Religião

19/04/2019 | domtotal.com

E a Carne se fez Cruz

A lógica da cruz só se entende na dinâmica do amor encarnado.

Deus é amor que se revela no torpor doloroso da cruz.
Deus é amor que se revela no torpor doloroso da cruz. (Jon Tyson/ Unsplash)

Por Rodrigo Ladeira*

“Deus”, palavra sobrecarregada,
nos força e exige quase até o absurdo

(Rahner)

Quisera eu acreditar num Deus milagreiro, mago, super-herói sempre pronto para me defender. Um Deus assim me é estranho porque asséptico. Limpo demais destrói e freia o decurso da vida, perigosa de per si. A vida não é brincadeira! Pode ser que eu esteja professando a fé de maneira equivocada, mas prefiro encarar o Deus da Encarnação, verbo que se fez carne, carne que se deu em pão. A fraqueza da carne, pendente no madeiro, é a melhor maneira de revelar quem realmente é forte.

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A beleza da criação está inscrita é na vida mesmo. Esta, feita de esvaecimento. Viver é perder-se. Quem não se dá nunca se terá. Há um excesso aí que nos escapa, não só porque a vida não se explica, mas porque ela é apenas entrega. É assim o Deus de Jesus Cristo, ser-de-morte, melhor, de vida-morte-vida. Outro Deus não cabe em Deus. Nisso está o absurdo do Deus revelado por Jesus. A vida tem jeito de semente, de grão que se perde na terra. A lógica de Deus se conjuga na/com/pela realidade.

O testemunho dos evangelhos pode ser sintetizado na dolorosa realidade que é a cruz de Jesus. Não é por acaso que a economia da salvação para o cristão tem seu ponto zero no drama do calvário. Aliás, não é sem mais que nossas igrejas têm no seu altar-mor a cena do crucificado. Simbolicamente – linguagem prenhe de deslimites – , como quer a mistagogia do Tríduo Pascal, no hiato que aparece entre a “instituição” da Eucaristia na quinta-feira santa (prenúncio da cruz) e a Ressurreição da Vigília (consequência da cruz), são o crucificado e sua CRUZ (sexta da Paixão) os protagonistas. Está aí o indicador “plástico” da centralidade e o paradigma do Reino de Deus.

Na cruz encontramos o AMOR em estado bruto, escandalosamente escarnado. Ali a encarnação (Jo 1) é também escarnação (Mt 27,29.41). Para se tornar carne é necessário dar sua própria carne (Jo 6,51). A vida é oblação não do que se tem, mas de quem se é. É basicamente essa a boa-nova desconcertante de Paulo aos Filipenses (2, 6-8): “Cristo Jesus, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz”.

Deus é amor que se revela no torpor doloroso da cruz. Só entende a narrativa do calvário quem se joga dentro circuito da dádiva, sintoma de acolhida da vontade alheia como sua, apesar da dor. Dói assumir o fora pra dentro. Outro discurso, normalmente moralizante, mata Deus, melhor, é meio-Deus. O Deus das Escrituras é do absurdo rebaixamento voluntário.

A morte não é o fim. Penso que nisso, todos os cristãos estamos em pleno acordo. Sofrimento bom, porque fruto da saudade de quem partiu, é o que nos resta. Estou tentando acordar para enxergar a beleza da vida que se revela em plenitude na morte, nas cicatrizes, nos traumas. Não é fácil ver/ouvir isso, mas, vamos caminhar. A descoberta da beleza da vida pede morte. Diria Vinícius de Moraes, um bom samba se faz com um bocado de tristeza (Samba da bênção). Termino deixando um torrão de açúcar, obviamente mascavo (não é tão doce assim!), da mineira, “flor toda aberta”, Adélia Prado.

O que há de mais sensual?
Os monges no cantochão.
Espalmo como só pode fazê-lo
uma flor toda aberta,
desperta a espumilha-rosa
contra o melancólico e o cinza.
“Um dia veremos a Deus com nossa carne.”
Nem é o espírito quem sabe,
é o corpo mesmo,
o ouvido,
o canal lacrimal,
o peito aprendendo:
respirar é difícil.

Gregoriano, in: O coração Disparado

*Rodrigo Ladeira é Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) / BH-MG. Coordena as atividades de Extensão e Educação Continuada na FAJE. Ensina Liturgia e Sacramentos em vários cursos livres e de especialização teológica em Belo Horizonte-MG.

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