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01/05/2019 | domtotal.com

Afinidades em trânsito

Sem parar de falar, a motorista emendou outro assunto com extrema naturalidade.

Em tom de indignação, Gabriela revelou o costume de estacionar em locais indistintos à espera das chamadas do aplicativo.
Em tom de indignação, Gabriela revelou o costume de estacionar em locais indistintos à espera das chamadas do aplicativo. (Pixabay)

Por Pablo Pires Fernandes*

A empresária sentou no banco traseiro, ditou o destino e o trajeto preferido até o escritório no bairro Funcionários. Ainda repassava alguns pontos da reunião com os novos clientes, quando Gabriela, a motorista do Uber, surpreendeu-a ao iniciar uma eloquente narrativa.

Sem desviar a atenção do trânsito, Gabriela fechou as janelas e ligou o ar por causa do barulho. Conduzia o carro com segurança, GPS desligado, e falava com extraordinária espontaneidade. Curiosa, a passageira se interessou e soltou interjeições de incentivo.

Em tom de indignação, Gabriela revelou o costume de estacionar em locais indistintos à espera das chamadas do aplicativo. “Não demora nada”, disse. E reclamou de um flanelinha que a importunou pedindo para liberar a vaga. “Falei que não ia sair e que não ia demorar. Foi quando você chamou”, descreveu, com sorriso esperto entre as bochechas redondas e rosadas.

Sem parar de falar, a motorista emendou outro assunto com extrema naturalidade. “Meu pai era um batalhador, pessoa especial, sabe?”, disse ela. “Ele consertava panelas de pressão. Quando disseram que estava com câncer, larguei o emprego na funerária para ajudar na firma e ficar perto dele. Aprendi a consertar todo tipo de panela de pressão e sou boa nisso, acredita?”. A passageira sabia que aquela voz dizia a verdade. “Só que, depois da morte dele, fiquei endividada e, por isso, decidi me virar como motorista de Uber. Mas, toda segunda-feira, trabalho consertando panelas de pressão.”

Atenta, a interlocutora indagou sobre o emprego na funerária. “Eu trabalhava de motorista na Funerária Pax”, respondeu Gabriela. Contou que, certo dia, numa cidade do interior, estava em um velório muito distinto. Gostava de música e se sentia especialmente inspirada naquela tarde. Tomou coragem e perguntou ao padre se poderia cantar na cerimônia.

O pároco concedeu e Gabriela entoou uma música. Sua interpretação, sincera e emotiva, foi contagiante. Nos dias seguintes, o correio eletrônico da funerária recebeu uma enxurrada de elogios e o fato chegou ao ouvido de seu Jacinto, dono da empresa. Quando ele convocou os funcionários e perguntou quem era responsável pelo feito, todos os dedos apontaram para Gabriela. O tino comercial fez seu Jacinto incluir o cerimonial fúnebre aos serviços da empresa. Pagou curso num hotel fazenda para Gabriela – Gabirobinha, como ele a chamava. A jovem foi promovida e fez sucesso com sua simplicidade simpática.

O patrão, no entanto, enfatizava uma regra básica: “Gabi, você nunca pode comer nos velórios, tá?”. Ela assentiu. Porém, quando ia para as cerimônias no interior, deparava-se com um dilema. De um lado, a recomendação do chefe e, do outro, a fartura da mesa, os convites e a insistência dos parentes do defunto. Receava fazer desfeita, coisa que, em Minas Gerais, é levada a sério e pode causar desentendidos e constrangimentos.

Ao chegar ao destino, estacionou o carro, mas prosseguiu a narrativa. A empresária aguardava ansiosa o fim do caso. Percebia em Gabriela um verdadeiro dom para estabelecer empatia e, apesar de vidas bem distintas, sentia afinidade entre ela e a pessoa que, há 20 minutos, era uma completa desconhecida. A motorista se virou e conclui: “Certa vez, em Conceição do Mato Dentro, não resisti à tentação”. A mesa era farta, a gente, afável e acolhedora. “Olhei para aquele tutu de feijão, servi e repeti. Foi o mais gostoso que comi na minha vida”. E soltou um gargalhada de quem está de bem com a vida.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

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