Religião

26/04/2019 | domtotal.com

O Senhor ressurgiu, aleluia!

A esperança cristã reside na ressurreição de Cristo.

Cristãos ortodoxos seguram velas durante o rito do
Cristãos ortodoxos seguram velas durante o rito do "Fogo Novo" na Igreja do Santo Sepulcro, durante a celebração da Vigília Pascal em 2017. (AFP/ Gali Tibbon)

Por Daniel Couto*

“Ó Deus, pelo vosso Filho, trouxestes àqueles que creem o clarão da vossa luz (...)”
(Bênção do Fogo Novo, Vigília Pascal) 

Os cristãos católicos, após a intensa caminhada quaresmal, e a convivialidade ritual da Semana Santa, encontram no ápice das suas celebrações, a Vigília Pascal, festa do Senhor Ressuscitado que rompe as trevas da morte e traz vida nova à humanidade, a figura paradigmática da sua existência redimida, filhos de Deus postos em relação com a criação para o cuidado, fazendo do mundo o Reinado de Deus. Essa intensidade da vida do Cristo, levada às últimas consequências pela fidelidade ao projeto que vem do Pai, transforma a comunidade que celebra em “atualidade deste mistério”, atrelando a carne de cada cristão aos flagelos do crucificado e à glória do ressuscitado. Enquanto dinâmica antropológica, o caminho de Jesus para a cruz condensa aquilo que se torna a missão dos seus discípulos enviados para todos os cantos do mundo: “amar uns aos outros, como Cristo os amou (Cf. Jo 15, 12-17), e batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Cf. Mt 28, 19). ”

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É pela mediação ritual que essa transformação acontece em cada fiel, participando do corpo de Cristo no corpo da comunidade e celebrando os “santos mistérios”, que não são santos pela sua forma, mas pelo seu fundamento: Jesus Cristo. Quando adentramos o mistério da páscoa do Filho, percebemos que seus últimos momentos se iniciam com uma ceia festiva e, ao ressurgir dos mortos, é também na mesa que ele se reencontra com os seus discípulos. O caráter comunitário da fé cristã é atribuído pelo exemplo dado na vida, missão e pregação de Jesus, que restituía a dignidade do ser humano, perdida em meio às regras e à dureza do coração daqueles que viam no “sistema religioso” um meio de manutenção do seu poder. O cristianismo se funda na contracorrente dos opressores e poderosos, trazendo a esperança em meio a uma “sociedade” oprimida, explorada e dominada.

A primeira celebração do “ápice litúrgico”, a Missa da Ceia do Senhor, faz memória do banquete de Jesus com os seus apóstolos onde, por meio dos gestos ressignificados da ceia judaica, ele institui uma nova maneira de se fazer comunidade: ao redor da mesa, no serviço e na entrega. Cônscio do que o esperava, o Mestre ceia com os seus amigos, deixa o seu memorial, dá graças ao pai e reparte o alimento. É neste encontro que ele retira as suas vestes, fica nu, e, enrolando a toalha em volta da cintura, lava os pés dos discípulos, demonstrando que “aquele que poderia ser servido, tornou-se o maior de todos os servos”. Essa liturgia se fundamenta no amor gestual do Cristo e em seu corpo dado como alimento, fortalecendo o vínculo entre os cristãos como membros de uma mesma família, chamados ao serviço como regra de vida, pois, é no encontro com os outros que nós nos constituímos seres humanos.

Depois do banquete vem a traição, a entrega, a condenação e o tribunal. A vida do Cristo chega ao ponto máximo da tensão, ele reza ao pai no jardim, pede para que os seus amigos permaneçam com ele, e evita que as armas sejam empunhadas para a sua proteção. Do serviço no banquete seguimos para a obediência filial, com o silêncio e a confiança na Palavra Divina, que fora anunciada em favor dos pequeninos, mas que era condenada porque desmontava os esquemas estabelecidos. Jesus foi levado para os senhores da fé, para o rei local e para o governador romano. O seu “processo político-criminoso” já estava pronto, e aqueles que o perseguiram só aceitavam uma condenação: a morte. O serviço e a libertação dos pobres, doentes e marginalizados era uma afronta à lei, que havia sido deturpada pela rigidez dos instrumentos da fé, e, como insurgente, os judeus colocavam Jesus, proclamado Rei, como inimigo de Roma.

Do silêncio diante das acusações à expressão de Pilatos, “não vejo culpa neste homem”, o ser humano foi levado às diversas armadilhas tramadas com a intenção de sabotar o Reinado de Deus. A condenação se dá a partir dos poderes “autorizados” pelo divino, mas é o brado da multidão – a mesma que havia aclamado o “Filho de Davi” na sua entrada em Jerusalém – que determina a sentença: “crucifica-o”. O Senhor veio para servir a comunidade, foi o maior de todos os servos, e foi condenado por aqueles mesmos que outrora o acolheram. Foi a mensagem de dignidade que libertou o povo, mas que condenou o Cristo.

Com a sentença proferida, o preso político é conduzido para a flagelação, a dor, o escárnio, a crucificação e a morte. Celebrando a Solene Liturgia da Paixão, os cristãos rompem a dimensão temporal para recordar no madeiro todos os que com o Cristo foram (e ainda são) crucificados. Não é possível olhar para a cruz do sofrimento sem perceber o ser humano que está fixado nela. A morte de Jesus não é um evento isolado da sua missão, mas a radicalidade da adesão ao projeto do Pai, sua assimilação na carne levada às últimas consequências. Os discípulos, os amigos e irmãos de Jesus, fogem com medo de sofrerem a mesma sina, mas o grito que irrompe da cruz é a sentença do Cristo para os seus algozes: “Pai, perdoe-os, eles não sabem o que fazem”. Eis o ser humano, compassivo, humilde e fraterno. Na cruz das comunidades cristãs está o símbolo da unidade: o corpo do Cristo. Na liturgia da sexta-feira santa a Igreja reza por todos os seres humanos, pelos que creem ou não, para que a entrega de Jesus seja redenção da humanidade, renascida pelo amor.

Da dor e do flagelo vem o silêncio. O sábado da Semana Santa é o vazio, o silencio contemplativo do modelo proposto por Jesus. Cristo, verdadeiramente ser humano, experimentou a morte em sua completude, ele não se priva da humanidade. O segundo dia do tríduo pascal é o encontro da nova humanidade (Jesus Cristo) com a antiga (Adão e Eva), nas profundezas do abismo, lugar onde as vozes não podem louvar o Senhor. Os que sofrem não conseguem erguer a voz, o silêncio e o desprezo são a única experiência que possuem. É a nova humanidade que resgata o ser humano aprisionado, ela busca incansavelmente o seu amado nas profundezas do inferno e o pega pela mão, dando a ele não um lugar no paraíso, mas um trono glorioso no Reinado de Deus. Os cristãos celebram esse encontro com o ofício de leitura do sábado, na expectativa pela ressurreição, enquanto um “grande silêncio paira sobre a terra”.

Eis que, na humanidade alegre e restaurada, o fogo novo é aceso. Cristo vencedor da morte desperta a esperança dos cristãos para uma nova vida. Do lado de Cristo jorrou a água, que junto com as águas da criação enchem a pia batismal do novo nascimento. O terceiro dia do tríduo é a festa da alegria, do ser humano renascido, do encontro do amado com sua Igreja, da fundação de um caminho novo de paz e justiça. O injustiçado está no meio de nós. Nós cantamos a Deus, damos glórias pelos feitos e recordamos toda a história da criação (na liturgia da palavra da Vigília Pascal). A luz, a palavra, o renascimento, a mesa fraterna, a vida partilhada e o corpo ritual da comunidade experimentam o êxtase da experiência cristã: Ele ressurgiu e está no meio de nós!

A força da Páscoa é a ressurreição da nova humanidade. A ressurreição de Jesus é o despertar da esperança para as cristãs e cristãos que são agora os responsáveis pela continuação da missão do Cristo. É na ressurreição que está a esperança de todos que sofrem, que são explorados pelos sistemas econômicos e são colocados “abaixo de todos os outros”, vivendo no seu cotidiano a dor da cruz. É porque uma nova humanidade ressurge que a Boa Notícia chegará a esses irmãos, quando os cristãos assumirem sua responsabilidade, sua natureza primeira que é a de ser “novos Cristos no mundo”. Celebrar a Semana Santa, renovar as promessas do renascimento batismal e apoiar os esquemas de morte, corrupção, exclusão e violência é hipocrisia e farisaísmo. Cantar “Aleluia” na Vigília Pascal e desprezar as irmãs e irmãos que sofrem com a injustiça é como balançar ramos para Jesus e gritar “crucifica-o” na praça do tribunal. A ressurreição só é esperança porque os cristãos têm um modelo a seguir, e este modelo é de amor, serviço e comunhão. Se essa esperança ainda está longe daqueles que a esperam, é porque, cada vez mais, o cristianismo se tornou um ornamento e não um projeto de vida. Que as cruzes do nosso peito, tão populares, sejam substituídas pelo pão em nossas mãos, pelo brado por justiça e pelos pés que caminham ao encontro dos irmãos. Uma nova humanidade nos é dada pela ressurreição, e um novo cristianismo é necessário a partir do retorno àquele que é nosso senhor: Jesus Cristo.

*Daniel Couto é mestrando em filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), com pesquisas na área de filosofia antiga, retórica grega, filosofia aristotélica e recepção da filosofia antiga. Trabalha, ainda, com a Liturgia, a Ritualidade Cristã, a Cerimonialidade e a Teologia Litúrgica.

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