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03/05/2019 | domtotal.com

Chapeuzinho moderno

O grupo repetiu: "Golpistas! Golpistas!"

- Chapeuzinx! Chapeuzinx! Chapeuzinx!
- Chapeuzinx! Chapeuzinx! Chapeuzinx! (Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Plateia cheia, criançada esperando, o segundo sinal já tinha tocado. Foi aí que seu João – o velho porteiro do teatrinho infantil – entrou correndo, esbaforido:

– Seu diretor! Não abre as cortinas, pelo amor de Deus! Tem um povo lá fora fazendo a maior zoeira! Manifestante, "blequibloque" tocando tambor. Faixa, foguete, megafone! Tudo gritando: “Não vai ter peça, não vai ter peça!”

O diretor saiu para conferir. Um grupo raivoso e espumante berrava. A líder – uma moça seminua, seios pintados como olhos de lobo e uma pele de animal amarrada à cintura – apontou o dedo para o nariz do diretor:

– Pare imediatamente com essa peça! E já!

– Mas.... Mas...

– Que “mas” coisa nenhuma, seu hétero, branco, reaça, elite dominadora!

– Calma, moça. Vamos conversar, peraí. Me explica, pô!

 – Ah! Se fazendo de inocente?! Pensa que a gente é trouxa? “Lobo Mau”... Esse lobo seu é um Chrysocyon brachyurus, o lobo-guará nacional, habitante do mesmo ecossistema dos povos indígenas, dos maxakalis? Ou por acaso uma espécie norte-americana alienígena, invasora, imperialista?

Um rapaz, cara coberta com touca ninja, chegou mais à frente:

– E esse “caçador” da sua história? Um macho empoderado, carregando uma espingarda... É evidente que a arma em questão é um símbolo fálico, uma afronta, instrumento óbvio de opressão! Sem falar no discurso falacioso e canalha do macho armado no papel de “salvador”. Tá na cara! Vocês são favoráveis à intervenção militar, cambada de golpistas!

O grupo repetiu: “Golpistas! Golpistas!”

– Estamos indignados com o uso capcioso do verbo “comer”. O lobo “come” a vovozinha, uma idosa indefesa, desprotegida de seus direitos enquanto cidadã? Isso é insinuação de assédio! Um incentivo subliminar à violência contra a mulher! Depois ele “veste” a roupa dela? Não percebe que isso agride frontalmente o direito ao travestismo, ridicularizando a liberdade de se usufruir de qualquer traje masculino ou feminino?  

Outra militante berrou lá do fundo:

– Teatrinho nada! Faz um debate aberto com as crianças sobre a sexualidade dos animais selvagens, cópulas explícitas sem preconceitos!

A seminua interrompeu-a. Tomou as folhas de papel das mãos de seu companheiro, sacudindo-as violentamente:

– Essa criança é dominada pela mãe e se submete aos desejos da família tradicional! Foi obrigada a levar docinhos para a avó... Como assim? Por que ela não se rebela contra essa tirania ancestral, o matriarcado judaico-cristão? Não estaria aí um caso explícito e perverso de exploração de trabalho infantil?  

Um terceiro manifestante chegou à frente:

– ... e se Chapeuzinho é uma criança, por que determinar seu gênero para a plateia? Ora: nessa idade, ela está apta a decidir se vai querer seu menina ou menino. Ou caçadora ou lenhador. Ou lobo ou loba. Ou sapo ou rã.

– Nem Chapeuzinho nem Chapeuzinha... Tem que ser Chapeuzinx! Indefinido e livre! Sem repressão! Senão a gente quebra tudo aí!

A multidão foi à loucura.

– Chapeuzinx! Chapeuzinx! Chapeuzinx!

O diretor buscou abrigo atrás do pipoqueiro, com medo do linchamento. Mas ainda ouviu:

 – E pode ir mudando a cor do chapéu. O vermelho é a cor dos movimentos sociais. Identificar a protagonista numa situação permanente de inferioridade remete à odiosa discriminação de grupos historicamente afinados com as reivindicações populares e...

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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