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04/05/2019 | domtotal.com

A delicadeza ímpar dos versos de Ocean Vuong

O escritor Jacques Fux resenha 'Céu noturno crivado de balas', primeira obra do poeta vietno-americano publicada no Brasil e recém-lançada pela Editora Âyiné.

Ocean Vuong nasceu em 1988 e já conquistou importantes prêmios literários.
Ocean Vuong nasceu em 1988 e já conquistou importantes prêmios literários. (Reprodução/Instagram)

Por Jacques Fux*

Ocean Vuong, poeta nascido em Saigon, em 1988, passou os primeiros dois anos de vida em um campo de refugiados nas Filipinas – marcas indeléveis, memórias sempre resgatadas e recriadas. Guerra, mortes, incompreensão e um sentimento de estrangeiro perpassam sua obra: “Só tenho onze uma vez quando ele dobra seus joelhos para pegar nos braços o refugiado molhado. Ondas engolindo suas pernas. Os olhos do golfinho ofegando como a boca de um recém-nascido. & outra vez abro a minha porta do lado do passageiro. Corro rumo ao horizonte enferrujado, corro para fugir de um país de onde é preciso fugir. Persigo meu pai como os mortos perseguem os dias — & embora ainda esteja longe, muito longe para ouvir, eu já sei, quando o vejo inclinar a cabeça para um lado, como se quebrada, que ele canta a minha canção preferida para as suas mãos vazias”.

Ainda bebê, chegou aos Estados Unidos sem nome. Sua mãe não falava inglês corretamente e, ao mencionar a praia (beach) acabavam a confundindo com a palavra cadela (bitch). A fim de evitar confusões – e, também, para buscar pertencer a uma cultura e a um povo distante e diferente, e contra os quais sua pátria-mãe havia guerreado durante 20 anos, num terrível banho de sangue e de ignorância – alguém a aconselhou a usar a palavra oceano (ocean). Encantada com a imensidão e a musicalidade da palavra, nomeia o poeta-menino. Essa sua constituição, de acordo com a mãe, faria do filho uma ligação entre os países, as culturas e os lugares habitados e sonhados pela família. Inédito no Brasil, o jovem e premiado poeta tem a antologia Céu noturno crivado de balas lançada pela Editora Âyiné em edição bilíngue e tradução do inglês de Rogério Galindo.

Em seu tocante poema Um dia eu vou amar Ocean Vuong, o poeta escreve sobre o que lhe é caro, sobre o que lhe resta, sobre as memórias e as dores em ruínas-reconstruídas pelas suas palavras: “Ocean, não tenha medo. O fim do caminho está tão adiante que já ficou pra trás. Não se preocupe. Teu pai só é teu pai até um de vocês se esquecer. Como a espinha não se lembra de suas asas não importa quantas vezes nossos joelhos beijem o chão. (...) Ocean. Ocean — levante. A parte mais bela do teu corpo é pra onde ele vai. & lembre, a solidão não deixa de ser tempo que você passa com o mundo. Eis a sala com todos dentro. Teus amigos mortos passando por você como o vento passa por sinos. Eis uma escrivaninha com a perna bamba & um tijolo para fazê-la durar. Sim, eis uma sala tão quente & quase-sangue, que eu juro, você vai acordar — & confundir essas paredes com sua pele”.

A crítica pontua a escolha do poeta pelo amor homossexual. Isso é pouco – há mais vastidão no seu eu-conflitante. Sua obra desperta os olhos, as palavras, a sonoridade e o corpo para a sensibilidade e a sexualidade humana. A pulsão que o move busca compreensão do desejo: “No corpo, onde tudo tem seu preço, eu era um mendigo. Ajoelhado, olhava, pela fechadura, não o homem no banho, mas a chuva a atravessar seu corpo: cordas de guitarra a estalar sobre ombros em forma de globo. Ele cantava, e é por isso que eu lembro. Sua voz — me preenchia até o osso como um esqueleto. Até mesmo meu nome se ajoelhava dentro de mim, pedindo para ser poupado. Ele cantava. É tudo que lembro. Pois no corpo, onde tudo tem seu preço, eu estava vivo. Eu não sabia que havia motivo melhor. Que certa manhã meu pai ia parar — potro negro em tempestade — & tentar escutar minha respiração contida atrás da porta. Eu não sabia que o custo de entrar numa canção — era perder o caminho de volta. Por isso entrei. Por isso perdi. Perdi tudo com meus olhos bem abertos”.

Irônico – “Nota mental: Se um cara te diz que o poeta preferido [dele é Jack Kerouac, há grandes chances de ele ser um babaca. Nota mental: Se Orfeu fosse mulher eu não estaria [preso aqui embaixo”; atormentado – “Um soldado americano comeu uma camponesa [vietnamita. Por isso minha mãe existe. Por isso eu existo. Por isso nada de bombas = nada de [família = nada de mim”; e lírico – “Acordei gritando em silêncio. O quarto inundado de uma [água azulada chamada aurora”, vale adentrar e se encantar com a poesia e as questões desveladas por Vuong.

CÉU NOTURNO CRIVADO DE BALAS
De Ocean Vuong
Tradução e introdução de Rogério Galindo
Editora Âyiné
224 páginas
R$ 59,90

*Jacques Fux é matemático e escritor, autor de Meshugá: um romance sobre a loucura (José Olympio, 2016), Nobel (José Olympio, 2018), entre outros.

EMGE

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