Brasil Cidades

26/04/2019 | domtotal.com

No meio dos bichos

Essa asneira de 'baleia assassina' só pode ter vindo da imaginação de algum neófito sensacionalista.

Ao falar das orcas, Carl Safina exorciza o termo 'baleias assassinas', bobagem inventada pelos homens.
Ao falar das orcas, Carl Safina exorciza o termo 'baleias assassinas', bobagem inventada pelos homens. (Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Nascido nos EUA de família italiana, Carl Safina é um desses caras que, como eu, adora os bichos. A diferença é que ele dedicou a vida inteira aos animais, tornando-se referência mundial no assunto. A pesquisa magistral desse conservacionista sobre aves marinhas conferiu-lhe doutorado em Ecologia; um dos muitos que obteve. Carl passou quase uma década trabalhando nas praias e em alto-mar, nos navios de pesca, olhos atentos ao que acontecia no ambiente.

Além de pesquisar, escrever e rodar mundo, Carl é colaborador e fonte respeitada do The New York Times, da revista Time, da Audubon Society, do National Geographic, Huffington Post, CNN e outros. Resumindo: o sujeito é fera demais, sem trocadilhos.

Terminei há pouco seu livro (em italiano, Al di là delle parole ou Além das palavras”, original em inglês, disponível em Kindle: Beyond words – What animals think and feel). Já na lista de best-sellers, a obra traz novidades surpreendentes e desconcertantes sobre o comportamento de lobos, baleias e outros bichos.

Após observar inúmeros grupos de animais, Carl põe em dúvida o conceito de macho-alfa, tão alardeado. Ele percebeu que o comportamento do lobo macho mais forte não é propriamente o de “comando”, mas o de proteção das fêmeas e dos filhotes. Quando algo os ameaça, é este indivíduo o primeiro que rosna, convoca os demais machos e encara a briga. Por outro lado, quem comanda as rotas do grupo e as decisões principais – onde e quando caçar; ou a busca do melhor abrigo – são as fêmeas mais velhas. Já antevejo feministas radicais botando as mãos nas cadeiras, empinando o nariz e desafiando os rapazes:

– A-há! Bem feito! Tá vendo? Não disse?

Calma, meninas. Não é bem assim. Os bichos não perdem tempo com esses embates ridículos de nossa era, do tipo “quem manda mais”. Carl revelou que o convívio na alcateia é repleto de sutilezas e interações. Ali predominam a lealdade, a união, a definição de papeis e, sobretudo, a solidariedade. Ao contrário de nós humanos, lobos machos e fêmeas, fortes ou fracos, jovens ou idosos – todos agem em função do grupo, da sobrevivência geral, da caça, sendo a comida dividida igualmente.

Sentimentos similares foram percebidos pelo autor nos grupos de elefantes africanos. A fêmea mais velha é a depositária da “cultura” e da “história” da manada, é ela quem lidera. Carl destaca que os paquidermes têm um comportamento muito semelhante ao nosso: comem em grupo enquanto os filhotes brincam; demonstram alegria; sofrem quando um deles morre, encenando verdadeiros rituais fúnebres. E relembra que o principal predador dos elefantes – e dos outros bichos – somos nós, Homo sapiens.

Ao falar das orcas, Carl Safina exorciza o termo “baleias assassinas”, bobagem inventada pelos homens. O autor afirma que jamais foi reportado um só ataque fatal de orca a um ser humano. Logo, essa asneira de “baleia assassina” só pode ter vindo da imaginação de algum neófito sensacionalista.

Ainda no ambiente marinho Carl afirma que são, sim, verdadeiros, os casos de ajuda de golfinhos a náufragos, mergulhadores ou surfistas atacados por tubarões. Citados frequentemente como histórias da carochinha, esses fatos vêm agora recebendo uma atenção mais cuidadosa dos pesquisadores. Apesar de não receberem, em troca, muito respeito dos humanos – por exemplo, morrendo com frequência nas redes de pesca – os golfinhos permanecem dando uma forcinha aos necessitados, na hora do aperto.

No final do seu livro, Carl Safina deixa-nos uma mensagem emocionante. Diz ele: “Não há dúvidas de que somos apenas poeira de estrelas. Habitando o mesmo planeta, os seres vivos estão unidos por uma rede invisível de afeto e de comunicação – muito além das palavras”.

E eu diria: muito além dos grunhidos, rugidos, uivos, balidos, latidos e cacarejos.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal 'O Tempo'.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
Saiba mais!

Comentários


Instituições Conveniadas