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10/05/2019 | domtotal.com

Escreve aí, depressa!

Quem fala muito se arrisca a receber uma saudação equina, mas na maioria dos casos só nos resta escrever, falar e assim tirar o nó da goela.

Escrever é lançar uma ponte sobre o abismo, arriscando tentativas de resposta, garrafas ao mar, tipo: ei, estou vivo, e você?
Escrever é lançar uma ponte sobre o abismo, arriscando tentativas de resposta, garrafas ao mar, tipo: ei, estou vivo, e você? (Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

Triste é notar que as pessoas – de maneira geral – estão se esquecendo de escrever. Não me refiro às mensagens do tipo: td blz? vc vai ap hj na balads? Parte do problema é que escrever, escrever mesmo – assim como ler – são atos solitários e praticados em silêncio. No fundo, escrevemos é para nós mesmos, buscando responder às perguntas que nos faz o coração. E o pessoal anda com medo do silêncio e da solitude. Parece que ninguém mais sabe ficar sozinho e calado, que coisa! Mas a regra é clara: ninguém chega aos limites da própria alma em bando, acompanhado da galera, naquela zoeira.

Já que você não deve nada a nenhum crítico literário, escreva, preto no branco, uma emoção vermelha de paixão, um sonho verde de esperança, um sorriso amarelo – sem medo do clichê, do lugar comum, da redundância ou do ridículo, sacou? Escrever é invadir com os nossos fantasmas desengonçados o espaço em branco da página e se expor com nossas dúvidas ortográficas, nossa fragilidade e temores de etiologia variada. Escrever é lançar uma ponte sobre o abismo, arriscando tentativas de resposta, garrafas ao mar, tipo: ei, estou vivo, e você?

Portanto, escreva para aquela pessoa e confesse que não aguenta mais ficar longe. Ou escreva para aquela pessoa e diga que não a aguenta mais por perto. (Muito cuidado, então, com os detalhes e a colocação dos pronomes). Escreva a lápis, com carinho, na última página do caderno de seu filho, dizendo que você se emociona com os cadernos amassados dele; que você tem sido um idiota que passa a vida na frente do computador adiando aquele papo de homem pra homem, regado a sorvete de flocos.

Ou escreva com raiva, quase esbofeteando as teclas, dizendo tudo que sempre quis ao seu chefe, ao gerente de marketing, ao supervisor de orçamento, ao chefe da controladoria, ao bispo, ao Criador. Na maioria das vezes, nem será preciso enviar – só escrever já fez bem. Escreva e peça perdão. Há sempre alguém parado no tempo, à espera de um perdão justo e necessário que você não teve coragem de pedir até hoje, seu bundão. Sem ele, a vida não segue em frente, fica derrapando no barro.

Dizia Freud que o homem é senhor de seu silêncio e escravo de suas palavras. Mas deve ter concebido esta pérola num dia especialmente ruim, enquanto andava pelas ruas tristes e geladas de Viena, cobertas pela bruma do inverno, numa fossa existencial abissal. Já eu acho que o silêncio nem sempre é de ouro e quem se cala pode, eventualmente, não consentir.

Quem fala muito se arrisca a receber uma saudação equina, mas na maioria dos casos só nos resta escrever, falar e assim tirar o nó da goela. Mesmo porque, a primeira coisa que fizemos logo ao nascer foi botar a boca no mundo. E a última, com toda certeza, será um grande, infinito e definitivo silêncio.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O Tempo.

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