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28/04/2019 | domtotal.com

Incompletudismo

Viver em paz é muito mais importante do que preservar mal-estares.

Em algum grau, todos somos portadores de INC, cuja característica principal é o não conseguir concluir coisas que se estava, ou está fazendo.
Em algum grau, todos somos portadores de INC, cuja característica principal é o não conseguir concluir coisas que se estava, ou está fazendo. (Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

Confesso nunca ter visto qualquer referência a esse tipo de comportamento a que denomino Incompletudismo (INC). Todavia, ele existe e, se prestarmos a atenção, veremos que está presente em muitas pessoas de nossa convivência, e até em nós mesmos. O problema é que nos outros é fácil constatá-lo e apontá-lo, contudo, em nós mesmos, é bastante difícil reconhece-lo, pois certamente iremos negar, peremptoriamente, que não o possuímos. Afinal, sempre tendemos a achar que somos infalíveis, e sendo assim, como admitir alguém me dizendo que esqueci de terminar alguma coisa, ou que deixei incompleto o que havia começado a fazer? 

Na verdade, ainda que em menores proporções todos nós, os humanos, somos incompletudistas. Somente os neuróticos, especialmente os portadores de transtorno obsessivo compulsivo (TOC), certamente não possuem esse comportamento, pois seu transtorno psicológico é a antítese do incompletudismo. Detalhistas, não deixam nada assimetricamente colocado, fora do seu lugar, ou sem concluir.  Assim sendo, não há porque nos apoquentarmos com refutações, e muito menos nos ofender, quando alguém nos apontar tal comportamento. 

Em algum grau, todos somos portadores de INC, cuja característica principal é o não conseguir concluir coisas que se estava, ou está fazendo. Essa dificuldade pode se referir a coisas pequenas, até aparentemente insignificantes, mas que podem trazer consequências indesejadas. E se a pessoa não se cuidar, irá se estender a coisas maiores, causando sérios problemas ou prejuízos, para si mesmas ou para outrem. 

Por essa razão, e tendo procurado observá-lo mais atentamente, descrevo-o nesse artigo, tendo como principal objetivo ajudar aos seus portadores a se observar melhor. Ficando mais atentos às suas ações, serão capazes de evitar o INC sempre que possível ou, quem sabe, até corrigi-lo, levando-o a níveis toleráveis e inofensivos. O problema é que, mesmo tendo-se consciência desse comportamento, muitos se aborrecem e se irritam quando pessoas que lhes são próximas, no afã de lhes ajudar apontam-lhes o que deixaram de fazer, mostrando-lhes as eventuais consequências dessa atitude.

Essa reação é característica dos humanos, quando possuem hábitos inadequados, e preservam exageradamente a sua autoimagem. Com isso, não admitem que qualquer pessoa lhes façam críticas, nem simples observações a respeito de comportamentos inadequados, especialmente de seu incompletudismo. Ofendem-se, e chegam a ficar agressivos, até mesmo não assumindo que foram eles que deixaram isso ou aquilo por fazer. Por isso mesmo, dificilmente se libertam dessa condição que certamente lhes incomoda, e, por não admiti-la, não se corrigem. E mais: sucessivas manifestações de INC, reclamadas por outros, podem levá-los a quadros depressivos ao se sentirem acuados e impotentes para evitar aquela situação.

Para melhor compreensão, exemplifico com algumas ocorrências mais comuns: sair de um quarto ou de uma sala, deixando suas luzes acesas e aparelhos ligados; utilizar lápis ou caneta que fica em lugar accessível para futuras anotações, levando-o consigo e deixando-o em diferentes lugares, sem se preocupar em recolocá-lo onde o encontrou; usar algum objeto móvel, pegar livros, revistas, não os devolvendo para o lugar onde estavam. Outro evento frequente, é a pessoa estar se preparando para sair, envolver-se com outra atividade, e com isso esquecer coisas de que irá precisar aonde está indo. 

Mas isso também se aplica a atitudes, tais como começar a falar alguma coisa para alguém, interromper para fazer algo que surgiu no momento, e na volta não concluir o que estava dizendo. O pior é quando isso acontece no meio de alguma controvérsia, gerando uma situação bem desagradável, pois o interlocutor não saberá se foi apenas um esquecimento, ou se a pessoa se aborreceu, levando-a a não mais querer expressar seus sentimentos, nem dar continuidade àquela conversa

Nesse mundo de tanta correria, tanto açodamento, tantos “por fazer” que assumimos, sem nos preocupar com o tempo real que precisaremos para completa-los, o INC tem-se tornado cada vez mais frequente, podendo ser colocado num dos primeiros lugares entre as causas de desentendimento entre as pessoas. Cada vez mais estressados, acabamos nos tornando por demais impacientes, não tendo a menor tolerância para com a falha dos outros – afinal, quase sempre não temos tolerância alguma para com as nossas próprias falhas – e qualquer bobagem, sem maior significado, logo se torna em motivo para discussão, desentendimentos e até rupturas de relacionamento. 

E isso se agrava com o INC, pois diante de tais situações, aplicando também ali, o princípio da incompletude, recusando-nos a uma conversa respeitosa para fechar aquele desencontro e estabelecer um entendimento onde erros sejam reconhecidos, reclamações sejam deixadas de lado, acusações se desfaçam, vaidades sejam substituídas por humildade, com a solidariedade, o entendimento, e o acolhimento mútuo, possam desfazer e encerrar todo o mal estar. Se isso não acontece, forma-se mais uma incompletude, mais uma ferida aberta para incomodar, machucar e até complicar seriamente, com duração sabe lá até quando.

Viver em paz é muito mais importante do que preservar esses mal-estares. E a vida se torna muito melhor quando eliminamos esses relacionamentos preenchidos por desencontros e cobranças, que mantêm  um clima carregado e sem cordialidade, numa permanente batalha.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

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