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19/04/2019 | domtotal.com

Nossa Senhora de Paris

Que sua restauração sirva como um sopro de alento em momento tão soturno, em mundo tão desigual, injusto e letal, e que muitas odes lhe sejam dedicadas.

Consolo por saber que o povo francês, seus milionários e governos doaram, de imediato, mais de 750 milhões de euros (R$ 3,3 bilhões).
Consolo por saber que o povo francês, seus milionários e governos doaram, de imediato, mais de 750 milhões de euros (R$ 3,3 bilhões). (Benoit Tessier/Reuters)

A comoção por Notre-Dame, mundial, por certo, mas muito impactante também aqui, mostra a força do símbolo, da história, da memória, da devoção e fé encravadas nas pedras deste patrimônio da humanidade de mais de 850 anos. Catedral de monumental significado, ocupa lugar referencial, mítico, no imaginário não só ocidental.

Sabe-se lá o número de obras artísticas geradas com a imagem da igreja-marco da Cidade Luz. Quantos livros, filmes, canções, pinturas, desenhos e outras manifestações artísticas tiveram na Catedral seu leitmotiv?

Cenas impressionantes do incêndio destruindo parte da estrutura do telhado, das chamas consumindo a torre de 93 metros – o pináculo, do horror crescente pelo testemunho da dizimação de relíquias e objetos sem igual, do sofrimento de milhões, atônitos, com o coração nas mãos, orando fervorosamente para a dissipação das chamas, do choro compungido,em língua universal, emblematizando a tristeza planetária, tudo muito triste. A impotência coletiva, a sensação de devastação de tudo em temporada global de melancolia e circunspecção.

Consolo por saber que o povo francês, seus milionários e governos doaram, de imediato, mais de 750 milhões de euros (R$ 3,3 bilhões). Desconsolo pelo descompasso nacional, da insensibilidade visceral em relação à destruição de um dos nossos maiores tesouros – o Museu Nacional, cuja arrecadação resultou na módica quantia de R$ 1 milhão, sendo a maior parte advinda de doações de pessoas físicas e de países como a Alemanha e Inglaterra. Números que falam por si e dispensam maiores comentários.

Resistiu a Capela-mór, monumento da arquitetura gótica, a um incêndio de 12 horas, impressionante e rápida a ação governamental, in loco, capitaneada pelo presidente Macron: “todos fizeram o possível cada um no seu papel. E digo hoje com força: nós somos este povo de construtores. Temos muito a reconstruir. Vamos reconstruir a Notre-Dame ainda mais bonita, e quero que seja concluída em 5 anos”. E nós?

Posta à prova do fogo, sobressaída firme e soberana das cinzas, em que pese chamuscada/machucada, mas digna na sua missão de salvaguarda de tesouro universal, merece que dobrem todos os sinos por sua pronta recuperação, que muito tempo há de levar. Que sua restauração sirva como um sopro de alento em momento tão soturno, em mundo tão desigual, injusto e letal, e que muitas odes lhe sejam dedicadas, que seja cada vez mais cantada, com a força e permanência de todos os versos, como os de Mario Sá-Carneiro,de seu poema há tanto tempo passado:

Listas de som avançam para mim a fustigar-me

Em luz.

Todo a vibrar, quero fugir.. Onde acoitar-me?

Os braços duma cruz.

Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar…

 

Um cheiro a maresia

Vem-me refrescar,

Longínqua melodia

Toda saudosa a Mar…

Mirtos e tamarindos

Odoram a lonjura;

Resvalam sonhos lindos…

Mas o Oiro não perdura

E a noite cresce agora a desabar catedrais…

Fico sepulto sob círios —

Escureço-me em delírios,

Mas ressurjo de Ideais…

 

– Os meus sentidos a escoarem-se…

Altares e velas…

Orgulho… Estrelas…

Vitrais! Vitrais!

 

Flores de liz…

 

Manchas de côr a ogivarem-se…

As grandes naves a sagrarem-se…

– Nossa Senhora de Paris!…

EMGE

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