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22/04/2019 | domtotal.com

Notre-Dame: como reparar um símbolo irreparável?

Com 13 milhões de visitantes anuais, é o monumento mais visto do mundo e atrai pessoas de todas as religiões.

O que nos leva à questão de como devem ser feitos os restauros destas preciosidades.
O que nos leva à questão de como devem ser feitos os restauros destas preciosidades. (AFP)

Por José Couto Nogueira*

A Catedral de Notre-Dame, uma joia do gótico consagrada em 1260, que inspirou incontáveis catedrais por toda a Europa, poderá ser restaurada no seu esplendor? Esta é a pergunta que toda a gente faz e muitos opinam, agora que passou o choque do incêndio.

Com 13 milhões de visitantes anuais, é o monumento mais visto do mundo e atrai pessoas de todas as religiões. O seu valor, para além do espiritual, está relacionado com a história da civilização. Para a França, tem um significado tão grande que é o quilômetro zero de todas as estradas do país. Entre muitos outros eventos, foi lá santificada Joana D’arc e coroado o imperador Napoleão. Resistiu a vários acontecimentos devastadores, como a Revolução Francesa, de 1789 (altura em que foi saqueada e os sinos refundidos), a Comuna de Paris e a vontade de Hitler em destruí-la, ordem ignorada pelo general Dietrich von Choltitz.

Apesar da data de consagração, o edifício recebeu alterações maiores e menores ao longo dos séculos. A maior deve-se ao arquiteto Eugène Emannuel Viollet-le-Duc, no século 19, que reconstruiu a simbólica espiral com uma estrutura metálica coberta de pedra. Aliás, Viollet-le-Duc é considerado o pai da moderna filosofia de restauração de edifícios antigos, seguindo princípios que só foram alterados pela Carta de Veneza, de 1974.

O que nos leva à questão de como devem ser feitos os restauros dessas preciosidades. Há uma corrente que considera que há que reconstituir todos os pormenores originais, criando o que se chama um “pastiche” – a imitação moderna duma peça antiga. E há outra corrente que acha que se deve fazer uma versão diferente, embora respeitando partes do projeto original. Aí entra outra sub-discussão sobre o que é autêntico, uma vez que esses monumentos receberam acréscimos e alterações ao longo dos séculos – alguns, diz-se, que melhoraram ou engrandeceram a primeira obra.

Mas ninguém estará a pensar em mudar o projeto do século 12, a rosácea do século 17, ou as alterações do século 19, aliás discretas. Mas certamente que, por muito dinheiro que se gaste, é materialmente impossível ter um interior igual ao do passado.

Uma parte do restauro incidirá sobre o edifício propriamente dito: as paredes suportadas por arcos botantes, os torreões dos sinos, a espiral e outros pormenores citoarquitectônicos. Quanto ao teto, que era de placas de chumbo, poderia ser substituído por um material mais leve, de igual cariz.

Mas a outra parte tem a ver com as inúmeras preciosidades artísticas que o edifício continha. Por exemplo, o “grande órgão de Notre-Dame”, com 8 mil tubos e cinco teclados, concebido no século 13 e que, segundo as primeiras notícias, terá ficado seriamente danificado. Mas havia três órgãos no interior da catedral e dos outros dois ainda não se sabe. Os quadros, a óleo ou têmpera sobre madeira ou tela, podem ter ficado num estado impossível de restaurar. 

E depois há o museu da catedral, com peças como a coroa de espinhos que teria restos da que crucificou Jesus Cristo, trazidos de Jerusalém, como acreditam os fiéis. As madeiras folheadas a ouro, marroquinarias e peças de madeira várias – entre imagens de santos, tocheiros, cadeirais e outros móveis – provavelmente danificadas, poderão quiçá ser reparadas, se houver artesãos suficientes com conhecimento de técnicas perdidas ou em vias de perdição.

Conforme forem os estragos nestas peças, levará anos e milhões para as tornar apresentáveis.

Os milhões aparecem, com certeza: organismos nacionais e internacionais, como a Unesco, já disseram que contribuem. A Presidente da Câmara de Paris, Anne Hidalgo, anunciou um donativo da cidade de 100 milhões de euros. Estão a iniciar-se crowdfundings entre quem queira ajudar. Cinquenta grandes empresas chegaram-se à frente, entre elas a LVMH de Luis Arnault com 100 milhões de euros, e o grupo de François Pinault (Pinault-Printemps-Redoute) com 200. Quanto aos artesãos, logo se vê; o Vaticano já colocou à disposição o seu numeroso escol de especialistas.

Todos esses bens têm valor cultural, ideológico e civilizacional incalculáveis. O abalo, no mundo inteiro, faz lembrar as impressões causadas pelo terremoto de 1755. Também entre os especialistas portugueses paira a incredulidade e alguma forma de esperança.

António Henrique Pimentel, diretor do Museu de Arte Antiga de Lisboa, que tem uma coleção preciosa, e sabe o que é restauro, tem a opinião concreta de quem lida com estas coisas. Diz que é preciso primeiro colher as informações, friamente:

“Cada caso será um caso. Por exemplo, um cadeiral parcialmente danificado pode ser facilmente recuperado. Mas uma pintura é impossível de substituir. Os vitrais, vamos a ver.” Mas confia nos tempos: “Hoje em dia, há diferenças entre os graus de legitimidade e bom senso que havia no século 19. Não faz sentido reconstruir coisas do Século 12; temos um sentido da história que tem a ver com as capacidades no século 21. Sabemos o que pode ser salvo e o que deve ser uma lembrança.”

Dalila Rodrigues, historiadora de arte, pergunta-se se faz sentido reconstruir a Notre-Dame:

“Esse incêndio, pela sua extensão e violência, representa uma catástrofe irreparável, uma perda irremediável. Estamos todos de luto profundo.

Agora, é necessário fazer um levantamento e uma intervenção urgentes para consolidar e proteger o que resistiu, o que sobreviveu à fúria e à extensão das chamas. E haverá que definir muito rapidamente uma metodologia de intervenção que tenha em conta duas perspectivas fundamentais: pensar esta catedral no plano da história da arquitetura, enquanto testemunho histórico-artístico – reconhecendo-o como um dos mais importantes exemplares do primeiro Gótico –, e pensá-lo a partir da sua história patrimonial, ou seja, enquanto monumento patrimonializado, institucionalizado e apropriado pelo público.

Na perspectiva da história patrimonial, é importante considerar que o edifício sofreu ao longo dos séculos diversos atentados e que foi objeto de intervenções e reconstruções profundas: especialmente nos séculos 18 e 19 – no período da Revolução Francesa e no século 19, quando o arquitecto Violet-le-Duc repensou e recriou partes fundamentais do edifício, acrescentando-lhe elementos visualmente marcantes. Essas intervenções nada acrescentaram ao valor documental e artístico do edifício, porém, ressignificaram-no e valorizam-no em termos patrimoniais.

E é necessário olhar para o contributo patrimonial do século 19 de um outro modo. Há muito, desde a segunda metade do século 20, que os pressupostos do restauro não admitem a reconstrução-pastiche. Ou seja, considera-se ser fundamental, no processo de restauro, não recriar ou refazer partes perdidas de um objecto ou de uma construção. Deve consolidar-se o testemunho na sua autenticidade, o que resta da sua matéria original, e não promover a ação de desvirtuar essa autenticidade com a ação de "refazer". Ou seja, consolida-se a ruína e não se refaz o edifício. Mas também é importante pensar que, se no século 19 e na primeira metade do século 20, sobretudo no pós-guerra, não se tivesse refeito profundamente o patrimônio (civil, religioso, militar...), o patrimônio da humanidade incluiria um significativo número de ruínas.

Em síntese, é necessário repensar o patrimônio contemporaneamente, na sua dinâmica patrimonial. Caberá à Notre-Dame de Paris, uma vez mais na história, embora na história do patrimônio, um papel matricial?”

É também o que afirma Delfim Sardo, programador da Culturgest, do Ministério da Cultura:

“A Notre-Dame que víamos era o resultado da intervenção do século 19. A que vamos ver é do século 21. É assim a vida dos edifícios, como das pessoas. Têm de apresentar as cicatrizes do seu percurso.”

A mesma opinião tem Paulo Almeida Fernandes, coordenador do Museu de Lisboa: “Deve-se reconstruir, com certeza, mas deixando marcas. Um edifício é a sua história, com os acidentes por que foi passando. Claro que é preciso refazer a flecha icônica, mas talvez não se deva recuperar talha dourada. É importante que fique patente o que aconteceu nesta data.”

A desgraça aconteceu, segue-se a pós-desgraça. Aventura-se que levará dez anos a fazer o que for decidido. Todos estamos ansiosos para ver.

EMGE

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