre, enquanto o ódio rondar as ruas, vencendo o que de humanos temos em nós.

Celebraremos, no próximo fim de semana, a Ressurreição de Jesus. Cantaremos Aleluia, a morte foi vencida! Mas não nos esqueçamos, nunca, dos abandonados, que insistem em gritar, de suas cruzes da injustiça, um pedido de socorro contra a solidão, a injustiça, a desigualdade, enfim, a desumanização.

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a editoria de religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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