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16/04/2019 | domtotal.com

Game of Thrones - o início do fim

Game of Thrones significa o alvorecer de outra era de ouro na televisão, porém, com o estabelecimento de um novo paradigma, mais afeito ao nosso tempo.

A importância que a série alcançou durante sua exibição só é comparável ao fenômeno desencadeado por outra atração, também da HBO, nos anos 90: Os Sopranos
A importância que a série alcançou durante sua exibição só é comparável ao fenômeno desencadeado por outra atração, também da HBO, nos anos 90: Os Sopranos (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

Definitivamente, o inverno chegou.

O primeiro episódio da oitava e última temporada de Game of Thrones estreou no último domingo, após dois anos de ansiosa espera por parte de uma fiel horda de fãs espalhada pelo globo (incluído aí este que ora escreve). A bem da verdade, trata-se quase de uma meia temporada, com apenas 6 episódios.

A importância que a série alcançou durante sua exibição só é comparável ao fenômeno desencadeado por outra atração, também da HBO, nos anos 90: Os Sopranos. A ambiguidade moral do grupo de mafiosos de New Jersey surpreendeu a todos com sua mistura de violência, sensibilidade e drama psicológico familiar.

Na esteira do sucesso da série, outros homens tão ou mais problemáticos quanto Tony Soprano (vivido pelo inesquecível James Gandolfini) ganharam espaço e também marcaram época na TV, como o publicitário Don Draper (Jon Hamm), de Mad Men; o genial e sociopata médico House, encarnado por Hugh Laurie; o gangster histórico de Atlantic City, Nucky Thompson (Steve Buscemi), de Boardwalk Empire; ou o desesperado Mr. White (Bryan Cranston); de Breaking Bad.

Todos eles representavam, de certa maneira, a derrocada da falocracia norte-americana, cujo último suspiro parece ser a ascensão de Trump à Casa Branca. Sim, a TV em seus grandes momentos consegue captar o espírito da época e não nos deixa outra opção que não nos conectarmos a ela.

Quando nos identificamos com estes personagens (gente ordinária em situações surpreendentes) e suas ações é como se estivéssemos na posição de Dorian Gray de frente a seu retrato sobrenatural. Que a pintura absorva toda a feiura - para que possamos nos manter aparentemente puros. Chega de Prozac; desde os gregos, a catarse ainda é o melhor remédio.

Nascida antes do boom do streaming (e hoje em dia também surfando nele), Game of Thrones significa o alvorecer de outra era de ouro na televisão, porém, com o estabelecimento de um novo paradigma, mais afeito ao nosso tempo. Se antes eram os homens o centro das atenções, agora são as mulheres que dão as cartas e em torno delas é que todas as tramas giram. Afinal, como os meninos seguem insistindo em não crescer, alguém tinha que tomar a frente da situação. 

(ATENÇÃO! A PARTIR DAQUI O TEXTO CONTÉM SPOILERS.)

Personagens femininas fortes têm sido um dos marcos do programa e neste primeiro episódio sua presença foi fundamental. Todas tiveram pelo menos um grande momento. Daenerys, Cersei, Arya e Sansa Stark, Yara Greyjoy ou mesmo Lady Lyanna Mormon - a menina chefe de clã, uma das principais responsáveis para que Jon fosse coroado rei do norte e agora a única a confrontá-lo em público sobre a decisão de abrir mão do trono em favor da mãe dos dragões.  

Apesar disso, a ação não foi o destaque do episódio, e sim a tensão. Falou-se muito, assim como muito conspirou-se e estratégias iniciaram a ser urdidas. Com paciência de Jó, alguns set-ups importantes foram estabelecidos já de saída; todos com repercussões óbvias para o restante da temporada. 

Já sabíamos que cada personagem possui agenda própria; e mesmo aqueles que não a possuem, são peça que cedo ou tarde se encaixará no grande quebra-cabeça que é este jogo dos tronos.

O exército dos imaculados, a serviço de Daenerys Targaryen desde a terceira temporada, em coalizão com os dothrakis, finalmente chega a Winterfell para se unir às tropas nortistas e aos selvagens do além muro. Em breve, todos estarão no campo de batalha para enfrentar os caminhantes noturnos. Uma vitória contra os mortos-vivos é improvável, mas não impossível. E essencial.  

Ao reencontrar o irmão Bran, Jon Snow o abraça e afirma que ele é um homem agora, ao que o jovem sensitivo retruca, certamente aludindo à sua condição de cadeirante virgem: "quase".

Literalmente, testemunhamos vários atores e atrizes da série crescerem. Maisie Williams, a Arya, por exemplo, tinha 14 anos à época da primeira temporada; assim como o próprio intérprete de Bran Stark, Isaac Hempstead Wright, que contava apenas com 12 anos no momento de estreia. Oito anos depois, são como nossos amigos de infância, e torcemos mesmo descaradamente por eles.

Vamos encontrar Arya Stark mais petulante do que nunca, provocando o conhecido de outros carnavais Sandor "o cão" Clegane e cutucando com graça o amigo Gendry, o ferreiro bastardo do falecido rei Robert Baratheon. Posso estar enganado, mas a amizade entre os dois talvez esteja prestes a se transformar em sentimento mais forte.

Seria uma bem-vinda novidade na trajetória da Stark que jurou vingança contra todos que fizeram mal a sua família. Após os incontáveis percalços por que passou, resultaria divertido ver a assassina profissional, treinada pelos melhores do ramo na cidade livre de Braavos, tendo que lidar com o amor - algo que a desestabilizaria por completo.   

Já Cersei continua a manipular quem lhe atravessa o caminho, sem mais conseguir esconder de si mesma a triste condição: seu destino é estar sozinha. Em algum momento será obrigada a se perguntar se terá mesmo valido a pena tanto ódio derramado.

Mesmo não chegando aos pés da Batalha dos Bastardos ou do Casamento de Sangue, o episódio teve também sua grande cena, quando Jon Snow monta um dragão pela primeira vez. Com sua ascendência Targaryen provada, restará apenas uma questão pendente. Ao conhecer a verdade sobre seus pais, pela boca do amigo fiel Sam, o que o ex-patrulheiro da noite fará com a informação?

Nada, provavelmente. Este será apenas mais um fardo que ele carregará sozinho. Porque, ao contrário do que pregavam séries como Sopranos ou Braking Bad (onde o individualismo e a transgressão pautavam as narrativas), em Game of Thrones, o que está em jogo o tempo todo é a coletividade, a honra e a ética. Tronos e a coroas acabam sendo meras desculpas para que estas questões sejam discutidas.

É esta a importância capital da série - que cumpre seus últimos capítulos e promete grandes momentos até as cenas finais. Por mais que nos revolte o encerramento da história destes bravos homens e mulheres de Westeros, é bonito que tudo termine à altura do que foi a trajetória do programa.

Com uma difícil guerra à vista, os conselheiros da khaleesi (Tyrion, Lord Varys e Sor Davos) confabulam sobre o futuro, imaginando um cenário onde Jon Snow e Danearys Targaryen pudessem governar juntos os sete reinos. Brincam até, enquanto os observam de longe, que  formariam um belo casal. É o eunuco Varys quem joga o balde de água fria, iniciando o seguinte diálogo:     

 - Vocês superestimam nossa influência. Jon e Daenerys não querem ouvir estes velhos homens solitários.

Tyrion: - Eu não sou tão velho assim... Pelo menos não tão velho quanto Sor Davos...

Davos: - Nossa rainha respeita a sabedoria da idade.

Varys: - Claro que sim! Respeito é a maneira com que os jovens nos mantêm à distância. Para que não os lembremos da desprezível verdade...

Tyrion: - E qual seria essa verdade?

Varys: - De que nada dura.

Nada mesmo. Que venha o desfecho de Game of Thrones.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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