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09/05/2019 | domtotal.com

Corte nas universidades pode ser 'chantagem', diz ex-reitor da UFMG

Em entrevista ao 'Dom Total', Tomaz disse que os ataques do governo Bolsonaro à educação têm cunho ideológico que nega o modelo atual.

Reitoria da UFMG, na Pampulha: MEC cortou 30% do orçamento das universidades federais.
Reitoria da UFMG, na Pampulha: MEC cortou 30% do orçamento das universidades federais. Foto (Foca Lisboa/ UFMG)
Professor Emérito da UFMG, Tomaz Aroldo mostra preocupação com rumos da educação no Brasil
Professor Emérito da UFMG, Tomaz Aroldo mostra preocupação com rumos da educação no Brasil Foto (Foca Lisboa/ UFMG)

Por Rômulo Ávila
Repórter Dom Total

Vários interesses e objetivos do governo Bolsonaro podem estar por trás do corte de 30% no orçamento das universidades e instituições de ensino federais, alerta o professor Tomaz Aroldo da Mota Santos, ex-reitor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab). Barganha ou chantagem pela aprovação da Previdência e pressão sobre as instituições federais de ensino com objetivo de controle político-ideológico podem ser alguns deles. 

Em entrevista ao Dom Total, Tomaz disse que os ataques do governo Bolsonaro à educação têm cunho ideológico que nega o modelo atual com objetivo de atribuir, exclusivamente, à família a educação dos filhos, com base em valores religiosos que não aceitam opiniões divergentes. “Tudo o que se disser de diferente disso é considerado negação da 'verdade' preconizada pelos textos sagrados de referência  e por isso, condenável”.

Reitores de diferentes universidades dizem que corte afetará serviços básicos a partir do segundo semestre deste ano. Faltará dinheiro para pagar contas de água, energia, fornecedores, alimentação, programas de assistência a estudantes pobres.

Confira a entrevista:   

Corte de verbas

Anunciou-se o corte de 30% dos recursos de custeio e investimento nas instituições federais de ensino superior. Com a verba de custeio, o que pagam as instituições de ensino superior? A resposta a esta pergunta nos permite visualizar os prejuízos que o corte causará.

Cito alguns gastos: com serviços terceirizados, inclusive os de portaria, limpeza e vigilância; com suprimento de energia elétrica para: iluminação de áreas comuns internas e externas aos prédios, funcionamento de elevadores e de diversos equipamentos usados em áreas administrativas, salas de aula, laboratórios de ensino e ou de pesquisa, entre outros; com fornecimento de água; com a manutenção predial e de equipamentos; com o deslocamento (transporte) para realização de  trabalhos de campo etc.; com a aquisição de materiais necessários às pesquisas e ao ensino nos vários campos do conhecimento; com aquisição de livros e outros materiais didáticos. Dessa lista, dá para se imaginar o que as instituições deixarão de fazer ou o farão precariamente, aí incluídas atividades que não poderão ser recuperadas ou reiniciadas. É claro que isso tudo afeta negativamente o processo de ensino-aprendizagem e a capacidade de investigação tecnológica, artística, científica e cultural das universidades.

Ataques do governo à educação

A meu ver, esses ataques têm a ver com a negação da educação oferecida pelas instituições escolares. Essa atitude, de cunho ideológico, é compatível com o propósito  fundamentalista de atribuir exclusivamente à família a educação de seus filhos, para que sejam conservados seus valores religiosos e morais.

Assim, a visão descrita ou preconizada pelos textos considerados sagrados deve servir de critério para explicar a natureza e a vida social. Nessa perspectiva, as crianças devem aprender que 6 mil anos é a idade da Terra – que é plana e o centro do universo; animais e plantas e suas diversidades respectivas foram criadas de uma só vez e distribuídos pelo planeta. Outras crenças se agregam a essas como um conjunto (um pacote) que implicam outros aspectos da vida humana, como costumes, mentalidades, comportamentos políticos. Tudo o que se disser de diferente disso é considerado negação da “verdade” preconizada pelos textos sagrados de referência e, por isso, condenável.

Problemas na educação familiar

A educação domiciliar, essa feita em casa exclusivamente pela família, traz outros prejuízos à formação de crianças e adolescentes, tais como inibir-lhes a curiosidade, a criatividade, a capacidade de perguntar, pois não lhes é permitido duvidar. Nega-se ao adolescente e à criança o aprendizado da convivência em ambiente social plural e, portanto, a oportunidade de desenvolver o conhecimento e respeito pelo "outro".

Nega-se aos aprendizes a ciência, a cultura acumulada pela humanidade e as regras da vida social.

Os cortes e a reforma da previdência

É possível que se trate de uma espécie de barganha, ou chantagem - como dizem alguns. Essa pode ser uma motivação, mas podem existir outras, tais como,  simplesmente a pressão sobre as  instituições federais de ensino com objetivo de controle político-ideológico. Lembre-se a propósito a notícia de que o MEC não apoiará a oferta de cursos de Filosofia e de Sociologia.

Ideias como essa, além de desrespeitarem a autonomia das universidades prevista na Constituição Federal, apontam para um descaso das atividades intelectuais típicas das Ciências Humanas que buscam compreender a constituição, o funcionamento e a evolução das sociedades, bem como da   elaboração e evolução do pensamento humano.

É claro que a humanidade precisa  de máquinas, equipamentos, infraestruturas as mais diversas; precisa compreender, prevenir  e tratar as doenças que afetam seus membros; precisa produzir alimentos com mais eficiência e de melhor qualidade; precisa de muitos e muitos avanços tecnológicos que melhoram a qualidade de vida das pessoas.

Mas precisa também compreender-se e desenvolver sistemas de convivência social, política, econômica harmoniosos e pacíficos. Isso não ocorre sem a participação de pessoas e instituições cujas formações e existências dependem das Ciências Humanas.

Há quem pense que não precisamos das Ciências Humanas e, entre elas, em sentido amplo, a Sociologia e a Filosofia – e por isso não as financia.

Se assim procedermos, a ignorância, a pobreza, a violência, as desigualdades sociais, econômicas, regionais etc. serão vistas como fenômenos naturais – e as sociedades desiguais seguirão sendo desiguais.

Indefinições e exonerações no  MEC

Do ponto de vista dos sistemas educacionais, sobretudo do sistema federal, essas mudanças são muito ruins. Principalmente, não permitem claramente identificar os interlocutores necessários ao desenvolvimento da educação.

Bem ao contrário, de modo irregular, errático, surgem dia a dia propostas e medidas que desorganizam a educação brasileira;  principalmente põem em risco o sistema federal público de ensino superior, que é dos mais importantes do mundo.

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Redação Dom Total

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