Religião

26/04/2019 | domtotal.com

A paz de Jesus!

A noção autenticamente cristã de paz não é simples calmaria, mas é definida por ser inquieta.

O ósculo santo virou abraço da paz e acabou se tornando mera formalidade entre os cristãos, com pouco sentido para as vidas e suas relações.
O ósculo santo virou abraço da paz e acabou se tornando mera formalidade entre os cristãos, com pouco sentido para as vidas e suas relações. (Diocese de Cachoeiro/ Flickr)

Por Tânia da Silva Mayer*

Há quem se engane considerando a paz como um sentimento do espírito humano que nos deixa num estado de bem-estar e tranquilidade. Dom Padro Casaldáliga bem nomeou essa compreensão como a “paz dos cemitérios”, isto é, aquele estado de inanição e apatia no qual nada parece viver. Nesse sentido, a paz dos cemitérios é sinônima de uma vida precária e indiferente com a própria vida, seja ela individual ou coletiva. Por isso ela é um engano desastroso, porque acaba sendo conivente com aquilo que justamente contraria a realização da paz entre os indivíduos de um grupo. É preciso considerar que a paz está muito mais na esteira de uma relação do que na linha de um sentimento individualista e alienado. E como toda relação, ela não está livre de conflitos e tensões. É por isso que o pastor, poeta e profeta da América Latina nos ensinou sobre a “paz inquieta”, que é como o fruto do compromisso com o Evangelho do homem Jesus crucificado e ressuscitado.

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A partir de uma guinada pentecostal nos anos 90, tornou-se comum um cumprimento entre os católicos: “A paz de Jesus”. Basta entrar num templo para as celebrações ou num casual encontro dentro do supermercado que a saudação salta na boca dos que se reconhecem como grupo carismático. No entanto, o rito da paz, inicialmente realizado com o sinal do beijo e posteriormente incentivado na forma de cumprimento tal como abraço ou aperto de mãos, é bastante antigo entre os cristãos e tem suas raízes fundadas no judaísmo. Entre os judeus era comum saudar-se com a paz na chegada ou na despedida de um encontro. E como os demais preceitos da religião, acabou se tornando mera formalidade com pouco sentido para as vidas e suas relações. É preciso nos perguntar também se a saudação e o gesto realizado hoje entre os cristãos também se tornou vazio de sentido e, de modo mais grave, se sugere e comunica a paz dos cemitérios em detrimento da paz inquieta.

E essa pergunta precisa ser feita à luz da memória da paz que o Ressuscitado comunica aos seus seguidores e que deve ser dispensada a todas as pessoas e povos. Precisamente, a morte de Jesus é um fim trágico que provoca uma situação de depressão entre os discípulos e discípulas de Jesus. Lucas narra a volta de dois discípulos para a casa em Emaús, eles caminhavam com o “semblante aflito” (Lc 24, 18) porque sua esperança havia sido frustrada com a morte da cruz. João também nos conta que ao entardecer do primeiro dia da semana os discípulos estavam em casa com as portas trancadas com medo do que os judeus poderiam também fazer a eles que eram seguidores de Jesus (cf. Jo 20,19). Fica claro que a experiência da violenta morte do Mestre causou terror e medo no grupo que esteve com ele durante seu ministério. Por isso, é bastante interessante que Lucas e João situem nos relatos de aparição a saudação da paz por parte do Senhor Ressuscitado.

A paz que o Senhor Ressuscitado comunica é o Shalom verdadeiro, isto é, a plenitude da vida que foi alcançada a partir da dolorosa experiência da cruz. E essa vida é a realização da promessa realizada por Deus ao seu povo por meio dos profetas: Jesus Ressuscitado abarca em si toda Jerusalém, a Cidade da Paz preparada para aqueles que acolhem a boa notícia do Reino de Deus. Nesse sentido, a paz que Jesus comunica nada tem a ver com a paz falsa que o mundo pretende oferecer através de uma cultura de guerra e de mortes, e, portanto, uma paz paliativa e injusta que seleciona quem é que poderá viver em paz e quem perderá a vida nas guerras. Essa paz do mundo é conivente com os cemitérios, pois é indiferente à vida verdadeira comunicada a todas as pessoas e povos. Precisamente, a paz do Senhor Ressuscitado é inquieta porque não é indiferente aos que sofrem e choram, porque ela inclui ao invés de selecionar quem poderá deitar a cabeça no travesseiro e dormir e, principalmente, porque ela é superação do medo que nos paralisa diante da crueldade e da injustiça, e, por isso, é força que nos impulsiona para a luta pela verdadeira vida.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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