Religião

19/04/2019 | domtotal.com

A cruz como já a participação de Jesus na Glória

Deus continua presente e atuante, mesmo no sofrimento humano.

Contemplar o Cristo crucificado é, pois, ressignificar toda a nossa esperança, porque por meio da Cruz, Jesus chegará à gloriosa ressurreição.
Contemplar o Cristo crucificado é, pois, ressignificar toda a nossa esperança, porque por meio da Cruz, Jesus chegará à gloriosa ressurreição. (Joshua Earle/ Unsplash)

Por Rodrigo Ferreira da Costa,SDN*

Choro. Abandono. Gemidos de dor. “Cheiro” de morte. Desespero. Cansaço. Desilusão...  A cruz de Cristo foi para os seus discípulos um duro golpe. Pois aquele Homem vindo da Galileia havia despertado naquela gente pobre e excluída o direito de sonhar. Ao iniciar a sua missão a partir da periferia de Israel, chamando e confiando a sua missão libertadora aos homens e mulheres simples do povo, Jesus fez com que eles acreditassem que um tempo novo estava por vir. A esperança messiânica parecia se realizar. A morte de Jesus na cruz, porém, joga tudo pelo chão. “Nós esperávamos que fosse ele quem libertaria Israel; mas, com tudo isso, já faz três dias que todas estas coisas aconteceram!” (Lc 24, 21). Na verdade, a cruz de Cristo revela um Messias bem diferente do messias imaginado e esperado. O Messias da cruz não é um rei poderoso e glorioso, mas um servo humilde e sofredor; não é um senhor de grande riqueza, sinal de bênção, mas um homem pobre que não tem onde reclinar a cabeça; não é um patriarca com uma numerosa descendência, mas um jovem solteiro sem casa e sem ninho.

Leia também:

Contemplar o Cristo crucificado é, pois, ressignificar toda a nossa esperança, porque por meio da Cruz, Jesus chegará à gloriosa ressurreição. Nas palavras do papa Francisco, “a cruz é a porta da ressurreição.” A promessa da ressurreição não é um discurso anestésico para consolar o pranto dos derrotados, mas a certeza de que Deus não abandona os seus justos. “Existe alguma coisa que eu lembro e me dá esperança: o amor do SENHOR não acaba jamais e sua compaixão não tem fim” (Lm 3, 21-22).

Jesus, ao ser ressuscitado pelo Pai (no Espírito Santo), recebe de Deus um “sim” a toda a sua vida de entrega e doação pelo Reino.  Aquele que passou a sua vida no mundo fazendo o bem, não foi esquecido no reino dos mortos. Ele ressuscitou. Está vivo. A morte não tem mais poder sobre Ele. Porém, Jesus ressuscita ainda com as chagas da sua Paixão, esse “sim” de Deus acolhe tudo o que Jesus foi, falou e fez durante a sua vida terrena, até a forma em que ele morreu – não foi um “maldito” na cruz, como poderia ser interpretado.  Deus é fiel e a sua promessa se realiza em Jesus. Esse “sim” radical de Deus a Jesus confirma o que os discípulos já intuíram desde a vida pré-pascal de Jesus: o sentido da vida é viver em seguimento a Jesus, com as atitudes dele, e com a confiança radical no Pai que ele teve.

Há, porém, outro risco na teologia cristã, o qual os primeiros cristãos não caíram nele, o de compreender a ressurreição de Jesus como um happy end (final feliz) da vida de Jesus. Isso esvaziaria totalmente o mistério de amor revelado na cruz. Pois justificaria o sofrimento de Cristo e o nosso sofrimento hoje em nome da ressurreição e nos levaria a pensar que Deus é um sanguinário que se alegra com a dor e com o sofrimento de seus filhos, esvaziando a cruz do seu gesto profético de denúncia contra a injustiça dos poderosos que, a partir de uma justiça injusta, condena e mata um homem justo.

Mas como compreender a ressurreição vinculada ao mistério da cruz? Ou como pensar a cruz como já participação de Jesus na glória? Como reza o próprio Jesus: “‘Pai, chegou a hora. Glorifique teu filho, para que teu filho te glorifique’” (Jo 17, 1). Nota-se que a cruz para Cristo não é derrota, nem a morte do amor; nem tampouco a ressurreição é o fim de todas as dores e sofrimentos, pois o Ressuscitado ainda traz em seu corpo as marcas do Crucificado (cf. Jo 20, 26). Podemos afirmar, portanto, que a ressurreição de Cristo é um evento trans-histórico com efeitos na história, há uma continuidade da identidade histórica de Jesus e, ao mesmo tempo, uma descontinuidade, pois não é um reavivamento de cadáver, é um passo para outra dimensão.

Pensar a cruz de Cristo como já participação na Glória é uma forma de não dissociar o evento pascal de Cristo (morte-ressurreição-ascenção-pentecostes). Pois quando tomamos a cruz sem a esperança da ressurreição caímos facilmente no fatalismo vitimista que usa a religião para justificar o sofrimento, a injustiça e a exclusão. Porém, se se busca o Ressuscitado sem as marcas da cruz, cai-se logo numa fantasia espiritual do deus do progresso, dos milagres, da retribuição, afastando-se da exigência ética e profética da fé.

Compreender, pois, a cruz de Cristo como já participação na glória da ressurreição é perceber a presença de Deus em nossa luta diária. É encontrar Deus atuando, Cristo sofrendo e o Espírito cuidando da vida e resistindo aos poderes destrutivos. É perceber, mesmo nos tempos mais sóbrios, os vestígios de Deus em nossa vida, em nossa história. É enfrentar os desafios da vida de cabeça erguida, e “não se deixar abater o ânimo”. É contemplar o transbordamento do amor que se expõe, e, ao mesmo tempo, não se perder nos devaneios de uma fé descomprometida com os crucificados da história.

*Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Mora atualmente na paróquia São Bernardo em Belo Horizonte-MG.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas