Religião

19/04/2019 | domtotal.com

Quem destruiu Notre-Dame?

Para além da catedral, qual templo precisamos reconstruir?

Destroços no interior da catedral de Notre Dame após o incêndio.
Destroços no interior da catedral de Notre Dame após o incêndio. (Reuters)

Por Mirticeli Dias de Medeiros*

Um acidente atribuído às obras de restauração: foi o que disseram as autoridades francesas. Logo após o ocorrido, foram várias as interpretações “espirituais” que, rapidamente, ocuparam as discussões na internet. Mal esperaram qualquer pronunciamento oficial. Contrariando toda e qualquer linha teológica cristã, quase transformaram o episódio em um “castigo de Deus” por causa da “secularização da França”. É como se o Deus-juíz da idade média - período no qual foi construída a catedral - voltasse, com todo o furor, para punir “os inimigos da fé”.

E em meio a essa “lacração” de análises marginais, até o escritor Victor Hugo - deísta, diga-se de passagem -, foi transformado em profeta. Em seu romance Notre-Dame de Paris, publicado em 1831, o escritor francês, ao descrever o suposto presságio de um incêndio, o fez simplesmente para denunciar os problemas na estrutura desse patrimônio histórico tão importante não só para os franceses, mas para a história do Ocidente. É tanto, que mais à frente, ele acrescentara:

“Sem dúvida, é ainda hoje um majestoso e sublime edifício. Porém, é incrível que um edifício que foi tão bem preservado com o passar dos anos - e diante do qual é difícil não suspirar - seja tão desrespeitado pelas degradações; mutilações que o tempo e os homens simultaneamente fizeram a esse monumento venerável”, ressaltou.

E os homens continuam a mutilar os símbolos cristãos quando os transformam em cavalo de batalha de guerras ideológicas. O caráter humanizador do cristianismo, mais uma vez, foi negligenciado pela precipitação de seus adeptos, através de um discurso raso, infantil e sem fundamento: a tendência é apontar culpados, não gerar uma reflexão genuína. Não deram espaço nem mesmo para refletir sobre o que representavam as catedrais na idade média e como tais construções nos remetem para o divino - e para o próximo. Dá-se mais importância ao discurso de vitimização que à divulgação da beleza, do patrimônio e da história (sem anacronismos, obviamente).

Notre-Dame, o gótico, a “idade das luzes”.

A primeira coisa que devemos levar em consideração é que Notre-Dame foi construída para atender a demanda de uma cidade que estava em crescimento. A cidade de Paris, no século XII - que acabara de ser transformada em capital do reino de França por Filipe I algumas décadas antes - já era o principal o centro econômico e cultural do país, o que obrigou as autoridades eclesiásticas a construir um edifício que pudesse comportar o maior número de pessoas possível.

A catedral começou a ser construída na fase de consolidação do estilo gótico, que apesar de ser considerado um modelo arquitetônico de origem francesa, representa o “período das luzes” que caracterizou os duzentos anos posteriores ao ano 1000 em toda a Europa. A construção das catedrais acompanha o desenvolvimento de técnicas inovadoras e linhas de espiritualidade que contradizem a interpretação errônea de que toda a idade média tenha sido um a  “era das trevas” no tocante à cultura e ao conhecimento. O gótico, em sua concepção inicial - cujos primeiros elementos se observam na abadia de Cluny - surgiu, entre os monges, como uma arte de “contraconduta”: o homem medieval dessa fase, cuja relação com o tempo é marcada pela visão escatológica, vê na sobriedade - que motivou, primordialmente, esse estilo de construção - um meio para se chegar a Deus. Não por acaso, Cluny, São Francisco e as ordens mendicantes como um todo sejam frutos de todo esse movimento “revolucionário” que questionou os excessos e o acúmulo de riquezas.

Partindo dessa premissa, a reconstrução de Notre-Dame -, já financiada por doações milionárias que chegam aos montes - , deveria nos fazer pensar que, além do templo físico, é hora de reconstruirmos o nosso cristianismo: este que negligenciamos com a nossa dureza de coração e com as nossas instrumentalizações. A crise de fé na Europa, tema que tomou conta dos espaços virtuais esses dias, é também culpa nossa, se pensarmos a todas as vezes que demos mais importância ao aspecto material que à essência da doutrina que professamos. E os europeus, como ninguém, testemunharam, muitas vezes, como a Igreja tantas vezes se rendera ao poder em vez de seguir, com fidelidade, a sua missão. 

Não fomos os responsáveis diretos pelo incêndio que destruiu o teto de Notre-Dame, mas muitas vezes destruímos o que ela representou uma época: no essencial é que Deus se manifesta.

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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