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25/04/2019 | domtotal.com

Desencontros com a realeza

De uma educação calcada em princípios morais ao ensino decadente de hoje.

Relato de um tempo em que uma chinelada
Relato de um tempo em que uma chinelada "havaiana" ajudava a formar bons estudantes. (Reuters)

Por Carlos Eduardo Leão*

“Silvana, O que a família real veio fazer no Brasil?” E Silvana, coitadinha, trêmula, olhar assustado e totalmente insegura, desafiava minha mãe, já impaciente com o descompromisso da filha nos estudos. Minha irmã não era nenhuma “Brastemp” no quesito “estudar”, mas de uma inteligência muito acima do normal e já reservava suas energias para  a grande artista que viria se tornar. Naquela época, chegávamos da escola e, após o almoço, fazíamos o “dever de casa” e éramos religiosamente testados, após o referido compromisso, com a famosa “tomada dos pontos”.

Sempre fui insuportavelmente CDF (o “nerd” de hoje). Não me lembro de um segundo lugar no primário, ginásio ou científico. Ganhei, certa vez, o Prêmio Rotary, uma honraria local conferida ao melhor aluno do Estado pelo conjunto de notas obtidas durante os quatro anos do ginasial. Eu fui aluno do Ginásio São Vicente de Paulo, tradicional colégio de Vitória e que pertencia à minha família paterna. Com esse breve histórico, nem é preciso dizer que nunca tive problema  com a minha mãe na “tomada de pontos”. A impressão que me passava é que ela achava enfadonha as minhas respostas invariavelmente corretas e na ponta da língua. Ela, tipo, cumpria tabela.

Na segunda vez que perguntava sobre “O que a família real veio fazer no Brasil”, ela já colocava a sandália de borracha (aquela mesma que não deformava, não soltava as tiras e não tinha cheiro) em cima da mesa. Era apenas pra lembrar à Silvana o que a esperava caso titubeasse outra vez na resposta. Não que a minha mãe fosse uma versão feminina de Torquemada, mas Silvana exauria a paciência de qualquer mortal com a sua pouca atenção com os deveres de casa. Uma malandrinha, como se dizia àquela época de puro romantismo.

Havaiana em riste, apontada para qualquer segmento corporal de minha irmã, sempre magrinha e aparentemente frágil, minha mãe, naquele ultimato mortal, desferiu a indefectível “O que a família real veio fazer no Brasil?” Silvana, em meio àquela situação de ataque iminente que fatalmente lhe renderia uma “chinelada”, inspirou, sem querer, o personagem Rolando Lero e, com luminar presença de espírito, respondeu inconteste com voz trêmula e aterrorizada: “Veio esnobar!” Mamãe, sabiamente, não se conteve e caiu numa inesquecível gargalhada. Rendeu-se à inteligência e à perspicácia da boa e incorrigível malandra. Foi com ela aos cadernos e enciclopédias, reciclou-se e explicou-lhe o que a bendita família veio fazer aqui.

Chego em casa quatro da tarde. Cursava o quarto e último ano do ginasial. Nem sei como se fala hoje em dia. Estava literalmente arrasado. Entrei no meu quarto em lágrimas. Uma sensação terrível de derrota. Uma preocupação infinita no que o meu pai, um super velado exigente do sucesso do filho, poderia pensar sobre aquele fracasso. Uma nota cinco! Uma mácula na minha caderneta fadada à monotonia dos incontáveis dez. Minha mãe abraçou-me com um aconchego diferente e seus olhos brilhavam. Pra mim, algo estranho para aquele momento. Duas horas depois ela bate à minha porta e me chama até à sala. Uma mesa linda com bolo, guloseimas diversas, refrigerantes e alguns primos me esperavam. “Meu filho , fiz esta festinha pra comemorar sua nota cinco. Você é normal, meu filho. Parabéns!” E caímos todos na comilança.

Pra mim, uma mulher sábia. Pro meu pai, homem de uma ortodoxia profunda, uma maluquinha irresponsável, como a ela se referia carinhosamente em tom de brincadeira com fundo, pra ele, de absoluta verdade. Essas duas passagens marcaram a minha infância e nos prepararam,  indelevelmente para a vida. Com elas, minha mãe nos deu, entre tantos outros, exemplos pontuais de enfrentamento da realidade, aguçou-nos para a virtude da humildade, exigiu-nos conhecimento, cobrou-nos responsabilidade, preparou-nos para os percalços e intempéries do cotidiano e, sobretudo, ensinou-nos que a criatividade e o bom humor podem e devem estar presentes nas mais profundas e complexas atitudes que a vida diuturnamente nos exige.

E aí, sobrevém a bendita política. É com isso que sonha o presidente, gente! O retorno de uma educação calcada em princípios morais, presumivelmente eternos. Família, ética, respeito e moral são virtudes atemporais que, desafortunadamente, estão fora de moda na maioria das escolas e universidades brasileiras, todas aparelhadas, ideológicas, politizadas e ocupadas por, aqui sim, verdadeiros malucos irresponsáveis. Meu pai não teria com eles a menor condescendência de carinho nem se daria ao trabalho de brincar para ocultar uma verdade. Se conheci bem o Dr. Sólon Leão, “tendenciosos inconsequentes” estaria de bom tamanho para os que insistem em militar no ensino esquerdizante que ainda assola grande parte da escola brasileira.

*Carlos Eduardo Leão é médico e cronista

EMGE

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