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24/04/2019 | domtotal.com

Os mortos, os vivos e as goiabas

O tempo se esgarçava, o vento sussurrava vozes mortas.

Tentei ignorar o fato e segui andando pelas ruas de São João del-Rei.
Tentei ignorar o fato e segui andando pelas ruas de São João del-Rei. (Pablo Pires Fernandes)

Por Pablo Pires Fernandes*

Depositei as sacolas com as compras no degrau de pedra diante do portão do cemitério. Saquei o celular para fotografar a bela igreja barroca do outro lado da rua. A luz do sol exacerbava a brancura do edifício centenário quando ouvi a frase: “Eles vão levar tudo”. Virei-me e me deparei com uma senhora magra, um pouco curvada que, num brevíssimo instante, exibiu um sorriso misterioso.

Repeti suas palavras, como que para confirmar o que ela havia dito, mas a senhora seguiu seu caminho em passos lentos e muda. Fiz as fotografias turísticas da ocasião, a torre envolta numa “azuleza” ímpar e fui espiar o interior do cemitério através do enorme portão de ferro. Estava cerrado. Acima dele, dois vasos em relevo ladeavam a imagem de uma caveira disposta sobre dois ossos cruzados. Abaixo, a inscrição exibia 1836 e deixava claro que o local sepultava segredos seculares.

A senhora dobrou a esquina e, num ato instintivo diante do portão, observei túmulos e flores e fui invadido por imagens de outros tempos. Sobre o degrau de pedra, as sacolas aguardavam o furto dos mortos, mas creio que o sol daquela tarde ou a data – era uma Quinta-feira Santa – inibiam aventuras daquelas almas.

Recolhi minhas compras – goiabas, tomates, verduras e carambolas – e fui até a esquina conferir se avistava a senhora, mas não tive sucesso. Caminhei por becos reparando nos paralelepípedos e imaginando que os defuntos do cemitério pisaram as mesmas pedras enquanto o som dos sinos tornava tudo mais solene e grave.

Não fui capaz de lembrar a cor do vestido da senhora. A imagem e o tom de sua voz desvaneciam. Duvidei de minha memória até concluir que havia me encontrado com um fantasma. Esforcei-me para voltar ao meu ceticismo racional de sempre, mas a aflição piorou quando constatei que restavam quatro goiabas na sacola. Estava certo de ter comprado cinco.

Tentei ignorar o fato e segui andando pelas ruas de São João del-Rei. Percebi olhares zombeteiros por detrás das janelas, minha dúvida era motivo de chacota. Não posso afirmar que o movimento das cortinas rendadas foi real, apenas sentia a presença de várias pessoas na rua deserta. O tempo se esgarçava, o vento sussurrava vozes mortas.

A lua, quase cheia, ordenava-me a seguir. Outra luz, porém, chamou-me a atenção e me vi diante de uma capela, um dos sete passos da Paixão de Cristo. Encantado com a beleza dos adornos e da imagem de Jesus crucificado, ajoelhei e orei. Era uma oração desconhecida e me lembro apenas de evocar a paz para os vivos e os mortos.

Tomado por uma emoção indefinida, deixei as sacolas cair. Duas goiabas rolaram pela calçada e se detiveram ao encontrar um sapato alto e fino. Num reflexo, minhas mãos colheram as frutas e meus olhos percorreram o corpo da dona do sapato, as coxas grossas sob a meia de nylon, a minissaia justa, o top decotado e o sorriso irônico nos lábios vermelhos de batom. A mulher reparou a minha falta de graça enquanto me erguia, pegou uma goiaba e a mordeu com vontade antes de sair gingando rua abaixo.

A visão muito nítida daquela mulher contrastava com a imagem fugidia da senhora. Pensei sobre o passado e o presente e, de novo, deparei-me com o portão do cemitério. Deixei duas goiabas sobre a pedra, uma espécie de oferenda aos mortos, mas comi a última que me restava e me lembrei dos lábios vermelhos daquela mulher mordendo a fruta.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

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