Religião

18/04/2019 | domtotal.com

A santa política de Jesus

Fome, conflitos intermináveis, crimes ambientais! Mundos de morte. Mas quem se importa? Os cristãos deveriam se importar!

Um cidadão é assassinado com 80 tiros por quem deveria protegê-lo.
Um cidadão é assassinado com 80 tiros por quem deveria protegê-lo. (AFP)

Por Élio Gasda*

Políticas neoliberais, necroeconomia, necropoder. Um cidadão é assassinado com 80 tiros por quem deveria protegê-lo. Uma barragem se rompe, mata rios, animais, a terra e suas plantações. Destrói sonhos, famílias, 229 vidas humanas interrompidas em Brumadinho! Mas tudo não passa de “incidente lamentável”. Violência institucionalizada contra os pobres! Muros são construídos, crianças separadas de suas famílias, feminicídio. Fome, conflitos intermináveis, crimes ambientais! Mundos de morte. Mas quem se importa? Os cristãos deveriam se importar!

Nunca foi tão necessário revisitar o Evangelho. Durante a Semana Santa, muitos jejuam, fazem penitência e oração para vivenciar a paixão, morte, e ressurreição de Jesus. Mas, estão preparados para o “inesperado e chocante” gesto do lava-pés? Entender as práticas transgressoras de Jesus, comer com os pobres, pecadores e marginalizados é o verdadeiro e contínuo processo de conversão.

Um ato tão comum na época de Jesus (Lc7, 36-50) foi por Ele utilizado para transmitir a mensagem central de sua vida. No episódio narrado por João (Jo 13,1-17), Jesus lava os pés dos seus discípulos e discípulas durante a ceia. Lavar pés empoeirados e sujos? Esse é o serviço que ninguém quer. Então, Jesus que não tinha escravos, surpreendeu. Levantou-se, colocou água na bacia, tirou seu manto e com a toalha na cintura ajoelhou-se e lavou os pés daquele grupo. Mulheres e homens frente a frente com um Senhor que lhes lava e beija os pés. Jesus se despoja de todo poder. Chocante, escandaloso, subversivo. Jesus, de joelhos, rompe os esquemas religiosos e políticos, inverte os valores, derruba hierarquias e desigualdades. Inaceitável para quem defende a ideologia dos poderosos e exige ser servido.

Gesto revolucionário de um Deus que se abaixa por amor. Jesus, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mt 20, 28), desconstrói a imagem de Deus criada pela religião. Deus não age como um soberano acima de todos, mas no serviço humilde. Jesus desmonta toda pretensão de grandeza e prestígio. Não legitima nenhum poder humano. Não é o poder, nem a força, nem o prestígio e a riqueza que nos torna mais humanos. O que humaniza são gestos de amor aos irmãos. Essa é a marca do verdadeiro cristão.

Jesus termina seu serviço perguntando: “Compreendeis o que acabo de fazer?” Tantas pessoas são suas testemunhas vivas neste mundo devorado pela ganância do dinheiro, da fama e ostentação. Mulheres e homens que desafiam a consciência alienada da humanidade, arriscando a vida para servir os descartados, os imigrantes, os invisíveis, os explorados, os famintos. Ao longo da história, muitas pessoas têm se dedicado a lavar e beijar os pés da humanidade ferida, prisioneira, violada.

Papa Francisco, é talvez, quem mais entenda essa mensagem. Servo dos servos de Deus é o outro título do líder da Igreja Católica. Na semana passada, em ato histórico e profético, Francisco ajoelhou-se aos pés dos líderes do Sudão do Sul, pediu-lhes que “o fogo da guerra se apague de uma vez por todas” no país africano. “Paz é “o primeiro dos dons que o Senhor nos trouxe”, é também a “primeira tarefa que os chefes das nações devem perseguir””, disse o Papa. Desde que assumiu seu pontificado, Francisco dá ao mundo exemplo de amor, humildade e serviço. Come com os pobres, monta lavanderia gratuita para moradores de rua, acolhe crianças, gays, deficientes, visita hospitais. A cada quinta-feira santa, o gesto se renova: ajoelha-se, lava e beija os pés de detentos, refugiados, jovens e mulheres empobrecidos e discriminados. Assim é a sua mesa eucarística cotidiana. O Papa não abstrai do Evangelho as condições sociais experimentadas pelo Povo de Deus.

Durante audiência, em 2016, Francisco explicou que Jesus, ao lavar os pés dos discípulos, deixou claro que os cristãos devem ser servidores uns dos outros e que isso nada tem haver com “servilismo” ou “escravidão”. Ao contrário, é expressão do “mandamento novo” do amor real ao próximo através do serviço e não apenas ‘de palavra’. Amor é serviço com humildade concretizado “no silêncio”: “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita” (Mt 6,3).

Qual a minha política? Que cristão sou eu na vida cotidiana? Estou traindo Jesus ao fazer escolhas que prejudicam meu próximo? Cada um com seu problema? Lavo meus próprios pés e pronto? Sou Simão Pedro? Primeiro não admite que Jesus lave seus pés, depois quer que lave também suas mãos e cabeça? Saio da minha zona de conforto em favor dos necessitados? Sou verdadeiro cristão em casa, no trabalho, no trânsito, na comunidade? Não somos apenas filhos de Deus e irmãos em Cristo, mas também servidores. É preciso dizer não aos privilégios e desigualdades. Caminhar para superar distâncias, construir pontes para evitar divisões. Não alimentar o ódio e a indiferença. Servir-se na mesa de Jesus onde o amor e a compaixão são os pratos principais. “Se eu, o Senhor e mestre, vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns dos outros” (Jo 13,14). O mais simples e importante é aquele que serve. Essa é a santa política de Jesus.

É preciso dizer mais?

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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