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09/05/2019 | domtotal.com

Lembranças de uma bebedeira

Certo mesmo é que a coisa desandou pro meu lado de tal forma que eu não vi mais nada depois de ser levado até a porta do bar.

O que eu lembro da noite anterior ao porre é que tinha sido convidado para tomar umas e outras com dois amigos, antigos colegas de trabalho que eu não encontrava havia muito tempo.
O que eu lembro da noite anterior ao porre é que tinha sido convidado para tomar umas e outras com dois amigos, antigos colegas de trabalho que eu não encontrava havia muito tempo. (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

A última vez que fiquei bêbado, mas bebim mesmo, bebim da silva, faz muitos anos e não foi uma coisa nada boa. Diria até que foi muito desagradável. Me lembro daquela noite em que acordei numa delegacia, meus cinco filhos e alguns dos seus filhos me olhando com olhos de censura. Mas eram olhares ternos. Em alguns deles cheguei a ver um tanto de piedade, e em todos via amor e respeito.

Diferente era o da minha mulher, que, mesmo em idade avançada, continua sendo uma fera, dessas feras que parecem permanentemente feridas, prontas pra avançar não apenas na idade, mas também em quem a queira enfrentar. Mas sempre foi boa mãe dos nossos filhos e mais ainda avó dos nossos netos e bisavó dos bisnetos. Naquela noite inesquecível, ela me deu uma esculhambação que eu bem merecia e que assustou até o delegado e os policiais que ali estavam, depois do favor que bondosa e espontaneamente fizeram de me recolher na calçada e me levar para um lugar seguro, o mais seguro da cidade, diga-se.

Mas eu gostava da fera. A bem da verdade, tenho certo apego a animais selvagens, tanto que certa vez enfrentei uma onça, sem medo, sem tremer, para admiração e inveja geral. Foi quando casei. A onça era ela. Só que era uma onça danada de bonita, e a beleza dela compensava qualquer defeito que por acaso tivesse. Mas não tinha nenhum além da braveza. Defeito de mulher é traição, dissimulação e obliquidade, como acontece com tantas Capitus por aí, Capitus de amigos que eu não invejava. Minha fera, essa não, nunca foi oblíqua ou dissimulada, apenas fera.  Sinceramente fera. Somos casados há exatos 67 anos, nove meses e 18 dias.

O que eu lembro da noite anterior ao porre é que tinha sido convidado para tomar umas e outras com dois amigos, antigos colegas de trabalho que eu não encontrava havia muito tempo. Tenho que ir, disse a ela, e ela disse vai sim, acrescentando que era mesmo bom rever aqueles amigos desaparecidos no tempo e na distância. Vê se não bebe demais, ela recomendou, já sabendo que a recomendação era inútil.

O encontro, se bem me lembro, foi bom. Jogamos muita conversa fora, relembramos fatos úteis e inúteis, e eu bebendo sem parar, não sei bem se bebia Ai-ai-Johnny ou Ai-ai-Alfredo. Se foi Johnny, era uísque. Se Alfredo, cachaça. É até possível que tenha sido os dois. Se foi, tinha que dar no que deu, porque eu nunca soube de aliança da Escócia com Jacuri. Não daria certo mesmo.

Certo mesmo é que a coisa desandou pro meu lado de tal forma que eu não vi mais nada depois de ser levado até a porta do bar por um dos meus velhos e bons amigos. Lembro que ele me mostrou o ponto de táxi que ficava ali, de plantão, para o transporte de bêbados. Mas parece que eu não peguei táxi, ou se peguei não soube indicar o caminho de casa e acabei desmaiado na calçada em algum ponto escuro e obscuro da noite.

Me acharam por pura sorte, ou por obra e graça de Jesus Cristo, a quem sempre recorro nos momentos difíceis da vida. Naquela noite eu não o procurei, porque não tinha condições para isso, mas mesmo assim ele veio em meu socorro, trouxe uma viatura para me dar carona e me livrou não sei de que males pudessem me acontecer naquele estado lastimável. Acharam o telefone de amigos numa agenda que eu carregava no bolso (celular nem projeto era naquele tempo), ligaram para um deles, esse um deles fez a gentileza de ligar para a minha dona, que, por sua vez, ligou para os filhos, que, por sua vez, chegaram quase simultaneamente à delegacia onde eu já estava acordado e mais ou menos consciente.

Não sei por que estou contando isso. Talvez seja porque certas coisas que a gente viveu no passado costumam aparecer repentinamente, tamborilando no teclado e pedindo que as transporte para a tela.

Foi uma das poucas bebedeiras na minha vida pacata e sensata. E esta que conto hoje já faz muitos anos. Eu ainda estava nos oitenta e poucos.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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