Religião

26/04/2019 | domtotal.com

Esta tal de ressurreição

As narrativas bíblica ajudam a recuperar o significado da ressurreição para a fé.

As aparições do Ressuscitado consistem em catequeses narrativas sobre o significado da ressurreição.
As aparições do Ressuscitado consistem em catequeses narrativas sobre o significado da ressurreição. (Marion Michele/ Unsplash)

Por Teófilo da Silva*

“Se Cristo não ressuscitou, ilusória é a nossa fé” (1Cor 15,7). Paulo é bastante firme e convicto quanto ao núcleo central da fé da comunidade cristã. O mistério da ressurreição de Jesus Cristo é, inclusive, a mensagem elementar a ser transmitida (cf. 1Cor 15,3-4). A pregação de Paulo se situa na década de 50 d.E.C., aproximadamente 20 anos depois da morte de Jesus. Significa, pois, que o testemunho da ressurreição constitui, desde o início, a base da fé cristã. Fora da ressurreição, o mistério da vida de Jesus não se revelaria de forma tão surpreendente e profunda.

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Dois mil anos se passaram, desde o início da pregação querigmática cristã, de que Jesus, o Nazareno, morto pelos poderes religioso e político de seu tempo, foi ressuscitado por Deus que o constituiu Cristo e Senhor. Todos os domingos, um sem número de comunidades cristãs se reúnem para fazer memória (atualizar o sabor) do mistério da morte-ressurreição de Jesus. Há alguns dias, nós celebramos o núcleo vital do ano litúrgico, o Tríduo Pascal, que tem seu grande cume no grito de “Aleluia” pela ressurreição do Filho de Deus. Mas ousamos perguntar: a ressurreição de Jesus continua evocando, com profundidade, o sentido de nossa fé?

O Brasil vive um sincretismo religioso sem igual. Há uma efervescência do fato religioso que nutre o cotidiano das pessoas, sejam elas estritamente religiosas ou não. A maior parte dos brasileiros e brasileiras se declara cristã: uma parte considerável destas pessoas confessam a fé cristã não como sentido de pertença, mas por herança familiar; atente-se, também, para o fato de que, nessa efervescência do fato religioso, não há religiosidade “pura”, pois na prática popular da religião, e também nas instituições, há uma troca de significantes. Em nosso contexto cultural e religioso, podemos perceber, nesse sentido, que a ressurreição não constitui, na prática do exercício e da compreensão da fé, um elemento propriamente de singularidade para os cristãos e cristãs, o que acaba por ser uma certa ruptura com a mensagem fundamental do cristianismo.

É preciso, pois, recuperar a força do significado da ressurreição de Jesus para a fé cristã. E o ponto de partida para isso, longe de dúvidas, é um olhar atento para a linguagem, pois ela é produtora de sentido. Em primeiro lugar, é preciso considerar que as narrativas evangélicas a respeito da ressurreição de Jesus não apontam para um fato, isto é: não se narra o que propriamente aconteceu, factualmente, a Jesus de Nazaré, depois de sua morte. O que as narrativas trazem é um anúncio: não se deve procurar entre os mortos, aquele que Vive. O túmulo vazio não é prova da Ressurreição, mas aponta para aquilo que o anúncio fundamental proclama: não é ali que a busca por Jesus deve se dar. E o anúncio da Ressurreição, como anúncio de palavra, é, ao mesmo tempo, uma missão de palavra: ir anunciar aos outros discípulos que Jesus ressuscitou.

Acontecimento de palavra, eis o primeiro “lugar” da ressurreição. O Novo Testamento, para dizer o que aconteceu com Jesus, entre sua morte e o surgimento da primeira comunidade cristã, recorre a uma série de palavras e expressões: exaltação, no sentido de elevação; glorificação, como participação na glória eterna de Deus; Vida, não como bios e sim como vida plena, indestrutível, que não perece (zoe); entre outras. A palavra ressurreição, por si só, apesar de ter sido a privilegiada pela Tradição, não dá conta de expressar o mistério do acontecido com Jesus, após sua morte. Foi preciso recorrer a outras palavras para comunicar o que se deu. Além disso, o que nós traduzimos como ressurreição, o Novo Testamento diz em duas palavras, bastante metafóricas: uma significa estar de pé, ser reerguido; a outra, significa despertar. Adentrar no mundo da palavra é importante, aqui, para compreender que a ressurreição de Jesus não é uma mágica, ou uma simples revivificação de cadáver. Ele passa a viver, plenamente, a vida do Pai, no Espírito: eis o significado profundo da ressurreição. De que forma essa compreensão, em nossos tempos, nutre a nossa fé? Isso dá o que pensar!

*Teófilo da Silva é teólogo e poeta.

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