Religião

25/04/2019 | domtotal.com

Iniquidade institucionalizada em estruturas de pecado

O mal não é abstração, concretiza-se no pecado que ultrapassa a dimensão pessoal. Ele atinge a esfera pública, gerando um sistema de injustiça e sofrimento para os demais.

Pobreza e violência não são apenas questões econômicas e políticas. Tem a ver com o Reino de Deus.
Pobreza e violência não são apenas questões econômicas e políticas. Tem a ver com o Reino de Deus. (Parij Borgohain/ Unsplash)

Por Élio Gasda*

O mal não está só no coração, está nas instituições, nas leis, na política, na economia. “Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça. Se cada ação tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas de uma sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte” (Evangelii Gaudium, n. 59).

O mal é uma realidade que, além da dimensão ética, contém uma dimensão religiosa. As duas estão unidas no conceito cristão de pecado. Esta realidade que desumaniza e que se opõe à vontade de Deus já está presente nos relatos da Criação: Caim, onde está teu irmão Abel? (Gn 4,9). O pecado contém uma configuração pessoal, interpessoal, comunitária, social e cósmica, afeta a humanidade e a criação. Uma ruptura profunda.   

Deus envia seu Filho como sacramento de reconciliação. Jesus não falou muito de pecado. Mas ao anunciar a salvação, enfrentou e denunciou a maldade humana. Ao identificar quem são seus inimigos, revelou a dimensão sócio estrutural do pecado: grupos organizados em torno do sistema religioso, político e econômico: “Esta geração” (Mt 11, 16-19; 12, 39-45; 16,4; Mc 8, 38; Lc 11,49-51), “escribas e fariseus” (Lc 11,17-54), os “ricos” (Mt 19, 23-24; Lc 6,24), os “governantes” (Mt 20, 25). O Reino da vida para todos – justiça e paz, reconciliação e amor ao próximo – principalmente para os mais pobres, enfrenta dura resistência dos representantes do império da injustiça, da violência e do deus dinheiro.

O pecado é uma relação entre o ser humano e o seu próximo, com a criação e com Deus. Nessa dimensão o pecado manifesta-se como injustiça e idolatria. Pobreza e violência não são apenas questões econômicas e políticas. Tem a ver com o Reino de Deus. Há uma violência institucionalizada, um sistema gerador de pobreza e morte para que uns poucos vivam no luxo. A ruptura com Deus se expressa na negação da vida. Coisificar, instrumentalizar, discriminar o outro é ofender a Deus. Esse pecado é real também em algumas igrejas cristãs.

Há estruturas sociais, econômicas, políticas e culturais perversas. “São estruturas criadas pelos homens nos quais o pecado de seus autores imprime sua marca de destruição” (Puebla, n.281). Não há nada mais contrário à vontade de Deus que todo “um sistema marcado pelo pecado” (Puebla, n.92) que condena e abandona milhões de seres humanos ao desespero e à morte.

Na encíclica Sollicitudo rei socialis, João Paulo II dizia que é preciso dar nome à raiz dos males. Não é possível compreender profundamente a realidade sem falar de “estruturas de pecado concretizadas num conjunto dos fatores negativos, em mecanismos econômicos, financeiros e sociais que agem em sentido contrário a uma verdadeira consciência do bem comum universal” (n. 36). Tais estruturas são originadas em duas atitudes fundamentais: obsessão exclusiva pelo lucro e desejo insaciável pelo poder. Ambas buscadas “a qualquer preço” (n. 37). Decisões aparentemente inspiradas pela economia ou pela política ocultam formas de idolatria (n. 37). Idolatria que se oculta na opressão da verdade e na injustiça, cujas consequências são atitudes externas que desumanizam o próximo: perversidade, injustiça, ganância, maldade, assassinato (cf. Rm 1,18ss). “Onde há idolatria, apagam-se Deus e a dignidade do ser humano. A obsessão de explorar tudo ao máximo leva a coisificar o outro” (EG, n. 57). Essa é a verdadeira natureza do mal e que introduz a pessoa em situação de pecado (n. 37).

Para João Paulo II, este pecado torna-se ainda mais demoníaco quando não há vontade de enfrentá-lo. “A Igreja, quando fala de situações de pecado ou denuncia como pecados sociais certos comportamentos de grupos humanos, de nações e blocos de nações, sabe que tais casos são o fruto, a acumulação e a concentração de muitos pecados pessoais. Trata-se dos pecados pessoalíssimos de quem suscita ou favorece a iniquidade e a desfruta; de quem, podendo fazer alguma coisa para evitar, eliminar ou, pelo menos, limitar certos males sociais, deixa de fazer por preguiça, medo e temerosa conivência, por cumplicidade disfarçada ou por indiferença; ainda, de quem pretende esquivar-se aduzindo razões de ordem superior” (Reconciliação e Penitencia, n. 16).

Absolutamente contrário à vontade de Deus, o pecado estrutural é mais perverso e profundo, pois determina e naturaliza aqueles pecados considerados pessoais. Estes, porém, sustentam um sistema cruel com os preferidos de Deus, os mais pobres. Tal estrutura se apoia na mentira e na aparência. Somente a Cruz do ressuscitado pode revelá-lo. Somente o Deus da vida pode revelar até que ponto sua obra é destruída por estruturas humanas.

Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo! (Jo 1,29). Cristo inaugurou o Reino para ser continuado pelos seus discípulos. Ser cristão é aderir a uma pessoa que, por combater os pecados do mundo, foi crucificado. Mas a vida venceu a morte! Sua ressurreição diz de que lado Deus está. Desde então, “toda a criação geme e está em dores de parto esperando a libertação” (Rm 8,22). Não lave as mãos, como fez Pilatos. Celebrar a Páscoa é não compactuar com o pecado do mundo institucionalizado em sistemas iníquos.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016).

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