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13/05/2019 | domtotal.com

Um lorde com cara de cão

Mas eis que um dia aparece na vila um certo João Grilo, cuja atividade não demorou a ser desvendada: era afanador profissional de penosas.

Ai de quem se atrevesse, em horas mortas, a invadir aquele território povoado por árvores frutíferas e dezenas de galinhas
Ai de quem se atrevesse, em horas mortas, a invadir aquele território povoado por árvores frutíferas e dezenas de galinhas (Pixabay)

Por Afonso Barroso*

Habitou em uma casa de São José do Jacuri, no tempo dos ladrões de galinha, um cachorrão enorme, cor de abóbora desbotada. Atendia pelo nome de Lorde. Era o mais dócil e também o mais temível dos cães. De dia, um verdadeiro lorde. Tratava a todos, fossem da família ou estranhos, da maneira mais cordial possível. De noite, porém, assumia com assustadora responsabilidade a missão de tomar conta do quintal. Ai de quem se atrevesse, em horas mortas, a invadir aquele território povoado por árvores frutíferas e dezenas de galinhas que dormiam empoleiradas nos galhos mais baixos. 

Em verdade, a casa do Seu Barroso era a única livre dos ladrões de galinhas que costumavam frequentar os quintais da vila. Eram conhecidos. Tanto que um deles ganhou o apelido de Zé Pega Pinto. Todos eles conheciam — e por isso temiam — o Lorde do Seu Barroso. Sabiam que tentar uma incursão naquele quintal era expor-se à fúria de um cão enorme e impiedoso. Melhor baixar em outros terreiros. 

Mas eis que um dia aparece na vila um certo João Grilo, cuja atividade não demorou a ser desvendada: era afanador profissional de penosas. Vivia de galinhas alheias. Viera de algum povoado distante e ainda não tivera tempo de tomar conhecimento de um guarda noturno chamado Lorde. Por isso, resolveu fazer uma visita ao pequeno latifúndio urbano dos fundos daquela casa grande do largo de cima.

 Já fizera o reconhecimento do terreno. Tinha visto a cerca comprida de pau a pique e esfregara as mãos ao ver do lado de dentro o grande número de galináceas ciscando naquele terreiro imenso. Vira-as empoleirando-se nos galhos das árvores ao anoitecer. Seria fácil, fácil afanar algumas delas. Era só pular a cerca, caminhar uns passos, pegar uma ou duas, meter no saco de aniagem, correr e pular a cerca de volta.  

Ali pelas três da madrugada escura, lá vem o desavisado Grilo esgueirando-se ao longo da cerca. Com sua vasta experiência no ofício, pula para dentro do quintal. Tudo calmo, tudo livre. Acende a lanterna que sempre carrega, caminha com cuidado até um pé de goiaba de galhos nus e apinhado de galinhas. Escolhe uma, pega-a pelo pescoço e mete no saco. Pega uma segunda e faz o mesmo. Dá vontade de apanhar uma terceira, que elas estão ali como frutas a colher, mas acha melhor se mandar. Vamos embora, fala, dirigindo-se às galinhas aprisionadas, que já trata como suas.

Mas, antes de chegar à cerca ouve um rosnado medonho: RRRRRRRRRRRRRRRRRR. Bate a lanterna na direção da voz canina e vê o carão enorme do Lorde, postado em posição de ataque à beira da cerca. Os olhos do cão faíscam, e o rosnar soa como um rugido selvagem. Lorde é educado. Não late como os malcriados rottweilers ou pittbulls, pois longe dele incomodar os donos da casa. Ele apenas rosna para avisar ao intruso que ele está em cana.

Correr pra onde? E como? As pernas de João Grilo tremem como vara de movarisco ao vento. Os joelhos parecem de pano, o coração e a respiração aceleram e param, aceleram e param, intermitentemente. O cão cresce à sua frente. O terror amolece os punhos do larápio, que deixa cair a embalagem e as galinhas fogem, esbaforidas.

RRRRRRRRRRRRRRRRRR. Agora só resta ao Grilo aguardar o pulo sobre ele. É o que acontece. O impacto do corpanzil do Lorde arremessa-o de costas. Ele fecha os olhos à espera da mordida fatal, provavelmente no pescoço. Reza para pedir a Deus a extrema unção. Mas Lorde apenas aplica as patas sobre o peito do intruso. RRRRRRRRRRRRRRRRR. Grilo sente no rosto o bafo mortífero. Nas calças, a umidade que não pôde segurar. E Lorde continua ali. Ao menor movimento da presa, deixa escapar o medonho rosnado. RRRRRRRRRRRRRRRRR.

O tempo passa e a cena continua. O cão sobre o homem, o homem sob o cão. Os galos cantam a chegada de mais um dia que vem vindo, vem vindo, vem vindo.

Amanhece. As galinhas descem dos poleiros e passeiam pelo quintal a debicar no chão possíveis grãozinhos de qualquer coisa. Zefa, a empregada, aparece na porta da cozinha com o desjejum: é uma cuia cheia de milho. Ela desce a escada, joga a primeira mãozada no terreiro, as galinhas amontoam, e ela se assusta ao ver na beira da cerca um homem deitado, inerte, e ao lado dele o Lorde. João Grilo adormecera, de certo prostrado pelo medo. Mas Lorde só é bravo de noite. De dia, como se sabe, é um lorde. Ao raiar o dia, deixou a presa dormir em paz e se deitou também, a cochilar de olhos semiabertos.

Zefa corre pra dentro da casa e não tem muito trabalho para acordar Seu Barroso, porque o velho acorda sempre com as galinhas e já está lavando o rosto. 

— Seu Barroso, tem um ladrão no quintal. Acho que o Lorde matou ele.

O dono da casa termina calmamente o que está fazendo, em seguida pega o revólver, enfia na cintura e acompanha a empregada até o quintal. Ele sabe bem o que aconteceu.

O ladrão acorda e ergue o dorso com cuidado. Atônito, ele vê ao lado, deitado e tranquilo, um cão enorme, cor de abóbora desbotada. E à sua frente, um homem sorridente, revólver à patente na cintura.

— Bom dia, rapaz, levanta e vem tomar um café — convida gentilmente Seu Barroso. 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

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