Religião

10/05/2019 | domtotal.com

A Bela e a Fera na versão cristã

As igrejas precisam dar respostas concretas contra a violência da mulher que não seja apenas ter fé e esperar a conversão do agressor.

Mulheres cristãs são orientadas a que preservem relacionamentos abusivos e violentos para o bem e unidade da família na esperança de que a fé possa possibilitar que o ‘príncipe’ oculto enfim apareça.
Mulheres cristãs são orientadas a que preservem relacionamentos abusivos e violentos para o bem e unidade da família na esperança de que a fé possa possibilitar que o ‘príncipe’ oculto enfim apareça. (Jean Wimmerlin/ Unsplash)

Por Karen Colares*

A religiosidade é um fenômeno amplamente difundido no Brasil. Não apenas a experiência cotidiana pode comprovar quão múltiplas são as pertenças religiosas e espiritualidades, mas também os dados que se atestam em cada Censo do IBGE. A despeito da diversidade que marca a sociedade brasileira, nota-se ainda a massiva presença das filiações ditas cristãs, sejam de matriz católica ou protestante, formando-se assim, o quadro geral dentro do qual se sugere o início de uma reflexão.

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Dada a massividade com que o Cristianismo se difundiu em nossa sociedade, é inevitável que muitas das concepções que povoam o imaginário comum advenham desse ambiente. Mesmo aqueles que não professam a fé cristã se veem, vez ou outra, envolvidos em ritos, argumentações e crenças próprias desse universo. Evidentemente, a religiosidade cristã passou por muitas mudanças. As adesões à fé apresentam hoje traços inéditos e é possível inclusive questionar se algumas das anuências religiosas afirmadas são consistentes. A despeito disso, essa sociedade, embebida da piedade cristã, é palco de um fato alarmante: o crescimento da violência contra a mulher. A maioria dos casos registrados é concretizada em ambiente doméstico, o que demonstra que ainda estamos diante de uma lógica discursiva e de fé que não oferece influência significativa na correção das várias dissimetrias nas relações de gênero.

Nesse cruzamento entre religião e vida, a pergunta que emerge naturalmente é: o Cristianismo não possui contribuições a fazer para relações mais equânimes? Acaso, a fé não deveria oferecer apontamentos para a concretude da vida humana? No exercício de escuta constante, próprio do trabalho pastoral, a multiplicidade de casos de abusos para com mulheres não tem tido o mesmo impacto para as diversas lideranças. Muitas delas ao invés de instrumentalizarem suas fiéis para denuncia e resistência, apenas reiteram velhos discursos de submissão que longe de preservar a dignidade humana, se preocupam em resguardar uma questionável fidelidade em relação à Bíblia.

O conto A Bela e a Fera que definiu a expectativa romântica de jovens de diferentes origens econômicas, geográficas e étnica durante anos, recebeu uma nova versão nos círculos cristãos. Se antes a donzela deveria suportar a fera geniosa e truculenta na esperança de que o poder do amor pudesse lhe transformar os maus hábitos, agora, mulheres cristãs são orientadas a que preservem relacionamentos abusivos e violentos para o bem e unidade da família na esperança de que a fé possa possibilitar que o ‘príncipe’ oculto enfim apareça.

Nada contra a afirmação de que a fé pode operar maravilhas. Ela efetivamente o faz, mas junto à esperança que se afirma contra o mal, não é necessário recomendar também a prudência e sabedoria? É possível acaso que o bem querer da esposa possa influir de maneira cabal sobre a volição de seu cônjuge? Em outros termos: crer que alguém pode mudar é suficiente para que este acolha transformações ou precisamos começar a atentar para a verdade de que a mudança cristã do caráter não recai magicamente sobre alguém que não a deseja?

Em tempos nos quais os direitos humanos estão estabelecidos (ainda que em tese) de maneira tão clara, soa um tanto estranho ter que levantar tais questionamentos. Não deveria ser necessário fazer tal percurso porque afinal de contas, quando se debate a questão da violência contra a mulher, e em especial, a violência doméstica, a pauta primária não é sobre a mudança que o agressor pode ou não vivenciar, mas o direito básico de dignidade e integralidade que está sendo solapado. A despeito disso, não são poucas as apropriações interpretativas da Bíblia que de maneira superficial e isolada remetem ao suposto papel feminino de submissão para manter mulheres devotas em relações injustas e desumanas. Talvez a porta de salvação de tais mulheres seja justamente compreender quando a pretendida união em uma só carne já foi comprometida.

Nesse ínterim, a epístola escrita aos Efésios tem uma interessantíssima contribuição a fazer. Mesmo condicionada pelos parâmetros socioculturais que regiam sua época, ela oferece uma admoestação ainda muito pertinente ao apontar aquela que é a característica vital a perfazer as relações conjugais, o reconhecimento de que ambos partilham uma mesma carne: “Da mesma forma, os maridos devem amar cada um a sua mulher como a seu próprio corpo. Quem ama a sua mulher, ama a si mesmo.” (Ef 5,28) O entendimento de que seja primordial amar o cônjuge como a seu próprio corpo remete quase que automaticamente a outro texto fundamental, lido com frequência em enlaces matrimoniais: “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne.” (Gn 2, 24).

A despeito da presença destes textos em bíblias de versões católicas e protestantes, o desdobramento prático advindo desse compartilhar de humanidade ainda está por ser feito. O amor ao outro nunca deveria conduzir a que se perca a noção do valor próprio bem como o amor que reconhece o outro como sua carne, ou na linguagem de Gênesis “osso dos meus ossos e carne da minha carne”, é antes de qualquer coisa, aquele que enxerga um ser humano tão integral, livre e digno quanto o próprio indivíduo. O que acontece em relações nas quais a humanidade é desrespeitada em sua condição fundamental é justamente o não reconhecimento do outro como sendo da mesma carne, da mesma constituição, do mesmo valor e dignidade. Assim, ser uma só carne se torna apenas um conto.

*Karen Colares é mestra em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia e doutoranda em Teologia na área de Teologia da Práxis na mesma instituição.

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