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02/05/2019 | domtotal.com

Pensando bem...

Os pensadores são assim mesmo. Pensam com tal profundidade que o não pensador jamais consegue chegar ao fundo do pensamento.

Logo que comecei a ler, minha cabeça deu um nó. Tipo nó cego, nó górdio.
Logo que comecei a ler, minha cabeça deu um nó. Tipo nó cego, nó górdio. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Resolvemos viajar ao interior para visitar a filha Aninha, o netinho Rômulo, o pai do netinho, Samuel, e os demais avós do netinho, seu João e dona Darci. Antes de pegar o trem rumo a Goiabeira, peguei, aleatoriamente, um dos exemplares da coleção Os Pensadores pra ler na viagem.

Sei bem por que tenho essa coleção, lançada pela Editora Abril em alguma era do século passado. Comprar livros era uma espécie de vício que eu cultivava. Ainda cultivo, mas não como antes. Comprava todas as coleções que apareciam, como a de Histórias Extraordinárias, Literatura Comentada, Nações do Mundo, os Grandes Clássicos e outras. No caso d’Os Pensadores, tinha a curiosidade de saber o que pensavam os Sócrates, os Aristóteles, os Keynes, os Hobbes, os Espinosas, os Hegels, os Maquiavéis, os Descartes, os Platões e um punhado de outros que integram a coleção.

No trem foi que descobri que tinha pego o impensável pensador dinamarquês Kierkegaard, um dos mais herméticos e insondáveis da turma. Logo que comecei a ler, minha cabeça deu um nó. Tipo nó cego, nó górdio. Transcrevo o primeiro parágrafo da orelha, que por sua vez transcreve um dos insondáveis pensamentos do pensador. Diz o seguinte:

“O paradoxo da fé consiste em que o indivíduo é superior ao geral, de maneira que, para recordar uma distinção dogmática hoje já raramente usada, o indivíduo determina sua relação com o geral tomando como referência o absoluto, e não a relação ao absoluto em referência ao geral”.

Peço ao caro leitor e à queridíssima leitora que exercitem sua inteligência, sem esquecer de alimentá-la com uma boa dose de paciência, para tentar decifrar esse eloquente pensamento do pensador dinamarquês. Informo, para consolo dos menos dotados como eu, que não entendi bulhufas, absolutamente nada do que disse ou quis dizer o pensador nestas poucas linhas. E olha que li umas quatro ou cinco vezes, atentamente, enquanto lá ia o trem trilhando tranquilo os trilhos da jornada.

De modo geral, os pensadores são assim mesmo. Pensam com tal profundidade que o não pensador jamais consegue chegar ao fundo do pensamento, mesmo que use os mais sofisticados equipamentos de mergulho do intelecto.

Não me dei por vencido após esse insondável pensamento inicial e segui em frente com a leitura, iludindo-me com o faz de conta de que lia um conto de Machado de Assis ou de outro Machado, o nosso Aníbal. Mas sou obrigado a confessar que não deu. Acabei revelando a mim mesmo, numa espécie de autodelação não premiada, que não nasci para ler pensamentos obscuros.

Cheguei à conclusão, após algumas páginas de infrutífera leitura, que não seria capaz, nunca na vida, de exercer a profissão de pensador. Aí parei pra pensar: será que não existo? 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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