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18/04/2019 | domtotal.com

Se pode pôde, por que não pode para?

Duvido que alguém que tenha o hábito saudável de escrever aceite essa infeliz mudança sem uma ponta de protesto.

Na última reforma ortográfica imposta à nossa língua escrita, essa mudança, para mim, foi um erro grave – ou melhor, agudo.
Na última reforma ortográfica imposta à nossa língua escrita, essa mudança, para mim, foi um erro grave – ou melhor, agudo. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Ah, com quanta coisa a gente tem de se conformar nesta vida, e especialmente neste nosso país do conformismo!

É preciso conformar-se com o poder supremo e diabólico dos bancos e a complacência e subserviência com que são tratados pelos governos. Bancos deviam ter no frontispício a frase infernal de Dante: “Lasciate ogni speranza voi che entrate!"

É preciso conformar-se com a lentidão da Justiça e a mordomia babilônica dos magistrados. Com as decisões, divisões, subdivisões e indecisões do Supremo Tribunal Federal. Com um Congresso de parlamentares inúteis, que dão uma banana para o povo e cuidam apenas de se garantir nas próximas eleições. Com o descompromisso crônico dos governantes para com os governados. E com todos os etcéteras que você, amigo ou amiga leitora, tem agora em mente.

Mas, se tem uma coisa com a qual eu definitivamente não me conformo é a supressão do acento na terceira pessoa do singular do presente do indicativo e da primeira pessoa do modo imperativo do verbo parar.

Na última reforma ortográfica imposta à nossa língua escrita, essa mudança, para mim, foi um erro grave – ou melhor, agudo. Agudo como o próprio acento suprimido, que em muitos casos faz uma falta danada – ou aguda. Não sei onde os responsáveis pela reforma estavam com a cabeça quando resolveram cortar o acento do "pára". Sequer pensaram no erro que estavam cometendo. Ou na confusão que acabavam de criar no uso do verbo.

Exemplo: se escrevo num envelope Para Pedro, que quero eu? Simplesmente endereçar uma mensagem ao Pedro ou, apesar da falta da vírgula, ordenar ao Pedro que pare?

Se escrevo: “Pessoa sensata sempre para para pensar antes de agir”, o Word sublinha em vermelho o segundo para, porque pensa que se trata de mera repetição. Embora nem sempre se possa confiar muito no Word, o traço vermelho induz o incauto escriba a interromper o raciocínio para ver se há alguma coisa errada, e acaba errando mesmo ao colocar, inadvertidamente, o acento no para do verbo.

Duvido que alguém que tenha o hábito saudável de escrever aceite essa infeliz mudança sem uma ponta de protesto e sem ter tido até agora algum incômodo na hora de usar, no indicativo ou no imperativo, o danado do verbinho.

Se me tivessem consultado antes da reforma, eu teria feito a seguinte indagação: por que não deixar como está, pára para parar e para para preposicionar? Não pôde com pode e pôde e com por e pôr? Ahn? Como se conformar com tamanha idiotice e insensatez?

Mas, já que é pra ficar assim mesmo, para tudo. Mas... para tudo para quê?

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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