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23/04/2019 | domtotal.com

O tempo que nos resta

Talvez não seja ainda o fim do mundo, mas vivemos num mundo que é o fim.

Onde está? O que foi feito da rua encantada onde passei minha infância?
Onde está? O que foi feito da rua encantada onde passei minha infância? (Reuters)

Por Marco Lacerda*

Faz algum tempo acordei ao som de uma canção que dizia assim: “Já vi o fim do mundo algumas vezes e na manhã seguinte estava tudo bem”. Hoje, aquilo que no passado era apenas uma canção me aparece como verdade nua e crua. Não adianta agarrar-se a divagações poéticas de que o apocalipse é uma desculpa que arranjaram pra dizer que o mundo precisa de férias. No fundo, todos aguardamos o fim do mundo e o fim parece vir a galope.

Os sinais estão por toda parte. Acossado por estes pensamentos, ando a esmo pelas ruas da cidade nesta tarde de outono. O céu nublado deixou Belo Horizonte sem as montanhas. Caminho pela rua Bernardo Guimarães, escolhendo, para pisar, os espaços abertos no asfalto pelo tempo e pela passagem dos carros, deixando à mostra, aqui e ali, o antigo chão de pé-de-moleque onde brinquei no passado. Não estão mais em seus lugares o tamarindeiro em frente à casa de Clarinha, nem as casas de Chiquinho Bela Vista, do doutor Cupertino, de Pimentão, antes enfileiradas uma ao lado da outra, sempre de portas e janelas abertas. No lugar ergueram-se prédios guardados por vigias armados até os dentes. O velho quarteirão agora está sepultado debaixo de um amontoado de edifícios que o deixaram igual a qualquer rua. Pertence a um passado ao qual só a imaginação pode dar vida.

Lembro, com a ajuda da saudade, os anos passados naquele bairro com sua gente de pouco ter e muito sentir. Percorro as ruas com a consternação de um viajante a quem tivessem dado um mapa onde nada corresponde ao que procura. Não encontro a mercearia de Seu Bené, o amigo da vizinhança que permitia à freguesia atrasar o quanto precisasse o pagamento das dívidas, enquanto em outros armazéns as contas tinham de ser pagas com exatidão e no dia do vencimento. No lugar surgiu um hipermercado desses que criam uma aura cosmopolita e um ar de grandeza que nos faz achar que vencemos o subdesenvolvimento.

Onde está o casarão de esquina onde morávamos, meu pai sentado nos degraus da entrada, fumando com o olhar perdido num fim dos tempos que só ele parecia enxergar. Cochichando com seus botões, ele repetia baixinho: “Pra quê dinheiro? Não adianta esconder no bolso da calça. Eles não aceitam dinheiro nem no inferno”.

Avisto ao longe a serra do Curral, ou melhor, o pouco dela que resistiu ao poder depredador da ganância. O que sobrou compõe agora o perfil agredido de uma montanha que fora encantada, à qual, quando menino, eu voltava para ver de dia o que tinha visto à noite, no outono o que vira na primavera, ao sol o que conhecera sob a chuva. O que restou parece um cenário mantido ali como prenúncio de um planeta em extinção.

Ainda pouco à vontade dentro dos meus 40 anos, sinto o desconcerto de quem tivesse dormido durante muitos anos e acordado num tempo em que se derrubaram muros, mas não se descobriram novos horizontes. Meus sonhos de menino e, mais tarde, as utopias de adolescente não conseguiram tornar o mundo melhor.

Agarro-me à profecia de que no último suspiro da existência um certo Deus limpará dos nossos olhos toda lágrima e não haverá mais morte, nem pranto, nem dor. Diz um especialista que especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, e por fim acaba sabendo tudo sobre nada.

A história tem um começo, um meio e um fim, mas não necessariamente nessa ordem. Tempo, tempo, tempo ... é aquilo que o homem está sempre tentando matar, mas que no fim acaba matando-o. Só nos curamos de um sofrimento depois de o haver suportado até o fim. O fim da esperança é o começo da morte. Ninguém pode voltar no tempo e fazer um novo começo. Mas, podemos começar agora e fazer um novo fim? Pode ser. O que a lagarta chama de fim do mundo, o homem chama de borboleta.

*Marco Lacerda é jornalista, escritor e Editor Especial do DomTotal.

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