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14/04/2019 | domtotal.com

A dor da alma

A dor da alma é um verdadeiro câncer psicológico, instalado no mais obscuro recôndito das pessoas.

O caminho mais adequado é recorrer a alguém confiável e competente para escutar sua história.
O caminho mais adequado é recorrer a alguém confiável e competente para escutar sua história. (Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

Dores são manifestações incômodas, próprias de todos os seres vivos. Até de um vegetal pode-se afirmar que sente dor. Faça uma experiência: coloque um vaso forçando e distorcendo a planta contra a parede. Em pouco tempo esses galhos irão se retorcer, desviando-se do desconforto e buscando um espaço livre para continuar crescendo. Todos os animais sofrem dores como os humanos, contudo há uma diferença fundamental: os chamados de irracionais reagem à dor fugindo daquilo que os machuca, ou retaliando e atacando quem os fere. Todavia, eles nunca questionam a razão da sua dor: “Por que sofro? Por que me fazem isso?” Simplesmente procuram se livrar daquilo, ou daquele que os maltrata. Já os humanos sentem dores e querem saber por quem e por que estão sendo feridos. A diferença está na nossa mente, da qual o filósofo e psicanalista alemão, ERICH FROMM dizia: “A mente é a benção e a maldição do Humano”. Em razão dela, somos os que mais sofrem com o que nos machuca. E é por causa dela que sentimos o que se chama ‘dor da alma’, talvez a pior das dores.

Por mais incômodas que sejam as dores, elas têm um objetivo muito importante: são os primeiros sinais de que alguma coisa não vai bem em nosso corpo. Por isso elas não são iguais. Cada uma tem suas próprias características, e são elas que proporcionam ao médico de boa formação, elementos essenciais para diagnosticar doenças. Em outras palavras, cada doença tem sua dor própria, e se o enfermo tiver o cuidado de observá-la e avaliá-la bem, para depois informar ao médico sua localização, intensidade e todas as suas características, certamente irá proporcionar, a ele, a metade ou mais do diagnóstico a ser feito. Exames complementares, deverão servir somente para esclarecer o diagnóstico já suspeitado. Daí a enorme importância da anamnese na consulta médica, feita por um profissional competente e sobretudo verdadeiramente vocacionado para a medicina. Que deve ser realizada sem pressa e numa conversa detalhada.

Também por essa razão, ao se deparar com uma dor, não sendo ela comum e desconhecendo-se a sua causa, não se deve tomar qualquer analgésicos antes do exame médico, pois essa medicação poderá eliminar um sintoma precioso para o diagnóstico, e até mascarar a verdadeira doença, retardando o seu diagnóstico. Inclusive agravando uma moléstia que poderia ser curada, e até levar a óbito.

Mas, de todas as dores, sem dúvida a mais devastadora é a que chamamos de “dor da alma”. Ela é capaz de se manifestar através de cefaleias, dores musculares, articulares, dores generalizadas e sem causa aparente, levando à realização de exames complexos, desconfortáveis, dispendiosos, e quase sempre ineficazes para determinar possíveis causas físicas para elas. Num grau mais avançado, ela também pode gerar tumores malignos, que quase sempre levam a um desfecho fatal, se a causa principal – que é a dor da alma – não for identificada e cuidada.

Quase sempre o portador dessa dor tão destrutiva apresenta um perfil psicológico irritadiço, que qualquer desconforto leva-o a ficar mal humorado, lamurioso, com feições cerradas. Em certas situações fica agressivo, ferindo emocionalmente as pessoas que lhe são próximas, às vezes até muito amadas, levando à ruptura de laços de amizade e afetivos. A localização da origem dessa dor, a determinação de sua causa, é bastante difícil, pois quem a sofre consegue, inconscientemente escondê-la, até para si próprio. Geralmente tem suas raízes em sentimentos de culpa, em frustrações acumuladas, em sonhos e desejos não realizados, em ambições desmedidas, em lembranças do passado que o envergonham, levando-o a ocultá-la, impossibilitando a sua localização. Daí a dificuldade para se tentar aliviá-la ou curá-la. Dela ficam exteriorizadas somente as suas consequências, suas manifestações de impaciência, intolerância, irritabilidade e, tardiamente, alguma somatização, com o surgimento de doenças físicas.

A dor da alma é um verdadeiro câncer psicológico, instalado no mais obscuro recôndito das pessoas, somente sendo tratável e curável quando seu portador decide revelá-la, admitindo a existência de suas causas e exteriorizá-las, colocando-as para fora, expulsando-as radicalmente como se faz com um monte de lixo podre, com entulhos inúteis que atravancam sua felicidade. Para isso, tem de superar seus medos, sua vergonha de desvela-los, consciente de que não há nada em nossa história que não possa ser removido, aliviando-nos de um peso terrível que impede nossa libertação. 

Numa perspectiva teológica, conscientizar-se de que não existe pecado sem perdão. Para a dor da alma, de nada adiantam analgésicos, antidepressivos, tranquilizantes, drogas, qualquer forma de psicotrópicos, pois eles servirão apenas para jogar o lixo para mais debaixo do tapete, disfarçando quimicamente o sofrimento maior que se carrega, inclusive ampliando-o. O caminho mais adequado é recorrer a alguém confiável e competente para escutar sua história. De preferência um psicoterapeuta, um confessor, um médico, até mesmo um amigo, um confidente ético, que tenha rigoroso sigilo, junto com a capacidade e a competência para ouvir e acolher quem sofre a dor da alma. Mas que essa escolha seja muito bem feita, se possível bem recomendada, pois a fragilidade de quem padece dessa dor é muito grande, e um mau acolhedor poderá ser mais desastroso do que aquilo que causou o problema, agravando-o e acentuando suas consequências.

* Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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