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22/04/2019 | domtotal.com

São Paulo e uma fantasia apocaliptica

Quero apenas reconhecer nesse monte de destroços os lugares que tantas pessoas já me descreveram em momentos mais felizes.

O que restou do viaduto do Chá não está lá muito firme.
O que restou do viaduto do Chá não está lá muito firme. (Pixabay)

Por Ricardo Soares*

Nesse dia, um pouco frio e um pouco  ensolarado do mês de abril, sonho com um outro abril, três anos depois de uma  tragédia que arrasou São Paulo. Então, não é um sonho, mas um pesadelo onde olho de cima, onde antes havia o Viaduto do Chá, para tudo aquilo que restou do vale do Anhangabaú. Mato, as inevitáveis ervas daninhas e lixo se acumulam sobre uma montanha de escombros especialmente onde antes havia o majestoso prédio dos Correios.

Um pouco antes, na mesma calçada, onde existia o Cine Cairo, alguns mendigos fazem uma fogueira, fervem água suja e cozinham ovos. Ali, meu pai, nos seus tempos de office-boy, matava as tardes vendo filmes de sacanagem na época em que os de sexo explícito começavam a virar moda. O relógio da Igreja de São Bento, ainda de pé e não muito longe dali, bateu 13 horas. Meu nome nessa crônica apocalíptica é Walter Berg e não acertei meu relógio com o horário de outono, mas estou pouco ligando para isso. Quero apenas reconhecer nesse monte de destroços os lugares que tantas pessoas já me descreveram em momentos mais felizes.

Ali, onde antigamente começava a Avenida São João, ao lado da passagem subterrânea para carros que chamavam de “Buraco do Ademar”, existe um lago fedorento. A água da antiga várzea sepultada continua insistindo em minar, tornando a paisagem cada vez mais assustadora . Não consigo ver o Vale do Anhangabaú com os olhos do passado, com as plantações de chá e gente simples com os pés sujos de lama.

Tudo por aqui é parte de uma região interditada. A polícia não proíbe nossa entrada. Mas também não se responsabiliza por qualquer incidente que possa ocorrer nesse pedaço. As quadrilhas dos violentos moram em barracas de lona negra e nas ruínas de muitos desses prédios. E, a partir deles, com seus estiletes enferrujados, não hesitam em atacar os forasteiros ou quem ficar marcando bobeira na área.

Sei que vou repetir um lugar comum. Mas eu gosto de correr riscos. Venho aqui pela terceira vez para poder observar melhor o cenário inicial de um improvável romance que penso um dia escrever. Estou prevenido. Uma pistola de seis tiros no bolso direito da jaqueta, duas ou três bombinhas paralisantes no bolso esquerdo. Não quero ter pressa. Quero ver, curtir, anotar, fotografar tudo com muito cuidado. Me parece absurdo que aqui antes tenha existido tanto movimento, tanta gente esperando ônibus nas filas, ao redor das barracas de frutas, doces e bugigangas que se amontoavam pelas calçadas.

O que restou do Viaduto do Chá não está lá muito firme. Mas não sou pesado e acho que andar sobre o que sobrou não vai abalar mais essas estruturas, que já foram ponto de passagem de milhares de paulistanos todos os dias. Tudo por aqui cheira a fogueira apagada. Ratos e lacraias passeiam entre as ferragens e blocos de cimento. Vez ou outra, aqueles helicópteros militares voam baixo para ver quem anda rondando a região interditada. Mera formalidade. Mesmo que alguém estiver sendo assassinado por aqui, o helicóptero não vai pousar. O máximo que vão fazer é fotografar a cena e levar para o Departamento de Polícia Metropolitana para fazer parte da próxima estatística de crimes, o que é uma forma de desestimular os curiosos a virem para a zona interditada.

Não sei como São Paulo virou esse limbo, mas quando me belisco para acordar, penso que, se nada fizermos, essa distopia vai crescer até se tornar realidade.

Ricardo Soares é diretor de tv, escritor e jornalista. Publicou 8 livros entre os quais "Cinevertigem", editora Record.

EMGE

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