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18/04/2019 | domtotal.com

Cheiro de corrupção

Mas, afinal, o que acompanha melhor uma boa comissão de dez por cento?

De cabeça mesmo dá para fazer uma listinha de escândalos de corrupção dos mais variados matizes que produz uma infinidade de cheiros nos quatro cantos do país.
De cabeça mesmo dá para fazer uma listinha de escândalos de corrupção dos mais variados matizes que produz uma infinidade de cheiros nos quatro cantos do país. (Reprodução)

Por Ricardo Soares*

Querer adivinhar exatamente quando começou a corrupção no Brasil parece missão impossível, cheia de imprecisões históricas. Fato é que a nossa corrupção vem de longe. Podemos, por exemplo, estacionar na era do império quando os escravos carregavam nas costas em imensos jarros os nobres excrementos de seus patrões que mandavam o produto dos butins para Portugal. Eis então que era de cocô o cheiro da corrupção brindada com banquetes dos quais dos restos se inventou a feijoada.

Depois, ao sabor de feijoadas nada republicanas, foram sendo engendradas corrupções desde Getúlio a Jânio, passando por JK e a construção de Brasília, pelos generais de 1964, a tal Nova República, Collor, FHC, Lula e por aí vai.  Se há algo que cheira a corrupção é a nossa festejada feijoada cabocla, derivada de um faroeste também caboclo, que sempre põe bons cardápios ao redor das mesas em que a corrupção é o prato principal.

Mas, afinal, o que acompanha melhor uma boa comissão de 10%? Cheiro de ostras com champanhe? E se a comissão for menor, podemos optar por um quase modesto cheiro de picanha fatiada com vinho rosso italiano? Se a comissão for na área do agronegócio, sentiremos o cheiro de empadão goiano? Se for na mal administrada área da mineração em Minas, estamos a falar do cheiro de tutu com torresmo?

E hoje em dia, nesse triste desgoverno Bozonazi, como não sentir cheiro de corrupção com corretores de imóveis ou motoristas contratados que movimentam milhões porque seus patrões lhes emprestaram dindim? Isso seria cheiro de laranja superlativa, que nem o mais vistoso dos Cutrales seria capaz de exalar?

De cabeça mesmo dá para fazer uma listinha de escândalos de corrupção dos mais variados matizes, que produzem uma infinidade de cheiros nos quatro cantos do país. Que tal lembrarmos do cheiro de acarajé e dendê quando trazemos a tona o tal escândalo dos "bilhetes premiados" ou dos "anões do Orçamento", como ficou conhecido aquele rombo de R$ 800 milhões envolvendo sete deputados (ou anões) da Comissão de Orçamento do Congresso? O baiano João Alves alegou para o cheiro de sua corrupção as muitas vezes em que tinha ganho na loteria.

Você pode também subir um pouco no mapa e desembarcar na nossa pobre e dilapidada Amazônia e se empanturrar nos cheiros de tucunaré, tambaqui na brasa, ensopado de pirarucu, pato no tucupi, tacacá, cheiros que acompanham negociatas que envolvem a região desde as milionárias comissões recebidas por empreiteiras para construir a lendária e inócua Transamazônica, no governo militar até chegar ao conhecido "Caso Sudam", um rombo de R$ 214 milhões entre 1998 e 1999, em que dirigentes da extinta Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia desviavam dinheiro por meio de falsos documentos fiscais e contratos de bens e serviços.

Nossa história republicana de corrupções pode estacionar no Fiat Elba da Era Collor, no gigantesco esquema PC Farias – o assassinato mais mal esclarecido de nossa crônica política –, a verdadeira orgia (não se esqueçam dos cheiros orgiásticos já que falamos de aromas) de privatizações na era "principesca" de FHC, em que se somam as distribuições a granel de concessões de emissoras de rádio e TV para aumento de mandato do príncipe, os escândalos superlativos da Era Petista, todos terminados em ão, e as múltiplas rotas da nada imparcial Lava Jato. Isso sem falar nos 1001 aromas do Ali Babá Sérgio Cabral Filho, um campeão do gênero sem dúvida, que, abraçado a Eduardo Cunha, forma um mosaico de aromas corruptos muito além dos 50 tons de lixo.       

A galeria infelizmente é extensa, os personagens e aromas diversos e fico imaginando a que cheiro poderíamos, por exemplo, associar o juiz Lalau, o cara de pau, aquele do caso do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, rombo de R$ 923 milhões que tem no imbróglio o probo ex-senador da República Luiz Estevão, aquele amigo do Collor que engordou os bolsos de muita gente para não entregar a obra para a qual foi contratado.

O óbvio trocadilho "mar de lama", como se comprovou recentemente na tragédia de Brumadinho, segue firme . Também nessa tragédia aparece o cheiro de corrupção. Um cheiro que mistura água suja, terra estragada, "dejeitos", como diz o nosso iletrado presidente, e toda sorte de impurezas que, desde sempre, põe nossas mesas.

O cheiro de corrupção, por mais que seja uma mistura de aromas, ao fim e ao cabo, exala os nossos erros. Fétidos ou perfumados, suaves ou encorpados. Aqueles que vivemos combatendo, mas dos quais nunca ficamos livres. Quisera inspirar e expirar só bons odores. Mas o Brasil, definitivamente, não é uma perfumaria.

*Ricardo Soares é roteirista, diretor de tv, escritor e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

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