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06/05/2019 | domtotal.com

Tudo é festa nos tempos da vovó

Goiabeira, meu caro amigo e minha amantíssima amiga, é a única cidadezinha no mundo onde ainda podem ser vistas essas coisas.

Festa em Goiabeiras
Festa em Goiabeiras (Reprodução/Tv Globo)

Por Afonso Barroso*

E agora eu pergunto: vocês já viram quatro cavaleiros montados não em cavalos, mas em bois? Cinco bovinos pretos das raças gir e guzerá, arreados como cavalos e marchando como cavalos pelas ruas da cidade? Pois eu vi.

Já viram um solene desfile de carros de bois? Contei 23, cada um com duas ou quatro juntas, o que perfaz um total superior a 60 animais a desfilar elegantemente, puxando seus carros. Iam gemendo (não os bois, os carros), porque carro de boi que não geme não é bom, como cantava algum caipira soberano no rádio Philips da minha infância. Um dos carreiros, o da frente, usando um potente megafone em vez de berrante, convidava a população para a festa que daí a pouco ia começar. Sim, eu vi.

Já viram uma mulher de vestido de chita à beira de um enorme tacho cheio de caldo de cana, preparando o melado pra fazer rapadura? Eu vi. Ela manejava uma espumadeira gigante com a qual retirava a espuma da garapa que ia virando melado, e melado não pode ferver com espuma, senão não dá liga pra fazer a rapadura. É o que ensinam a sabedoria e a prática dos rapadureiros. Isso também vi, caros amigos e amantíssimas amigas.

Vocês já viram a réplica fiel de uma casa típica da roça, com tudo a que uma casa da roça tinha direito nos tempos das casas da roça? Viram ferro de passar roupa à brasa, fogão de lenha, copos esmaltados, moringa, panelas de pedra e uma cama forrada com colcha de retalhos? Viram debaixo da cama, silente e de plantão, pronto para receber as ordens do dono ou da dona da cama, um circunspecto urinol, o mais autêntico e original penico? Pois digo que vi.

Já viram um monjolo em plena atividade, recebendo água no coxo e socando algo com o braço e a mão comprida num pilão? E viram ao lado uma roda d’água girando, girando, em moto perpétuo? Sim, eu vi. Bem no coração da cidadezinha.

Sei que também não viram dois homens empenhados em preparar, num panelão, o que chamam de sopão ou vaca atolada ou caldo de pinto. Não viram formar-se uma fila com centenas de pessoas que foram ali para receber marmitas cheias da saborosa iguaria, se é que se pode chamar de iguaria uma comida típica da roça. É, em verdade, muito melhor do que simples iguaria. Pois também isso eu vi.

Também não viram vocês, não, vocês não viram o desfile das vovós, todas elegantemente vestidas com trajes do tempo das vovós. A vencedora, charmosa e garbosa, desfilou com graça centenária, o que lhe valeu o título de Vovó do Ano. Sem dúvida, ela passa dos cem anos. Sim, eu vi as vovós na passarela.

Vi, enfim, centenas de pessoas felizes participando da festa que tem por título Nos Tempos da Vovó (e do Vovô), tradicional na pequena, pacata e acolhedora cidade de Goiabeira, onde mora nossa filha Aninha com o netinho Rômulo e que de vez em quando vamos visitar.

Goiabeira, meu caro amigo e minha amantíssima amiga, é a única cidadezinha no mundo onde ainda podem ser vistas essas coisas. Coisas que vocês só irão ver se lá forem pra assistir à festa do Tempo da Vovó, no mês de abril. Tempo bom que vocês não viveram nem viverão jamais.

Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

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