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30/04/2019 | domtotal.com

A Europa de antes acabou

Para Maçães, 'os países europeus se parecem em diversos aspectos com os países asiáticos'.

Seu pensamento é um só: a união faz a força e deixa o continente europeu mais forte.
Seu pensamento é um só: a união faz a força e deixa o continente europeu mais forte. (Divulgação)

Por Lev Chaim*

Eu caminhava pelos diques ao redor da minha cidade quando me deparei com um casal e seu cão. Estava com o meu cão Pitu. Os dois cães se encantaram, se cheiraram enquanto nós esperávamos. Quando ouvi o senhor falar em alemão com o seu cão, decidi fazer um comentário. Eu disse que não falava alemão e perguntei se eles falavam inglês. A resposta foi sim e ficamos ali, batendo papo sobre tudo e nada.

Só quando parti é que me ocorreu o seguinte: somos pessoas diferentes, falamos línguas diferentes e, mesmo assim, nos entendemos porque procurei algo em comum que pudesse servir de ponte – no caso, foi a língua inglesa. Algumas vezes é a linguagem das mãos, um sorriso, um olhar, um mexer de cabeça, tudo ajuda na comunicação. São coisas assim que os políticos deveriam pensar, quando elaboram políticas para o continente.

E vejam vocês, caros leitores, que coincidência: o português Bruno Maçães, ex-secretário de Estado para Negócios Europeus, explicava, em uma entrevista, os seus pensamentos, que também foram divulgados na publicação de dois de seus livros: The belt and the road e The dawn of Euroasia. Não sei os títulos em português, mas creio que isso não importa. Seu pensamento é um só: a união faz a força e deixa o continente europeu mais forte. Ao bater os olhos nesta frase, interessei-me imediatamente por seus pensamentos, pois são exatamente iguais aos meus.

Para Maçães, “os países europeus se parecem em diversos aspectos com os países asiáticos. Em se tratando de economia, então, as semelhanças são enormes. Nos últimos tempos, o comércio entre a Europa e o continente asiático se tornou muito mais importante do que com os Estados Unidos de Trump. Vivemos num mundo em que as nossas perspectivas e modo de agir, para manter as coisas de forma tradicional, como sempre foram, já não funcionam mais. Temos que repensar qual seria a nossa posição neste novo mundo”.

Sim, Europa, unida, deve se concentrar numa nova estratégia em direção à Rússia, China e Índia. E aí ele enfatiza que o continente europeu deve repensar as suas estratégias políticas para com esses países e não apenas algumas estratégias econômicas, pois isso agora é de extrema importância para a Europa, caso o continente queria conseguir um lugar neste novo mundo que ora está se formando.   

Maçães também cita alguns exemplos de caos recentes que deixaram muitos europeus boquiabertos: as ondas de imigrantes, com os decorrentes problemas que surgiram com essas ondas, o novo poder econômico da China, as aventuras militares da Rússia, o Brexit etc. Para ele, “se a Europa ignorar politicamente todos esses problemas, o continente estará cada vez mais fraco para enfrentar novas crises e novas ameaças”. Na verdade, ele quis dizer que a Europa, no momento, está cada vez menos influente e o poderio econômico chinês se torna cada vez mais imperativo.

Com medo de tudo isso, surgem dentro dos países europeus os novos populistas e isolacionistas, para quem temos que recuperar o nosso poder de ditar o modus vivendi aos outros países, tal qual ocorria no passado. Mas, segundo Bruno Maçães, esse pensamento está totalmente furado, pois os outros se tornaram mais fortes e já não aceitam ordens como antes. Esse novo paradigma provoca traumas e cria um novo populismo na Europa, que ainda acredita ser possível resgatar o passado e se proteger do desconhecido. O veredicto de Maçães é bastante claro: “É impossível recuperar o controle sobre outras nações tal qual existia antes. Isto é uma consequência natural do fenômeno globalização”.

Vocês podem também ler sobre isso na última edição da belíssima revista Morashá, num artigo escrito por Jaime Spitzcovsky, “Judeus britânicos e os desafios do Brexit”. Para ele, “o Brexit desponta como um dos principais momentos da onda antiglobalização, impulsionada após a crise financeira internacional de 2008/2009. Um dos ingredientes a contaminar essa tendência política é o nacionalismo, que, em doses excessivas, estimula antissemitismo e preconceitos contra minorias".

Em outras palavras, só não vê quem é cego. Novos tempos, novas maneiras de interação política e econômica. E quanto mais cedo a Europa unida descobrir isso, melhor será para ela e todo o continente. A política populista de fortalecimento das fronteiras nacionais é uma coisa arcaica e não funcionará nesses novos tempos. Como eu já disse: alguns preferem sonhar e fingir-se de cegos. Mas todos os outros, que têm consciência do problema, devem fazer de tudo para que a Europa abra os olhos e aprenda a se relacionar com essa nova ordem mundial. E você, caro leitor: o que pensa de tudo isso?

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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