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23/04/2019 | domtotal.com

A regra do jogo de Dix pour cent

Atores, atrizes e diretores de cinema dão a cara a tapa para corroborar as teses apresentadas pela série.

Falar de assuntos sérios com leveza, sem perder o bom humor e nem diminuir o peso das discussões é o ponto alto de sua filmografia
Falar de assuntos sérios com leveza, sem perder o bom humor e nem diminuir o peso das discussões é o ponto alto de sua filmografia (Divulgação / Netflix)

Por Alexis Parrot*

Em 1873, um jovem Rimbaud, às vésperas de se mudar para Paris e ir de encontro a seu destino, já dizia em um par de cartas: "se o cobre desperta clarim, não é sua culpa... azar da madeira que se descobre violino... o Eu é um outro".

A frase célebre, adotada como mantra pela psicanálise lacaniana para discutir a formação do sujeito e suas articulações com a alteridade, ressurge retumbante - agora na TV! - e, mais uma vez, confirma o vaticínio do poeta.

Trata-se de Dix pour cent, seriado viciante e verdadeira coqueluche na França, já na terceira temporada. Os dois primeiros episódios são dirigidos pelo experiente Cédric Klapisch e o resultado não poderia ser outro: suas digitais estão impressas por todos os lados.  

Falar de assuntos sérios com leveza, sem perder o bom humor e nem diminuir o peso das discussões é o ponto alto de sua filmografia, como facilmente se comprova ao nos lembrarmos dos cultuados filmes Albergue Espanhol e Bonecas Russas, também de sua lavra.

A grande vitória da atração é ter conseguido manter no segundo e terceiro anos o tom dado por Klapisch à primeira temporada (da qual foi também o diretor artístico). Mesmo sem ele à frente da tropa, elenco e equipe souberam não matar o frescor da ideia original, o estilo e o ritmo do programa - o que é raro de se ver por aí e merece aplausos.  

A charmosa construção neobarroca do Hôtel du Louvre, com seu telhado de mansardas e cúpulas quadradas, serve de locação para a fachada do prédio de escritórios onde se localiza a fictícia Agência Samuel Kerr. É ali, no coração de Paris e a alguns passos do Palais Royal, que Matias, Andrea, Gabriel e Arlette passam seus dias gerenciando a carreira de algumas das estrelas mais emblemáticas em atividade do cinema francês.    

O título diz respeito aos 10% de comissão que empresários recebem dos contratos assinados por seus clientes. Por sua vez, estes acabam obrigando que aqueles se tornem seus psicólogos, babás, conselheiros para todos os aspectos da vida e ombro amigo ocasional para chorar as mágoas. 

Enquanto acompanhamos as divertidíssimas trapalhadas pessoais e profissionais dos agentes (na melhor tradição da comédia de erros francesa de Molière e Feydeau), grandes nomes como Binoche, Huppert, Adjani, de France, Marchand, Lanvin, Luchini e Dujardin, entre outros, surgem no écram do computador, via Netflix, para encarnar versões nem sempre lisonjeiras de si mesmos.

Atores, atrizes e diretores de cinema dão a cara a tapa para corroborar as teses apresentadas pela série. Se vemos Juliette Binoche abrindo o Festival de Cannes em um dos episódios, é e não é Binoche que está ali. É a própria mas também outra - porque a atriz vira personagem e, a partir daí, o que importa é a história que está sendo contada.

Representa, de certa forma, uma resposta inventiva e sutil a certa vertente da sitcom norte-americana, onde o personalismo sempre imperou. É o caso de atrações como Seinfeld, Roseanne, a clássica I Love Lucy, All about Jim e outras inúmeras, onde os protagonistas cedem nome e aspectos da personalidade para os personagens que vivem na ficção. Ellen Degeneres saiu literalmente do armário em episódio de sua série Ellen nos anos 90 em sincronia com o que acontecia em sua vida pública.

O recente Jean Claude Van Johnson tentou navegar pelas mesmas águas. O belga Van Damme interpretava uma versão de si mesmo em que o astro do cinema era apenas fachada para as atividades de um espião de aluguel. Faltou delicadeza e a série naufragou já na primeira temporada.  

Quero ser John Malkovich, o filme de Spike Jonze estrelado por... Jonh Malkovich, também gravitava em torno do mesmo epicentro, mas com escolhas bem mais radicais e premissas absurdas; a fantasia ali era norte, motor e veículo.   

Dix pour cent estabelece um jogo que embaralha biografia com ficção, pactuado entre os autores da série e seus intérpretes - mas tudo com um divertido verniz de real que resulta encantador. Blefe de mestre que os franceses dominam como ninguém, desde Flaubert e Balzac.

Em uma época marcada pelo interesse desmesurado pela impressão de realidade (o consumo e proliferação dos reality shows é causa e sintoma do fenômeno) e pelo descerrar das cortinas que guardam a intimidade dos ídolos (reais ou fabricados, tanto faz) a série acerta na jugular do lugar comum ao subverter valores caros a esta nova raça emergente de influenciadores digitais e seus ávidos seguidores.

Zomba de vários pilares instituídos da vida contemporânea, como o culto à celebridade, a perseguição da fama a qualquer preço, o glamour em detrimento do talento e até mesmo a vilanização da classe artística, como mais recentemente temos visto no Brasil, graças a visões distorcidas do funcionamento dos mecanismos públicos de patrocínio cultural - onde alguns (o governo federal incluído) querem enfiar toda a cadeia da produção artística em um mesmo saco de gatos pardos.    

Além disso, humaniza a indústria do espetáculo, porque as discussões surgem a partir da experiência vivida por cada um dos astros/personagens convidados. O envelhecimento e todas as dores e significados que o acompanham; a rivalidade; a família e a maternidade; a vaidade e o orgulho; os princípios e a integridade; o amor - questões não estranhas a nenhum de nós, mas que parecem ter um peso maior para aqueles que tiram o sustento da arte. Sobretudo, das aparências.

Existem episódios melhores e outros mais fracos, é inegável - e compreensível, dado o formato estabelecido. Porém, mesmo se o drama apresentado pela estrela do dia não empolga muito (como o episódio com a participação de Monica Belucci) o arco narrativo da temporada, o que dá unidade a toda a obra, segue firme, interessante e cheio de reviravoltas bem amarradas - e por isso a peteca não cai nunca.

Se é verdade mesmo que Deus e o diabo moram nos detalhes, provavelmente Dix pour cent é a prova mais cabal da existência de ambos. É o cachorrinho da veterana empresária Arlette, chamado de Jean Gabin; ou a frase célebre de Flaubert sobre sua Bovary citada por vários personagens em diferentes situações; ou Isabelle Huppert se referindo a Scarlett Johansson como "aquela moça que anda para cima e para baixo em Tóquio naquele filme da Sophia Coppola"...

Ou o soberbo trabalho de figurino que não apenas veste os personagens principais, mas nos diz de cara quem são aquelas pessoas; ou a preocupação com o casting do elenco fixo, tão talentoso e entrosado que não deixa nada a dever aos medalhões com que contracena;

ou Isabelle Adjani pedindo para seu agente tentar arrumar um papel para ela na próxima temporada de Game of Thrones; ou "o método" levado às últimas consequências, quando um ator não consegue se desvencilhar de um papel, amealhando seríssimas e hilárias repercussões;

Ou a cena impecável, coreografada e executada com precisão e comicidade por todo o ensemble de atores centrais, de um parto na terceira temporada, ao som da composição de Georges Delerue para A Noite Americana - homenagem emocionante a Truffaut, a todo o cinema francês e ao mecanismo narrativo que é o feijão com arroz da série, o metacinema. É material para ver e rever diversas vezes, sem possibilidade de fastio.    

Não é pouca coisa, mas ainda assim a chave para o significado de toda a série é dada logo no segundo episódio, quando alguém se lembra de uma frase do fundador da agência:

"Que sorte têm os atores de exercer sua profissão, que se chama 'jogar' ('jouer' no original francês, correspondendo ao nosso 'interpretar', mas também a 'brincar') É por isso que permanecem crianças. Porque jogam. Jogam para não crescer, jogam para não morrer".  

A reflexão, mesmo apaixonada, não impõe obstáculos à crítica - é este o jogo e o território por onde Dix pour cent decidiu transitar.

(Dix pour cent: disponível no Netflix.)

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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