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17/04/2019 | domtotal.com

Um judeu na Notre Dame

A sacralidade azul do ambiente, os sons e os ecos e o peso da história me deixaram emotivo.

Discorreu sobre as gárgulas da Notre Dame debruçadas sobre Paris, em eterna vigília, as garras e os dentes afiados afastando os males daquele solo santo.
Discorreu sobre as gárgulas da Notre Dame debruçadas sobre Paris, em eterna vigília, as garras e os dentes afiados afastando os males daquele solo santo. (Pablo Pires Fernandes)

Por Pablo Pires Fernandes*

Era mais um entre as centenas de turistas que, naquela quarta-feira cinzenta, visitavam a Catedral de Notre Dame, na Ile de la Cité. Depois de admirar os vitrais por um longo tempo, voltei-me ao altar e, de joelhos, rezei a Ave Maria pela memória de minha mãe. A sacralidade azul do ambiente, os sons e os ecos e o peso da história me deixaram emotivo.

A caminho da porta principal, avistei Serge Gainsbourg encolhido no último banco da nave. Mirava as imagens do altar. Surpreso, parei para observá-lo. Ao notar minha presença, levantou-se e caminhou em minha direção. Os músculos do meu rosto foram os únicos a reagir, esboçando um sorriso nervoso e, ao mesmo tempo, me perguntava o que um notório rebelde judeu fazia ali, um honorável templo católico.

Saí da imobilidade ao sentir a mão de Serge Gainsbourg tocar meu ombro e indicar a porta por onde entravam o rumor da cidade e fachos de luz. Sem dizer nada, caminhou até certo ponto da praça e se voltou ao imponente edifício. Falou umas três frases até que confessei não entender o francês. Acertamos a comunicação em inglês e os respectivos sotaques e ele disse: “Preciso acreditar um pouco em Deus, pois acredito no diabo”. Não questionei.

Serge Gainsbourg apontou para as imagens de santos, tantos. “Os demônios estão em toda parte, mas, sobretudo, em nós mesmos”, afirmou com certa ironia. Tive dúvida se era verdade absoluta, mentira deslavada ou piada de cabaré.

Puxou-me pelo braço e o segui calado. Cruzamos a Pont Saint-Louis e a Pont Louis Phillippe, enquanto ouvia histórias sobre a guerra e como era ser um jovem judeu sob a ocupação nazista. De repente, ele parou e, com expressão de regozijo, soltou: “Aqui”, apontando-me uma pequena loja: Izraël – Produits Exotiques.

Era uma loja com produtos culinários do mundo inteiro. Encantado com as prateleiras abarrotadas dos mais diversos temperos e iguarias – havia goiabada cascão do Brasil! –, gastei um bom tempo e saí com uma meia dúzia de itens que nunca tinha visto. Serge Gaisbourg jogou o toco do cigarro no chão e riu ao notar a minha alegria quase infantil. Declarou então: “É bom encontrar um pouco do mundo, de outras culturas aqui em Paris”.

E continuou andando e falando, desta vez, sobre as mulheres e como são encantadoras e o quanto o faziam sofrer. Sua voz rouca transparecia desilusão e me vinha à mente as tantas beldades que cruzaram o caminho dele. Havia amargor e tristeza em suas palavras. Atravessamos novamente o Rio Sena e ele me levou até à Grande Mesquita de Paris, um edifício deslumbrante.

Quando nos sentamos, finalmente, em um café diante de taças de vinho, perguntei-lhe sobre a catedral católica e a mesquita, sendo que ele era um notório judeu. Discorreu sobre as gárgulas da Notre Dame debruçadas sobre Paris, em eterna vigília, as garras e os dentes afiados afastando os males daquele solo santo. Discursou sobre os azulejos da Grande Mesquita, mas, ao notar minha estranheza, Serge Gainsbourg disse: “Judeu não é uma religião. Nenhuma religião faz um nariz crescer assim”.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista há mais de 20 anos, trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais O Tempo e Estado de Minas, onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do Dom Total.

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