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25/04/2019 | domtotal.com

História paranormal de um recruta

– Estou pronto pra outra, meu caro Nico. Deus lhe pague. Você salvou a minha vida.

Durante a corrida ele parecia flutuar, enquanto eu tropeçava nas pedras e nos tocos do mato ralo.
Durante a corrida ele parecia flutuar, enquanto eu tropeçava nas pedras e nos tocos do mato ralo. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Não acreditava em poderes paranormais até o dia em que vivi uma experiência extraordinária. Foi quando o Nico, meu colega de farda, ergueu a cabeça como para aguçar o ouvido e começou a correr.

– Anda, vamos – chamou.

Não entendi, mas segui-o pela serra abaixo. Estávamos em treinamento militar numa encosta de mato ralo e cheia de pedregulhos.

– Para onde estamos indo, e por que essa pressa? – perguntei.    

– Você não ouviu o sargento pedindo socorro?

– Não ouvi nada – respondi. 

Chamava-se Antônio, que virou Tonico, e daí para Nico foi um pulo. Tinha fama de mediúnico ou paranormal ou coisa parecida. Eu nunca vira nada de diferente nele, mas diziam que era capaz de matar passarinho só com o olhar. Também com o olhar curava bicheiras nos animais. Como éramos da mesma idade, acabamos por entrar juntos no Tiro de Guerra. 

Durante a corrida ele parecia flutuar, enquanto eu tropeçava nas pedras e nos tocos do mato ralo. Passamos por um soldado que manejava o fuzil e paramos para perguntar pelo sargento. Não sabia informar. Vários outros recrutas que encontramos ao longo da corrida também diziam não ter visto ou ouvido nada. Fiquei pensando que esse meu amigo era maluco.

Uns dois ou três quilômetros depois eu disse, ofegante:

– Se você ouviu algum pedido de socorro, não pode ser daqui. Nesta distância, como é que você pode ter ouvido alguma coisa?

Ele não respondeu. Chegamos a um matagal e ele parou com uma mão atrás da orelha:

– Escuta. Não está ouvindo?

– Não, nada – respondi. 

Entramos numa mata fechada, agora caminhando num emaranhado de arbustos e nos desvencilhando de cipós. Uns 100 metros à frente ele disse que os gemidos do sargento estavam bem próximos.

– Agora você está ouvindo, com certeza – falou, e eu disse que não.

Mais alguns metros e, para meu espanto, deparamos com uma vala muito funda onde vimos o oficial estendido lá embaixo. Não soltava um gemido sequer, porque estava desacordado. Parecia morto, com o corpo espremido sob um tronco.

– Precisamos pedir socorro, urgente – disse o Nico.

Tirou da cinta o radiocomunicador, ligou para o quartel, deu a localização e pediu que mandassem urgentemente uma equipe de resgate. Eu parado ali, encabulado.

Em menos de uma hora a equipe chegou. Bombeiros desceram a vala com equipamentos de segurança, presos em cordas. Em poucos minutos içaram o sargento. Sem sentidos, mas vivo, como comprovou um paramédico.

No dia seguinte, fomos ao hospital para saber notícias do nosso treinador. Estava consciente. Todo engessado. Como uma múmia. Soubemos que havia quebrado algumas costelas e uma perna. Assim que nos viu, antes que disséssemos qualquer coisa, ele olhou para o meu amigo e disse com um sorriso entre lágrimas:

– Estou pronto pra outra, meu caro Nico. Deus lhe pague. Você salvou a minha vida. 

Mesmo sem poder mover um dedo, pediu e ganhou um abraço. Eu olhava a cena em silêncio. Não tinha nada a dizer. Talvez muito a pensar.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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