Religião

19/04/2019 | domtotal.com

A Cruz de Cristo: do fracasso a sinal de salvação

O sacrifício de Jesus só pode ser entendido à luz da ressurreição, o que torna a cruz um sinal salvífico.

A compreensão cristã da cruz do Senhor vai muito além do seu aspecto do sofrimento e dor.
A compreensão cristã da cruz do Senhor vai muito além do seu aspecto do sofrimento e dor. (Ferdinand Stöhr/ Unsplash)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Na Sexta-Feira da Paixão do Senhor, às 15h, as comunidades católicas do mundo estão em reunião, fazendo memória da crucificação e morte de Jesus. Nesta Ação Litúrgica Solene, um rito chama a atenção: o desnudamento da cruz, acompanhado de um diálogo, no qual o presidente da celebração, por três vezes, proclama “Eis o lenho da cruz, da qual pendeu a salvação do mundo”. Os fiéis, em resposta, aclamam: “Vinde, adoremos!”. Esse rito ganha pleno significado na Vigília Pascal, no dia seguinte, no Sábado Santo, quando o presidente da celebração, também por três vezes, apresenta o Círio Pascal, símbolo do Ressuscitado, cantando: “Eis a luz de Cristo!”. Cruz e Ressurreição formam, assim, uma relação inseparável: a morte de Cruz só é compreendida em seu aspecto salvífico, à luz da Ressurreição.

A veneração da cruz não tem sentido em si mesma: ela aponta para a confiança na vitória de Jesus sobre a morte. A cruz não é o destino final de Jesus, pois sua morte, consequência de toda uma vida dedicada à causa que acreditava e que abalava os pilares da religião de seu povo e a estrutura política, não tem a palavra última sobre a vida e missão do Nazareno. A palavra última é de Deus, Aquele quem havia enviado seu Filho com a missão de inaugurar um tempo novo, no qual a humanidade pudesse se compreender de uma maneira nova. Essa palavra é a Ressurreição do Filho, como fidelidade amorosa, bem como assentimento à sua missão e vida.

É a Ressurreição de Jesus que possibilita a saída da crise em que estavam imersos seus discípulos e discípulas, após o seu trágico assassinato. Do sentimento de fracasso e frustração, a cruz se torna sinal de um amor desmedido: ainda que Jesus tenha sido injustamente assassinado, sua vida foi inteiramente entregue por amor a seu Pai e à causa do Reino, o que significa, também, amor pelo ser humano e por toda a criação. É assim que a cruz se torna sinal de salvação: ela é sinal efetivo de um amor sem medidas. Todavia, essa compreensão ressignificada da cruz, como sinal de salvação pelo e no amor, não deve nos levar a um processo de romantização de um símbolo que também revela tortura e morte. Olhar para a Cruz do Senhor deve nos mover a descer da cruz os crucificados de nossa história, injustiçados e indignificados em suas existências tornadas marginais por um sistema que oprime e mata. Afinal, o que salva não é o sofrimento, mas a entrega livre e amorosa de Jesus, como fidelidade e coerência de toda uma vida pautada no amor.

A morte de Jesus é a defesa radical da vida, porque significa solidariedade para a vida sob ameaça de todos os injustiçados e injustiçadas. Ele morre como testemunha da esperança num jeito novo de se viver, segundo novas relações nascidas da vivência do amor do Pai e entre os irmãos e irmãs. Os poderes instituídos não foram capazes de compreender o significado da vida de Jesus e, ameaçados em suas estruturas, decidem eliminar, de uma vez por todas, o movimento daquele Galileu que desestabilizava a compreensão de mundo de seus contemporâneos. O que não esperavam era que Deus fosse, verdadeiramente, comprometido com ele. E a Cruz, à luz da Ressurreição, torna-se, de sinal de humilhação e maldição, sinal fecundo do amor que salva.

Comprometidos com o mergulho interior que este dia nos provoca, contemplando o Crucificado, queremos fazer desta ocasião oportunidade para aprofundarmos nosso olhar a respeito da Cruz do Senhor, para muito além dos aspectos do sofrimento e da dor. É o que nos dedicamos a fazer, nos três artigos que compõem nosso Dom Especial. No primeiro deles, E a Carne se fez Cruz, Rodrigo Ladeira reflete sobre a radicalização da encarnação com o evento da Cruz, na qual Deus revela seu amor em estado bruto, pois é pura doação, significado profundo da vida. Em seguida, Fabrício Veliq, no artigo A cruz: de maldição a símbolo da nova vida, lê o evento da crucificação de Jesus, na perspectiva da ressignificação feita pelos discípulos e discípulas, sobretudo por meio do apostolado de Paulo, a partir da experiência da Ressurreição do Senhor. Com o olhar ressignificado para a Cruz, podemos contemplá-la, tal como nos inspira o Evangelho de João, como própria glorificação, isto é, entrada na participação da glória do ser de Deus. É o que nos ajuda a refletir Rodrigo Ferreira, no artigo A cruz como já a participação de Jesus na Glória.

Com os olhos esperançosos na Ressurreição, feliz Páscoa e boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a editoria de religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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